domingo, 23 de outubro de 2022

ESQ CAV 149, PAIÃO 15 10 2022

 

Nota: A utilização de uma máquina nova originou um erro técnico motivo pelo qual não é, por enquanto, possível utilizar a filmagem vídeo. Por tal e para assinalar, desde já, a nossa confraternização de 2022 foi feito um pequeno vídeo apenas com as poucas fotos tiradas na altura.

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

CONFRATERNIZAÇÃO 2022

CLICAR PAR VER GRANDE

Caros Camaradas do Esq. Cav. 149;

Finalmente, morto o covid viva a confraternização. E para visitar e arejar noutros ares, viva a mudança para a Figueira da Foz que é local central para a grande maioria dos camaradas.

Cada vez somos menos pelo que cada vez mais é urgente reunirmos-nos, vermos-nos e estarmos juntos para reviver as nossas histórias únicas passadas como Soldados do Esquadrão Cav. 149, também este, uma Unidade Militar especial moldado à semelhança das inigualáveis qualidades dos seus comandos e subordinados que souberam integrar-se todos num corpo organizado único, familiar.

Fomos protagonistas numa Unidade que nos fez passar por perigos maiores na selva africana mas que, também, como disse o nosso saudoso Ten. Mil. Médico Dr. João Alves Pimenta, nos tornou mais homens e mais fortes para enfrentar a nossa luta na selva da vida civil quer na aldeia, na grande cidade, na emigração ou onde quer que tivessemos de enfrentar dificuldades.

Pela passagem imparável do tempo somos cada vez menos em número mas cada vez maiores em valor militar e moral dados os feitos e o respeito e tratamento que a nossa Unidade manteve sempre perante o inimigo. Podemos dizer que todos fomos heróis de guerra sem nunca ter cometido um único acto terrorista.

Vamos, todos que possam, vermos-nos de novo em Paião, Figueira da Foz, em 15 de Outubro de 2022.    

     

sexta-feira, 24 de junho de 2022

A GUERRA RÚSSIA-UCRÂNIA 3

 

Carlos Matos Gomes, in Medium.com 16.06.2022 retrata do seguinte modo os dirigentes europeus que se deslocaram a Kiev para discutir com o poder local a guerra em curso entre a Rússia e a Ucrânia:

No seu texto «O Quarteto de Kiev - Os Três tristes e um outro coitado» diz,

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«Mas os três tristes que apareceram numa fotografia em amena cavaqueira numa carruagem de comboio em trajes de turistas, um deles até de jeans, também não são mais que pobres diabos postos fora de jogo. A guerra na Ucrânia trava-se entre a Rússia e os Estados Unidos. A União Europeia é apenas uma serventia para os dois contendores. Um trio que faz umas animações à frente da cortina do palco nos intervalos entre atos.

O Quarteto de Kiev, com ou sem acompanhamento de funcionários como Ursula Van Der Leyen, Borrel, ou Charles Michel não tem qualquer instrumento de atuação, empenharam-nos, e não tocam qualquer música. Talvez tenham umas gravações, talvez assobiem para o ar, talvez façam play back, ou Karaoke! A UE é um grupo de Karaoke!

Entretanto há outra instituição da União Europeia que, como dizem os brasileiros, também se escafedeu: o formigueiro que se reúne no edifício transparente do Parlamento Europeu.

O que dizem aos eleitores os deputados europeus sobre a guerra, as sanções, as soluções, o presente, o futuro? Nada! Aos costumes dizem nada. Elegemo-los para quê?»

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Neste texto, como em outros recentes, o Coronel Matos Gomes vem acentuando os seus devaneios históricos anti-democracia e pró-totalitarista duma forma sempre cada vez mais contínua, acentuada e agressiva e, paralela e paradoxalmente, tenta vender o pensamento único do totalitarismo imposto à força, enquanto discorre fake news relativas a um "pensamento único" europeu acerca do qual o simples facto, de ele e muitos outros puderem escrever as suas catilinárias anti-Europa como no presente texto, desmentem categoricamente.

Aliás, um sintoma evidente de pensamento único que os defensores de Putin, eles sim querem impor à Europa democrata, é o caso das sanções desta impostas à Rússia. Se repararem bem, todos esses defensores da invasão russa argumentam dados, sabe-se lá donde, na tentativa de nos convencer que as sanções aplicadas à Rússia são todas elas uma "benesse" dada ao regime autocrata russo e representam para a Europa um custo incalculável e insuportável para os europeus. Este é um "pensamento único" da propaganda russa e seguidores europeus dada a alta possibilidade de tal influenciar a livre opinião pública europeia, cinicamente seguros de que do outro lado nenhuma opinião pública se pode pronunciar ou influenciar o curso da guerra por estar amordaçada.    

Aqui, os lideres europeus, eleitos democraticamente, da França, Itália e Alemanha são considerados como um grupo de pobres diabos cantores de karaoke ou bonecreiros que animam o público, frente à cortina do palco, entre-actos. Também os deputados europeus eleitos são considerados como bonecos ou broncos que nada perguntam, questionam ou sabem e remata: - Elegemo-los para quê? De facto os deputados, eleitos por diversos partidos, estão no parlamento europeu para discutir os problemas da UE segundo diversos pontos de vista ideológicos e não de um partido único para apoiar a guerra decidida por uma eventual mente ressentida ou doentia.

Da primeira à última linha todo o sentido do texto é um verdadeiro anátema anti-Europa, do Estado de Direito de livre circulação de ideias e opiniões e uma estudada e pensada apologia do totalitarismo. Totalitarismo que, por definição ("ler A Origem do Totalitarismo") de  Hannah Arendt, é sempre um movimento de massas ideológico racista, classista ou de outra qualquer dogmática base ideológica contra um qualquer considerado mal, passado ou existente na Sociedade. É-o por necessidade de manter o movimento de massa permanentemente munido de uma ideologia simples e forte, unido e pronto para a luta contra o inimigo, pré-designado alvo a abater.

Afinal, Matos Gomes, que apenas se representa a si mesmo segundo o seu direito de opinião assegurado pelo facto de viver num Estado de Direito, qual é a sua autoridade política para se pronunciar de forma tão categórica contra os políticos europeus? Porquê estes lideres europeus, que foram eleitos pelos seus povos entre vários candidatos por um definido período de tempo, são pobres diabos e o líder vitalício russo que prende ou manda matar os opositores, políticos ou não, e é eleito sob o terror de uma farsa eleitoral é, quer o regime quer o seu líder autocrático, entidades nunca mencionados, intocáveis, logo, por omissão, entidades respeitadas e apreciadas, pelo Snr. Coronel?

O que faz que os lideres ocidentais sejam "vistos" e apelidados de turistas pobres diabos de jeans, (de jeans, imagine-se a bandalheira), pelo Snr. Coronel e outros? É dada a explicação de que são "serventuários" dos USA sem direito de voto na matéria da guerra; porque esta é verdadeiramente travada entre duas superpotências onde nada mais conta e, claro, muito menos os moços de recados lideres dos estados europeus. Aqui, não se percebe porque se irritam tanto os russófilos pelas visitas e apoios dados por esses ditos insignificantes países à Ucrânia; o normal seria um tratamento depreciativo estilo pró-desprezível como faz o nosso Coronel. E menos se percebe a diatribe deste texto quando a percepção que nos transmite tal visita é a de uma certa independência e transmissão de ideias diferentes face às posições falcoeiras dos USA; o dogmatismo ideológico a sobrepor-se ao racionalismo.

Contudo, os argumentos estilo desprezível aqui usados, para auto-justificação, não passam de falácias repetidas desde os primórdios das lutas entre espécies humanas. É verdade que desde tempos imemoriais as guerras se deram entre ligas ou uniões de grupos em volta do mais forte a quem outros mais fracos se aliam para defesa do que consideram seus interesses comuns. Desde os Sumérios, primeiro povo que deixou registos escritos, que se fizeram uniões ou ligas de povos que se uniram por força maior de lutar conjuntamente pela sobrevivência. A Guerra do Peleponeso foi, também, uma guerra entre duas ligas, a Liga Ática chefiada por Atenas e a Liga do Peleponeso chefiada por Esparta. As guerras dos cem e trinta anos foram guerras terçadas entre reinos aliados dos dois lados. E as duas últimas Grandes Guerras foram, igualmente, travadas por alianças de povos europeus designadas, na última, o Eixo e os Aliados. Sempre foi assim por necessidade e, certamente, assim será pelo que tal argumento de servilismo dos fracos face aos mais fortes é uma falácia, essa sim gratuita, para aplicar em narrativas falsas.

Aliás, na última Grande Guerra os USA fortes, mas isolacionistas, foram solicitados de emergência para salvação da GB amiga e da Europa por arrasto, caso contrário estaríamos todos, incluindo os russos, a saudar os alemães envergonhados de cabeça baixa. Precisamente, dessa vitória quente sobre o nazismo, apesar do pacto Hitler-Stalin para espoliar cada um fifty-fifty a Polónia, seguido do gratuito massacre russo de Katyn, nasceu uma guerra fria que obrigou, necessariamente, a Europa a abrigar-se sob o chapéu militar protetor dos USA face a uma Rússia que ameaçava Berlim e outro países limítrofes.

 E foi, também, essa protecção que evitou nova corrida ao armamento da Europa e, necessariamente, permitiu poupanças avultadas dedicadas ao desenvolvimento e bem estar dos povos europeus; e talvez, penso eu, beneficiaram os portugueses ao ponto de ficarem gordos e anafados que, agora, entediados de paz e bem estar de fartura democrática queiram experimentar uma dose de regime tipo norte coreano como, digo eu, tratamento para corpo são em mente sã.

Mas, voltemos à questão acerca do que faz com que os lideres ocidentais sejam "vistos" e apelidados de turistas pobres diabos de jeans pelo Snr. Coronel e outros ocidentais. Qual a realidade ou narrativa que os faz ver desprezíveis os lideres das democracias em contraponto com o zelo de omissão intelectual pelo totalitarismo russo, chinês e até norte coreano? Porquê esta sedução pelos regimes autoritários quando ainda não estão saradas as feridas do Estado Novo salazarista? Há de haver, certamente, algo de atractivo e sedutor que atrai tanta gente para o retrocesso civilizacional revisionista do novo despotismo totalitário. 

Estarão ainda fascinados pelo imenso e valoroso estudo anti-capitalista de Marx? Ainda não entenderam que Marx, o rato de bibliotecas, foi um sociólogo notável que desmontou, inapelavelmente, o método de acumulação capitalista da sua época mas se enganou redondamente, como todos antes dele, no seu plano filosófico sistémico de sociedade igualitária socialista? Mesmo após o colapso, por razão do auto-apodrecimento interno, do socialismo real na URSS e dos exemplos de Pol Pot, Kim Jong-Un, Ji Ping e outros que continuam por cá como presidentes-reis absolutos vitalícios, ainda não apreenderam a contradição interna do sistema que o  conduz, inevitavelmente, ao colapso por desprezo social do povo ou ao terror imposto até ao levantamento em massa do povo.

O mesmo erro de Platão, na sua "República", é cometido por Marx no seu "Socialismo". Ambos pensaram que por meio de aplicação de uma educação única adequada de raiz ao homem, após uma limpeza ao cérebro bem planeada e melhor executada, fariam desse homem o "Homem Novo" de futuro único; futuro único a que Marx chamou de "fim da história". 

Que enorme quantidade de filósofos embarcaram nesta patranha do "homem novo" e "fim da história" proposta por Marx? E quantos ainda hoje, embora não filósofos reconhecidos, embarcam nesta falsa narrativa? Desprezaram Ortega y Gasset que disse, "Eu, sou eu e as minhas circunstâncias" para alinharem como António Aleixo, ensinado pelos marxistas, que "(Eu), sou simplesmente o produto do meio onde fui criado"

Na realidade a ideia base de Marx era essa de, tal como Platão, criar um homem novo socialista ou republicano igualitário independentemente do "Eu", ser único inteligente, pensante individual e diferente de todos quer em capacidades intelectuais quer em habilidades manuais lógicas quer em capacidades físicas pessoais. Hoje, muitos cientistas dirão; com algoritmos individuais de capacidades de resolução cerebral e física diferentes de indivíduo para indivíduo.

Também não querem entender que o "socialismo" de tipo marxista-leninista colapsou por que todo o totalitarismo se transforma, imediata e necessariamente, num Estado tirano obrigado a estabelecer uma "constituição" que não passa de um código de costumes feito de mandamentos e dogmas. Que tal Estado não tem mais capacidade de adaptação para acompanhamento da, cada vez mais rápida, evolução da moral, ciências e tecnologias digitais, biológicas, etc., que surgem em catadupa década a década. Ao contrário, o capitalismo sempre mostrou uma capacidade plástica-elástica de adaptação no confronto com o socialismo real que levou de vencida a ideologia única estatal que, durante quase um século,  parecia ser o futuro da humanidade e foi um fiasco planetário. E, apesar dos esforços actuais, em nome do socialismo, mas por via de um capitalismo estatal totalitário tal qual os empresários do mundo sonham, os homens continuam sonhando viver em liberdade.

Esta sedução e fascínio pelo absolutismo insinuado na forma de rituais impressionantes de sentido e força de atração inumama, religiosa, mística que proporcionava o endeusamento de reis, czares, e imperadores e hoje é usado pelos seus descendentes políticos sobre a terra e com a mesma simbólica mensagem da divindade do poder; assim, ao estilo de uma repetição do Czar em S.Petersburgo ou do Rei-Sol em Versailles, se apresenta Putin ao entrar e passar por aquelas portas, corredores, e salões dourados grandiosos de forma singular única, ladeado pelos novos cortesãos baixando a cabeça num acto simbólico de adoração.

O mesmo sentido de grandeza quis Putin transmitir ao mundo ao receber, avant la guerre, os lideres europeus numa longilínea mesa que os colocava tão afastados, de sua personagem de culto, como se se tratasse de pedintes ou leprosos. Esta representação ostensiva de absolutismo é a mesma que transparece nas suas aparições televisivas, quer quando só como circundado de moças da Aeroflot decorando o ambiente pois, só ele fala, só ele dita a palavra, só ele afirma, só ele designa, só ele tem pensamento ali, só ele é responsável, só ele diz. Tal como Deus e Pitágoras; Ele disse.         

Será este simbolismo filho do perverso culto de personalidade tão querido do absolutismo e que leva ao tratamento depreciativo-ridicularizativo-desprezível do outro, dos outros, que fazem pessoas como o Coronel Matos Gomes, no que respeita aos dirigentes europeus, imitar grosseiramente e por excesso mais papista que o papa, o Senhor Putin? 

 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

GUERRA RÚSSIA - UCRÂNIA 2

 

A ladainda putinista anti-democrática continua cada vez mais sonante e refinada no intuíto de enganar os mal informados quer pela net, quer pela má leitura ou não leitura da história política, científica e filosófica da civilização, pela propaganda do totalitarismo russo, chinês e outros menores ou, porque ignorantes recentes de repente engoliram acriticamente a ideologia nacionalista identitária dos regimes totalitaristas que os fascinam vendo no seu pensamento redutor único e forte simbologia uma sabedoria que lhes fornece argumentos contestatários que os fazem sentir-se gente com pensamento próprio.

Erradamente, porque constituída à base de falsos argumentos que o ignorante não detecta ou, como no caso do ressentimento dos oportunistas vencidos ou falhados, que foram rejeitados e remetidos ao lixo pela democracia; é exemplar o comentário de um putinista que li num blog onde dizia, acerca dos pulhas empresários milionários ddt na democracia, que todos usavam os Off-Shores para esconder o dinheiro e os negócios escuros e que ele só o poderia fazer se um dia ganhasse o "Euromilhões". Logo, o problema não era a existência de Off-Shores ocultos criados, precisamente, para facilitar negociatas sujas e menos limpas e fugas aos impostos de forma legal mas, sim, o facto de o próprio não poder usufruir dos ditos criativos bancos secretos para fazer o mesmo, isto é, por pura inveja.

 A ladainha usual é uma caricatura dos miúdos que colecionam cromos pois, têm sempre uma acção retirada da história, recente ou não, acerca do Ocidente (leia-se USA, Nato, Europa, Democracias) para a troca com a atual acção de invasão russa tal como os tais miúdos colecionadores fazem com os cromos da bola. Qualquer acção de qualquer tempo histórico e civilizacional serve de argumento para justificar a invasão russa actual; para o putinista nenhum passado prescreve nem a civilização evolui e, como tal, para tal gente até a barbárie dos tempos arcaicos faz parte da actualidade. 

Os mais lidos ou intelectualizados fazem-no de outro modo mais sofisticado, procurando exemplos dos gregos clássicos, da literatura ou filosofia especificamente da marxista ou stalinista neo-revisionista. O exemplo típico deste género é o intelectual Coronel Matos Gomes, uma desagradável surpresa, que vai tirar exemplos enviesados, mal estudados e amanhados dos gregos esquecendo o acto inaugural da aplicação da justiça contra a barbárie que foi o novo tempo iniciado com o panteão olímpico chefiado por Zeus, como está claramente inscrito na peça "Euménides" de Esquilo onde se diz que as "as leis novas vão alterar as antigas"; as novas leis que alteravam a justiça das Erínias que consideravam justa e aplicavam a justiça cega de vingança de sangue pelo sangue ou de Ares que se julgava justo por "matar os que matam", sem mais. Desde então as Erínias foram dadas como Euménides ou Benevolentes por, pela persuasão racional, aceitarem o julgamento pelo povo ordenado como tribunal.

Os novos deuses olímpicos, há já cerca de 3000 anos, terminaram com os julgamentos por vingança de sangue, isto é, aquilo que foi um argumento de Putin e continua um argumento contínuo dos putinistas o qual diz que a Rússia se viu obrigada a uma guerra contra os ucranianos por que estes matavam os russófonos ucranianos e pelos vistos pretendem fazer da bárbara "lei antiga" arcaica das Erínias uma lei actual para recuperar todos os territórios russificados pela antiga URSS. Para já andam a plantar "Républicas Populares" em territórios conquistados a outrem pela guerra, designações de "Estados" com sentido e significado claramente insinuando o regresso à URSS recém caída de podre. Talvez esteja em mente que a grandeza devida ao culto de personalidade do novo Czar seja a criação da "Républica Popular da União Europeia".    

Outra falsidade muito usada, inclusivamente pelo referido Coronel é a de que o Ocidente, leia-se as democracias liberais, querem impor ao mundo um "pensamento único". Ora é nestas Democracias que está instituída a liberdade de opinião e expressão ao contrário dos regimes totalitários onde o que está instituído é o delito de opinião aplicado com tais severidades que vão até à acusação de traidores à pátria com penas tão elevadas como se tratara de assassinos. O facto de Generais, jornalistas, analistas e cientistas políticos, qualquer um académico da guerra ou da política, anónimos das redes sociais, etc. e até o dito Coronel, podem declarar e exercer o seu direito de opinião sem serem molestados por qualquer polícia política ou outra, é a prova real de que, não é possível evitar que haja uma presente e forte opinião pública diversificada,  precisamente, o contrário do que se passa nos regimes totalitários, especialmente no regime putinista e muito mais agora face à guerra que iniciou.

Mais do que uma falácia, é tentar inverter a racionalidade lógica do pensamento, ao afirmarem que é o Ocidente que quer impor ao mundo um pensamento único. Não, o pensamento único é uma condição necessária à implantação interna e sobrevivência do totalitarismo e é uma condição prévia necessária para lançar um guerra de invasão decidida por uns quantos chefes com total desrespeito e desconsideração pela opinião pública dos seus povos. 

Aliás, é o totalitarismo que necessita criar, invariavelmente, um inimigo e até uma guerra para manter o povo sob estado de massa em movimento guerreiro permanente decidido, controlado e apontado ao inimigo, declarado pelo partido único. Nos totalitarismos o estado de guerra é a situação necessária ideal para prender ou liquidar inimigos políticos e manter o povo apavorado de medo por temer ser delatado pelo vizinho por ter opinião diferente, precisamente, do pensamento oficial único.

Ou já se esqueceram da nossa ditadura e do salazarismo!


terça-feira, 10 de maio de 2022

A GUERRA RÚSSIA - UCRÂNIA & A AUTO-EXTINÇÃO.

1. A Ladainha dos Putinistas

É um tristeza total e um sintoma de irracional mal estar humano ver tanta gente que defendeu a injustiça da guerra colonial por ser utilizada por um ditador e que chamou, com razão e sem reserva de dúvida, fascista colonialista imperialista ao ditador Salazar, digo, é um sentimento frustrante vê-los agora defenderem o contrário perante uma situação semelhante.

Basta reparar que tais troca-tintas, na defesa de uma invasão sempre negada e nunca declarada mas transformada numa destruição massiva e matança ad-hoc, nunca pronunciam as palavras-chave que gritaram nas ruas no 25Abril; Democracia e Liberdade.

Também, especificamente, só anunciam as barbaridades cometidas pelos regimes democráticos e ocultam ou desculpam as barbaridades iguais dos regimes totalitários que são cometidos sob ocultação da sua própria opinião pública submetida à censura e perseguição política feroz do regime totalitário protagonista. Mais, nunca referem que, por exemplo, nas democracias as opiniões públicas nacionais derrubam guerras e governos quando estes persistem em manter invasões e guerras que deixam de ter sentido como no caso icónico do Vietnam. 

Usam uma ladainha de valores de verdades em que o agressor e invasor nunca é o agressor nem o invasor mas tudo tem um princípio e uma causa de há anos ou séculos históricos que culpabilizam o invadido e massacrado; ao jeito de, se não foste tu foram os teus avós ou antepassados. Iniciam sempre a sua ladainha de verdades preconceituosas com uma causa histórica inicial conveniente cometida pelo inimigo ideológico como, por exemplo, as matanças dos nazis de Azov sobre russófonos mas o contrário nunca existe; o incitamento e apoio ao separatismo dos russófonos nunca existe, nem sequer o diabólico pacto entre Hitler e Stalin para dividir a Polónia fifty-fifty entre ambos.  E muito menos o massacre genocida gratuito de indefesos prisioneiros polacos em Katyn logo após a invasão e divisão da Polónia, sempre negados e só reconhecidos há cerca de dez anos assim como a ajuda militar dos USA a Stalin para que este aguentasse a frente Russa aquando da preparação para a invasão dos aliados na Normandia.

O mesmo com os fervorosos democratas europeus, agora virados pró-totalitaristas putinistas indisfarçáveis, que nunca se referem à ajuda americana que nos salvou do barbarismo racista hitleriano, e muito menos iniciam neste caso ou outros como este as suas idas aos factos históricos.
Num dos últimos “o último apaga a luz” da RTP a tonta senhora académica do painel perguntava para quê a UE ajudava a Ucrânia quando era sabido que “Putin não ia parar a guerra” pelo que, o subentendido prático da mensagem era que a Europa devia render-se e ajoelhar-se face ao ditador uma vez que a sua vontade imperial era não parar. 

O homo sapiens, está provado, que no início exterminou todos os outros humanos concorrentes, um dia auto-exterminar-se-á numa guerra total contra a vida humana no planeta.

 

2. Salvar ou matar a vida na terra, eis a questão.

Neste momento, passados três meses de guerra, já é perfeitamente visível quer a mentira quer o erro e falhanço de previsão de Putin e seus estrategas. 

A mentira grosseira quando afirmava não querer invadir a Ucrânia mas que apenas se tratavam de manobras, intimidatórias, claro, e até simulou um regresso das tropas a quartéis quando na verdade, a pedido do outro totalitarismo chinês amigo, estava apenas a aguardar que os jogos olímpicos de inverno em curso na China terminassem. Hoje, tudo é claro, dada a invasão e o visível planeamento militar dessa invasão prova de que tudo estava decidido e planeado ao pormenor quando foram enviadas as tropas para a fronteira; só por si a invasão é prova de facto planeado pois nenhuma operação militar de tal envergadura era possível sem um planeamento prévio ao pormenor.

O erro e estrondoso falhanço inicial da invasão russa está na subjectiva e falsa ideia que bastava o rugido das infindáveis colunas de tanques e dos canhões para assustar os ucranianos e levá-los à rendição imediata face à grandiosa, assustadora e brutal máquina de guerra russa em marcha. E, também, a eventual ideia de que a população local russófona sairia à rua aplaudir as tropas "libertadoras" do nazismo ucraniano invocado pelos russos invasores. 

Não foi assim, pois a inesperada resistência ucraniana tornou o plano de invasão militar de fácil em muito complicado e duro em perdas humanas e material. Foi preciso gizar novo plano além da necessidade de lançar mão de armas sofisticadas como misseis e, sobretudo, fazer a ameaça chantagista do emprego de armas nucleares hipersónicas. Chantagistas não porque tais armas-foguetes russas não possam existir e ser mesmo hipersónicas mas porque o facto de serem mais rápidas não significa que esteja livre de uma resposta igual do inimigo; este terá armas nucleares dispostas em locais secretos, em submarinos, porta-aviões e outros grandes navios e até, provavelmente, em permanência no ar para qualquer eventualidade que, mesmo após um ataque surpresa hipersónico, sobrará sempre armas nucleares para uma resposta de potência equivalente ao ataque inicial imprevisto.

Nem Deus nem a Natureza se importam ou ligam ao que quer que seja ou ao que quer que o sapiens faz, disputa e guerreia entre si. Depois de exterminar toda a concorrência humana ao longo de milhares de anos, finalmente, quando o homo-sapiens atingiu a época histórica humanista planetária parece predisposto a fazer a cama onde se deitará para dormir ou para morrer.

Verdadeiramente a invasão russa do país ucraniano assenta numa falsa questão que não é mais que um pretexto para a invasão. O argumento da proximidade das armas nucleares da Nato junto às fronteiras russas; como dizemos acima as armas nucleares existentes estão apontadas em cerco uns dos outros por todos os ditos países nucleares. Por outro lado, uma vez a Ucrânia tomada e feita terra russa, mais se aproxima da Nato e suas armas nucleares o que torna o argumento do perigo do cerco Nato num contrassenso. Tudo isto além da impossibilidade física de cercar um país com a dimensão bi-continental da Rússia.    

Outro forte contrassenso a acrescentar aos acima referidos foi a confissão russa de que é possuidora de misseis hipersónicos que mais nenhum país possui. Tudo indica que Putin andou todos estes anos a aperfeiçoar armas que lhe dessem uma vantagem militar, precisamente, no campo de ganhar tempo ao inimigo no eventual ataque nuclear; isto é, no momento em que obtém vantagem supersónica de ataque nuclear relativamente ao seu inimigo promove uma invasão de outro país com o argumento contrário da desvantagem temporal por motivo de proximidade. 

Se os argumentos para a invasão são falsas questões porquê a invasão militar Russa em pleno Séc. XXI e plena globalização de trocas comerciais, mais ou menos harmoniosas e complementares, entre muitos países que conseguiram, por tal bom relacionamento comercial de trocas, a libertação de milhões de milhões de pessoas da miséria histórica para uma situação de vida compatível com o mínimo requerido para se prosseguir no caminho de atingir uma ideologia planetária, a humanística comunitária global.

Porquê Putin, com a invasão ucraniana, decidiu romper com a estratégia de entendimento de trocas vantajosas para ambas as partes com a Alemanha defendida, contra tudo e todos, por Merkel? Não só destruiu tal bom entendimento de interdependências mútuas como obrigou a Europa a nova reaproximação à Nato e ao rearmamento, inclusive, a um possível poderoso rearmamento militar e nuclear alemão. Que estratégia de futuro a longo prazo definiu Putin para a nação russa? Apenas tomou em conta a manutenção e imposição de respeito pela grandeza imperial histórica da mãe russa que pensou despromovida e humilhada no atual conserto das nações? Gastou rios de dinheiro do petróleo e gás para se dedicar, quase exclusivamente, ao rearmamento e grandeza militar tornando-se, por tal, num médio país como potência económica ao contrário da China que se fez uma potência económica para ser depois, solidamente, uma potência em todos os sentidos.  

Então para quê invadir, inexplicavelmente com falsos argumentos, o seu vizinho de origens e ligações históricas comuns, para mais, quando este dependia totalmente do comércio fronteiriço e especialmente do gás e petróleo russo e não constituía qualquer ameaça militar à poderosa Rússia?         

O discurso de Putin ontem, no dia da vitória russa sobre os nazis, denota ou um disfarce teatral das suas verdadeiras intenções ou um sentimento de necessidade de apaziguamento de quem se meteu num sarilho tamanho do mundo que agora tem dificuldade em resolver a seu contento; foi comedito sem novas ameaças de armas nucleares hipersónicas ou de outras vantagens técnicas em armamentos secretos e até usou de uma linguagem mais defensiva para os mesmos argumentos da guerra tipo blitzkrieg preventiva que pensou e mais aquele novo argumento de que a Nato se preparava para atacar território russo.    

Também o argumento de que esta é uma guerra entre os gigantes militares USA e Rússia e seus respectivos aliados pelo domínio global, é usado por quem se quer fazer passar por equidistante e que a guerra está para além das nossas opiniões e vidas quotidianas. Sendo verdade, na realidade, apenas repete um dado histórico que existe desde que o homo sapiens exterminou a concorrência humana e ficou único humano senhor do mundo. Não acrescenta nada de novo e apenas repete o que sempre foram as guerras entre os mais poderosos e seus aliados para domínio total desde que há registo histórico humano e, certamente, foi igualmente o caso nas disputas entre gens e tribos primitivas para domínio dos seus pequenos mundos conhecidos na altura; acerca da ideia das guerras se tornarem sempre uma disputa directa ou indirecta entre interesses de superpotências, nada de novo sobre a terra. 

Novo, novo sobre a terra é levar uma contenda à possibilidade de extinção da vida humana por auto-holocausto do sapiens sobre a terra quando já é preciso a concertação de todos para salvar a vida na terra de morte natural.    


quarta-feira, 9 de março de 2022

GUERRA COLONIAL, a ideologia maior do que a guerra.

 

Depois da leitura do recente livro de Dezembro de 2021 "Buenos Aires, Tempos de Paixão" do mesmo autor e meu colega do IIL, Institudo Industrial de Lisboa, dediquei-me à leitura do livro "Guerra Colonial, a memória maior que o pensamento"  do mesmo autor com edição de 2009.

Ambos são relatos de factos - reais e datados, servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade -. Será que o facto ficcionado torna a verdade mais profunda e segura? Não será que a utilização da ficção do real serve, antes, para dar à narrativa uma versão pessoal da realidade e, quiçá, uma versão preconceituosa segundo um receituário ideológico?

Cronologicamente contíguos os factos de "Buenos Aires, Terra de Paixão" precedem os factos de "Guerra Colonial", ao contrário do que pode dar a entender a data das edições. O primeiro relata a luta determinada de um estudante pobre, filho de operário de fábrica da CUF no Barreiro e neto de operário ferroviário desde princípios dos anos sessenta do séc. XX. O segundo relata a sua luta contra a guerra colonial desde o ingresso na tropa em Mafra para o Curso de Oficiais Milicianos até à sua 2º ida para a Guerra em Moçambique como soldado raso, depois de uma primeira ida em Outubro de 1972, como Furriel despromovido do Curso de Oficiais Miliciano seguida de prisão militar e novo envio para a guerra como soldado raso despromovido de Furriel Miliciano. O relato ficcionado do livro "Guera Colonial" termina com a Revolução Militar de 25 Abril 1975 anunciada às 07H00 na Rádio, assim; - Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!... -

Ambos os livros têm um denominador comum; o relato dos factos são causas e consequências uns dos outros e sempre ficcionados sob a perspectiva do bom comunista convicto da correta leitura política dimanada do Partido. E, também, têm em comum o mesmo narrador João que não é mais que o autor da ficcão dos factos por si vividos, no primeiro caso como estudante interventivo nas lutas académicas dos anos sessenta em Lisboa e agora como militar na guerra colonial em Moçambique.

Tal como o livro "Buenos Aires, Terra de Paixão" é um longo libelo contra as estruturas e políticas de ensino do regime salazarista, "Guerra Colonial" é a continuação desse libelo face à exploração de tipo esclavagista do colonialismo praticado pelo regime liderado por Salazar e depois por Marcelo Caetano. Todos os capítulos, sub-capítulos e episódios intercalados como fragmentos de saltos temporais e espaciais na corrente da narrativa principal, diga-se, bem inseridos, são eles também construídos sobre factosos históricos de modo a acentuar a aberração político-social do colonialismo português e dar peso histórico à leitura da mensagem central que se pretende transmitir ao leitor.

A visão da guerra colonial portuguesa observada apenas sob o ponto de vista ideológico do partido leva para fundamentações dessa guerra algo contraditórias. Um dos argumentos usuais é pensar que a História dos homens começa onde se lhe queira pôr um início para conveniência da narrativa que se persegue militantemente. Assim, quando se diz no "Prólogo (Advertência)"; - Como se não existissem 400 anos de dominação, escravatura, exploração e opressão! - para denunciar a mentira propagandeada pelo salazarismo acerca da verdadeira realidade africana nas colónias. E antes não existiram outros 400 anos e outros e outros? Será que os regimes africanos anteriores a esses 400 anos não eram de dominação e escravatura face à posse da terra, mulheres e outros bens, às rivalidades e lutas entre os vários povos nativos vizinhos? Teriam os nativos africanos de antes da chegada dos portugueses noções de escravatura, exploração ou opressão no sentido e peso moral que atribuímos no estádio civilizacional de hoje? E o que vem logo a seguir, - A História não se repete mas os tiranos, os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas -, é uma contradição nos termos pois se a "História não se repete" porquê os reaccionários e os defensores dos neocolonialismo e do imperialismo "parecem renascer das cinzas

Foi o próprio Marx que, na abertura da sua obra "O 18 do Brumário de Louis Bonaparte", diz: - Hegel fez notar algures, que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa" (Edição 'Nosso Tempo - Textos'. Tradução M.Teresa de Sousa, 1971). Marx certeiro ao analisar a história mas, incrível é a sua premonição, sem o querer, mas profética e totalmente em oposição ao seu proposto sistema social para o futuro; no preciso momento em que ele pensava banir da história, para sempre, tal repetição de tragédia versus farsa na história dos humanos, dada a proposta do seu pensamento sistémico do socialismo rumo ao comunismo e ao fim da História ele, predizia sem o saber, a grande farsa que foi o futuro do socialismo aplicado à realidade do ser homem e suas circunstâncias e não apenas simplesmente pensando o ser humano como o produto de um meio raso sujeito a uma escolástica ideológica.

Escrito algo ao estilo do neorrealismo o fio condutor da narrativa ficcionada tem como figura principal, tal como no livro Buenos Aires..., o João que, também aqui, se confunde com o próprio autor ficcionista dos factos. Contudo, agora, já não personalizado na figura de um operário de fábrica ou proletário à jorna nos trabalhos da terra mas sim como filho desse velho proletário operário ou rural que fora estudar para a escola dos ofícios para pobres afim de se libertar da condição de vida humilhante dos pais. Agora o João se tornara Engenheiro Técnico e assentara praça como futuro Oficial Miliciano do Exército preparado para a Guerra Colonial; o estatuto do herói da narrativa mudara mas a forma neorrealista de encarar e enfrentar o serviço militar numa revolta coerente e organizada já segundo o modelo ideológico do partido é consciente e constante. Vai ser despromovido do Curso de Oficiais Milicianos para o Curso de Sargentos Milicianos e, mais tarde, preso como Furriel Miliciano e despromovido a Soldado Raso enviado de novo para o interior perigoso da guerra em Cabora Bassa aguentando ideológica e estoicamente as dolorosos injustiças, torturas e sofrimentos a que foi sujeito.

Acerca da grande questão do dever ir ou dever de não ir à guerra também logo no "Prólogo (Advertência)" a questão é colocada; segundo o partido de forma ambígua e segundo o João de forma clara e definitiva imposta pelo argumento de "uma importante nuance" decidida pelo partido acerca da guerra. Diz-se que o partido - Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa - e, de seguida, cita-se o "Avante de Outubro de 1962 (mais de ano e meio depois de rebentar a guerra em Angola e quando já para lá tinham sido enviados milhares de soldados) no qual não se define concretamente se se devia ou não ir à guerra.

Assim, João diz, - A recusa podia revestir diversas formas, nomeadamente: fuga à tropa, recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra -, confirmando a recusa preconizada atrás pelo partido segundo o João. Contudo a recusa é recusada face às medidas de punição severa inscritas no RDM especialmente a pena de morte para deserção em teatro de guerra. Que fazer?

O João explica, - Na determinação da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo, sob todas as formas, os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes, ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos, deviam ir à guerra e uma vez aí desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados (o povo fardado!...) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída, deturpada e mentida -.   Depois, ao longo do decorrer do livro, João, vai descrevendo vários episódios de luta justificativos da aplicação dessa nuance pedida pelo partido aos seus militantes. E diz-nos que esse trabalho de consciencialização política dos militares do quadro tiveram um efeito importante na organização, primeiro do "Movimento dos Capitães" e depois no "Movimento das Forças Armadas" culminando, mais tarde, no derrube do regime em 25 de Abril de 1974. E conclui que tal facto capital se deu porque, - Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra, do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram -.  

Assim, na atual discussão acerca de quem esteve mais certo, se o combatente ou o que se exilou e fugiu à guerra, o autor dá razão ao combatente não obstante o exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. E, não obstante, o autor enfatizar mais o trabalho e atuação premeditada e organizada pelo aparelho do partido junto dos militares, trabalho esse protagonizado pelo João, dado como exemplo, na realidade foram os 13 anos de permanente guerra sem solução política à vista e pior, perante a impossibilidade de vitória militar, caídos  num beco e colocados entre a espada e a parede os militares resolveram derrubar a parede.

Foi, acima de tudo e de longe, o sacrifício de milhares de mortos e feridos que regaram com seu sangue as picadas da selva africana e de pais, mães e viúvas que regaram com lágrimas os lares portugueses que, lentamente, ao longo de uma dúzia de anos mudaram, moldaram e fixaram uma nova consciência dos militares do quadro, em especial dos jovens capitães; especialmente estes que eram os mais próximos dos soldados quer no combate quer na morte. Sabe-se que a organização da revolta dos capitães militares do quadro começou por uma reivindicação corporativa-sindical, contudo, o sentimento de revolta contra a guerra estava definitivamente instalada em suas consciências pois rapidamente transitou de uma simples reivindicação sindical para uma constatação de que tal não resolveria nada acerca da questão de fundo: o prolongamento indefinido da guerra sem fim à vista e em condições cada vez mais difíceis para os militares que, ainda por cima, ficariam com o ónus da derrota.

Como digo atrás, o livro "Guerra Colonial, a memória maior que o pensamento" é um libelo contínuo bem esgalhado sobre o regime do Estado Novo salazarista. Contudo toda a narrativa se enquadra sob a perspetiva política do partido comunista português sem qualquer outra abordagem ou ponto de vista histórico-político. Assim é, simultaneamente, uma contínua apologia política do partido do autor. Até mesmo quando avança pela descrição da História de Moçambique, desde as descobertas dos navegadores portugueses que encontraram um povo - de tipo negróide, ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista -. Com a chegada dos portugueses, estes, - lançaram-se desesperadamente à procura de ouro; quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata; quando esta faltou também lançaram-se em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos, acabando por se contentar com o comércio de escravos -.  

Este episódio, à semelhança dos demais desta narrativa ficcionada, é pensada e focada para terminar em crescendo final, não no empreendimento, mau ou bom, dos navegadores mas sobretudo e apenas no português porco, mau e carniceiro comerciante de escravos. Sabe o autor o que aconteceu aquando os conquistadores do norte forçaram e promoveram a miscigenação dos povos do sul? Mais uma vez faz-se que a História da civilização tenha início onde dá jeito para integrar idealmente a mensagem preconceituosa da ideologia formatada.

Outro caso revelador de preconceito ideológico é o episódio de "O senhor doutor", que fora apanhado  "a desertar com medo da guerra" fugindo a "salto" na fronteira de Vilar Formoso, tratado como cobarde delator do João que - numa noite contou toda a sua história desde pequenino, denunciando a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido, em Mafra, em Dezembro de 1971 -. Este cobarde delator que, mal era ameaçado, "cantava" facilmente tudo à Pide desde pequenino era, só podia ser, do MRPP.

Ao contrário o episódio de "A negra Teresa" revelando um facto igualmente degradante para a pessoa humana, a personagem porque se degrada, se rebaixa e se deixa humilhar e prostituir como ser humano ao serviço da causa do "bem" é tratada como uma heroína sem a mais pequena repreensão moral a quem a condena sujeitar-se a tão desumana condição servil. Ela leva o seu sacrifício ao ponto de ter filhos seus de um qualquer malvado militarista Furriel Miliciano de serviço, para obter informações das operações militares portuguesas que depois transmite aos seus camaradas locais guerrilheiros da Frelimo. Um camarada perguntava, - Porque se sujeitará Teresa, uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? E só escolhe operacionais dos GEs! O anterior também era! E o próximo?... Não sabia, este camarada, que, - Desde quando a Teresa «casara» pela primeira vez, o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua, fazendo as principais despesas da guerra naquela zona, raramente encontravam alguém da guerrilha, que todavia continuava activa! -.      

Uma ideia transcendental de Deus que promete o paraíso a todos após a morte, pode tornar-se uma irredutível convicção-fixa pelo processo de crença no desconhecido objectivado numa paradisíaca promessa, assim como uma ideologia objectivada numa promessa de um futuro de beleza e alegria contínua para todos, pode tornar-se uma ideia divinizada por via de um socialista dotado enviado de um transcendental Deus social.