terça-feira, 10 de maio de 2022

A GUERRA RÚSSIA - UCRÂNIA & A AUTO-EXTINÇÃO.

1. A Ladainha dos Putinistas

É um tristeza total e um sintoma de irracional mal estar humano ver tanta gente que defendeu a injustiça da guerra colonial por ser utilizada por um ditador e que chamou, com razão e sem reserva de dúvida, fascista colonialista imperialista ao ditador Salazar, digo, é um sentimento frustrante vê-los agora defenderem o contrário perante uma situação semelhante.

Basta reparar que tais troca-tintas, na defesa de uma invasão sempre negada e nunca declarada mas transformada numa destruição massiva e matança ad-hoc, nunca pronunciam as palavras-chave que gritaram nas ruas no 25Abril; Democracia e Liberdade.

Também, especificamente, só anunciam as barbaridades cometidas pelos regimes democráticos e ocultam ou desculpam as barbaridades iguais dos regimes totalitários que são cometidos sob ocultação da sua própria opinião pública submetida à censura e perseguição política feroz do regime totalitário protagonista. Mais, nunca referem que, por exemplo, nas democracias as opiniões públicas nacionais derrubam guerras e governos quando estes persistem em manter invasões e guerras que deixam de ter sentido como no caso icónico do Vietnam. 

Usam uma ladainha de valores de verdades em que o agressor e invasor nunca é o agressor nem o invasor mas tudo tem um princípio e uma causa de há anos ou séculos históricos que culpabilizam o invadido e massacrado; ao jeito de, se não foste tu foram os teus avós ou antepassados. Iniciam sempre a sua ladainha de verdades preconceituosas com uma causa histórica inicial conveniente cometida pelo inimigo ideológico como, por exemplo, as matanças dos nazis de Azov sobre russófonos mas o contrário nunca existe; o incitamento e apoio ao separatismo dos russófonos nunca existe, nem sequer o diabólico pacto entre Hitler e Stalin para dividir a Polónia fifty-fifty entre ambos.  E muito menos o massacre genocida gratuito de indefesos prisioneiros polacos em Katyn logo após a invasão e divisão da Polónia, sempre negados e só reconhecidos há cerca de dez anos assim como a ajuda militar dos USA a Stalin para que este aguentasse a frente Russa aquando da preparação para a invasão dos aliados na Normandia.

O mesmo com os fervorosos democratas europeus, agora virados pró-totalitaristas putinistas indisfarçáveis, que nunca se referem à ajuda americana que nos salvou do barbarismo racista hitleriano, e muito menos iniciam neste caso ou outros como este as suas idas aos factos históricos.
Num dos últimos “o último apaga a luz” da RTP a tonta senhora académica do painel perguntava para quê a UE ajudava a Ucrânia quando era sabido que “Putin não ia parar a guerra” pelo que, o subentendido prático da mensagem era que a Europa devia render-se e ajoelhar-se face ao ditador uma vez que a sua vontade imperial era não parar. 

O homo sapiens, está provado, que no início exterminou todos os outros humanos concorrentes, um dia auto-exterminar-se-á numa guerra total contra a vida humana no planeta.

 

2. Salvar ou matar a vida na terra, eis a questão.

Neste momento, passados três meses de guerra, já é perfeitamente visível quer a mentira quer o erro e falhanço de previsão de Putin e seus estrategas. 

A mentira grosseira quando afirmava não querer invadir a Ucrânia mas que apenas se tratavam de manobras, intimidatórias, claro, e até simulou um regresso das tropas a quartéis quando na verdade, a pedido do outro totalitarismo chinês amigo, estava apenas a aguardar que os jogos olímpicos de inverno em curso na China terminassem. Hoje, tudo é claro, dada a invasão e o visível planeamento militar dessa invasão prova de que tudo estava decidido e planeado ao pormenor quando foram enviadas as tropas para a fronteira; só por si a invasão é prova de facto planeado pois nenhuma operação militar de tal envergadura era possível sem um planeamento prévio ao pormenor.

O erro e estrondoso falhanço inicial da invasão russa está na subjectiva e falsa ideia que bastava o rugido das infindáveis colunas de tanques e dos canhões para assustar os ucranianos e levá-los à rendição imediata face à grandiosa, assustadora e brutal máquina de guerra russa em marcha. E, também, a eventual ideia de que a população local russófona sairia à rua aplaudir as tropas "libertadoras" do nazismo ucraniano invocado pelos russos invasores. 

Não foi assim, pois a inesperada resistência ucraniana tornou o plano de invasão militar de fácil em muito complicado e duro em perdas humanas e material. Foi preciso gizar novo plano além da necessidade de lançar mão de armas sofisticadas como misseis e, sobretudo, fazer a ameaça chantagista do emprego de armas nucleares hipersónicas. Chantagistas não porque tais armas-foguetes russas não possam existir e ser mesmo hipersónicas mas porque o facto de serem mais rápidas não significa que esteja livre de uma resposta igual do inimigo; este terá armas nucleares dispostas em locais secretos, em submarinos, porta-aviões e outros grandes navios e até, provavelmente, em permanência no ar para qualquer eventualidade que, mesmo após um ataque surpresa hipersónico, sobrará sempre armas nucleares para uma resposta de potência equivalente ao ataque inicial imprevisto.

Nem Deus nem a Natureza se importam ou ligam ao que quer que seja ou ao que quer que o sapiens faz, disputa e guerreia entre si. Depois de exterminar toda a concorrência humana ao longo de milhares de anos, finalmente, quando o homo-sapiens atingiu a época histórica humanista planetária parece predisposto a fazer a cama onde se deitará para dormir ou para morrer.

Verdadeiramente a invasão russa do país ucraniano assenta numa falsa questão que não é mais que um pretexto para a invasão. O argumento da proximidade das armas nucleares da Nato junto às fronteiras russas; como dizemos acima as armas nucleares existentes estão apontadas em cerco uns dos outros por todos os ditos países nucleares. Por outro lado, uma vez a Ucrânia tomada e feita terra russa, mais se aproxima da Nato e suas armas nucleares o que torna o argumento do perigo do cerco Nato num contrassenso. Tudo isto além da impossibilidade física de cercar um país com a dimensão bi-continental da Rússia.    

Outro forte contrassenso a acrescentar aos acima referidos foi a confissão russa de que é possuidora de misseis hipersónicos que mais nenhum país possui. Tudo indica que Putin andou todos estes anos a aperfeiçoar armas que lhe dessem uma vantagem militar, precisamente, no campo de ganhar tempo ao inimigo no eventual ataque nuclear; isto é, no momento em que obtém vantagem supersónica de ataque nuclear relativamente ao seu inimigo promove uma invasão de outro país com o argumento contrário da desvantagem temporal por motivo de proximidade. 

Se os argumentos para a invasão são falsas questões porquê a invasão militar Russa em pleno Séc. XXI e plena globalização de trocas comerciais, mais ou menos harmoniosas e complementares, entre muitos países que conseguiram, por tal bom relacionamento comercial de trocas, a libertação de milhões de milhões de pessoas da miséria histórica para uma situação de vida compatível com o mínimo requerido para se prosseguir no caminho de atingir uma ideologia planetária, a humanística comunitária global.

Porquê Putin, com a invasão ucraniana, decidiu romper com a estratégia de entendimento de trocas vantajosas para ambas as partes com a Alemanha defendida, contra tudo e todos, por Merkel? Não só destruiu tal bom entendimento de interdependências mútuas como obrigou a Europa a nova reaproximação à Nato e ao rearmamento, inclusive, a um possível poderoso rearmamento militar e nuclear alemão. Que estratégia de futuro a longo prazo definiu Putin para a nação russa? Apenas tomou em conta a manutenção e imposição de respeito pela grandeza imperial histórica da mãe russa que pensou despromovida e humilhada no atual conserto das nações? Gastou rios de dinheiro do petróleo e gás para se dedicar, quase exclusivamente, ao rearmamento e grandeza militar tornando-se, por tal, num médio país como potência económica ao contrário da China que se fez uma potência económica para ser depois, solidamente, uma potência em todos os sentidos.  

Então para quê invadir, inexplicavelmente com falsos argumentos, o seu vizinho de origens e ligações históricas comuns, para mais, quando este dependia totalmente do comércio fronteiriço e especialmente do gás e petróleo russo e não constituía qualquer ameaça militar à poderosa Rússia?         

O discurso de Putin ontem, no dia da vitória russa sobre os nazis, denota ou um disfarce teatral das suas verdadeiras intenções ou um sentimento de necessidade de apaziguamento de quem se meteu num sarilho tamanho do mundo que agora tem dificuldade em resolver a seu contento; foi comedito sem novas ameaças de armas nucleares hipersónicas ou de outras vantagens técnicas em armamentos secretos e até usou de uma linguagem mais defensiva para os mesmos argumentos da guerra tipo blitzkrieg preventiva que pensou e mais aquele novo argumento de que a Nato se preparava para atacar território russo.    

Também o argumento de que esta é uma guerra entre os gigantes militares USA e Rússia e seus respectivos aliados pelo domínio global, é usado por quem se quer fazer passar por equidistante e que a guerra está para além das nossas opiniões e vidas quotidianas. Sendo verdade, na realidade, apenas repete um dado histórico que existe desde que o homo sapiens exterminou a concorrência humana e ficou único humano senhor do mundo. Não acrescenta nada de novo e apenas repete o que sempre foram as guerras entre os mais poderosos e seus aliados para domínio total desde que há registo histórico humano e, certamente, foi igualmente o caso nas disputas entre gens e tribos primitivas para domínio dos seus pequenos mundos conhecidos na altura; acerca da ideia das guerras se tornarem sempre uma disputa directa ou indirecta entre interesses de superpotências, nada de novo sobre a terra. 

Novo, novo sobre a terra é levar uma contenda à possibilidade de extinção da vida humana por auto-holocausto do sapiens sobre a terra quando já é preciso a concertação de todos para salvar a vida na terra de morte natural.    


quarta-feira, 9 de março de 2022

GUERRA COLONIAL, a ideologia maior do que a guerra.

 

Depois da leitura do recente livro de Dezembro de 2021 "Buenos Aires, Tempos de Paixão" do mesmo autor e meu colega do IIL, Institudo Industrial de Lisboa, dediquei-me à leitura do livro "Guerra Colonial, a memória maior que o pensamento"  do mesmo autor com edição de 2009.

Ambos são relatos de factos - reais e datados, servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade -. Será que o facto ficcionado torna a verdade mais profunda e segura? Não será que a utilização da ficção do real serve, antes, para dar à narrativa uma versão pessoal da realidade e, quiçá, uma versão preconceituosa segundo um receituário ideológico?

Cronologicamente contíguos os factos de "Buenos Aires, Terra de Paixão" precedem os factos de "Guerra Colonial", ao contrário do que pode dar a entender a data das edições. O primeiro relata a luta determinada de um estudante pobre, filho de operário de fábrica da CUF no Barreiro e neto de operário ferroviário desde princípios dos anos sessenta do séc. XX. O segundo relata a sua luta contra a guerra colonial desde o ingresso na tropa em Mafra para o Curso de Oficiais Milicianos até à sua 2º ida para a Guerra em Moçambique como soldado raso, depois de uma primeira ida em Outubro de 1972, como Furriel despromovido do Curso de Oficiais Miliciano seguida de prisão militar e novo envio para a guerra como soldado raso despromovido de Furriel Miliciano. O relato ficcionado do livro "Guera Colonial" termina com a Revolução Militar de 25 Abril 1974 anunciada às 07H00 na Rádio, assim; - Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!... -

Ambos os livros têm um denominador comum; o relato dos factos são causas e consequências uns dos outros e sempre ficcionados sob a perspectiva do bom comunista convicto da correta leitura política dimanada do Partido. E, também, têm em comum o mesmo narrador João que não é mais que o autor da ficcão dos factos por si vividos, no primeiro caso como estudante interventivo nas lutas académicas dos anos sessenta em Lisboa e agora como militar na guerra colonial em Moçambique.

Tal como o livro "Buenos Aires, Terra de Paixão" é um longo libelo contra as estruturas e políticas de ensino do regime salazarista, "Guerra Colonial" é a continuação desse libelo face à exploração de tipo esclavagista do colonialismo praticado pelo regime liderado por Salazar e depois por Marcelo Caetano. Todos os capítulos, sub-capítulos e episódios intercalados como fragmentos de saltos temporais e espaciais na corrente da narrativa principal, diga-se, bem inseridos, são eles também construídos sobre factosos históricos de modo a acentuar a aberração político-social do colonialismo português e dar peso histórico à leitura da mensagem central que se pretende transmitir ao leitor.

A visão da guerra colonial portuguesa observada apenas sob o ponto de vista ideológico do partido leva para fundamentações dessa guerra algo contraditórias. Um dos argumentos usuais é pensar que a História dos homens começa onde se lhe queira pôr um início para conveniência da narrativa que se persegue militantemente. Assim, quando se diz no "Prólogo (Advertência)"; - Como se não existissem 400 anos de dominação, escravatura, exploração e opressão! - para denunciar a mentira propagandeada pelo salazarismo acerca da verdadeira realidade africana nas colónias. E antes não existiram outros 400 anos e outros e outros? Será que os regimes africanos anteriores a esses 400 anos não eram de dominação e escravatura face à posse da terra, mulheres e outros bens, às rivalidades e lutas entre os vários povos nativos vizinhos? Teriam os nativos africanos de antes da chegada dos portugueses noções de escravatura, exploração ou opressão no sentido e peso moral que atribuímos no estádio civilizacional de hoje? E o que vem logo a seguir, - A História não se repete mas os tiranos, os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas -, é uma contradição nos termos pois se a "História não se repete" porquê os reaccionários e os defensores dos neocolonialismo e do imperialismo "parecem renascer das cinzas? 

Foi o próprio Marx que, na abertura da sua obra "O 18 do Brumário de Louis Bonaparte", diz: - Hegel fez notar algures, que todos os grandes acontecimentos e personagens históricos ocorrem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa" (Edição 'Nosso Tempo - Textos'. Tradução M.Teresa de Sousa, 1971). Marx certeiro ao analisar a história mas, incrível é a sua premonição, sem o querer, mas profética e totalmente em oposição ao seu proposto sistema social para o futuro; no preciso momento em que ele pensava banir da história, para sempre, tal repetição de tragédia versus farsa na história dos humanos, dada a proposta do seu pensamento sistémico do socialismo rumo ao comunismo e ao fim da História ele, predizia sem o saber, a grande farsa que foi o futuro do socialismo aplicado à realidade do ser homem e suas circunstâncias e não apenas simplesmente pensando o ser humano como o produto de um meio raso sujeito a uma escolástica ideológica.

Escrito algo ao estilo do neorrealismo o fio condutor da narrativa ficcionada tem como figura principal, tal como no livro Buenos Aires..., o João que, também aqui, se confunde com o próprio autor ficcionista dos factos. Contudo, agora, já não personalizado na figura de um operário de fábrica ou proletário à jorna nos trabalhos da terra mas sim como filho desse velho proletário operário ou rural que fora estudar para a escola dos ofícios para pobres afim de se libertar da condição de vida humilhante dos pais. Agora o João se tornara Engenheiro Técnico e assentara praça como futuro Oficial Miliciano do Exército preparado para a Guerra Colonial; o estatuto do herói da narrativa mudara mas a forma neorrealista de encarar e enfrentar o serviço militar numa revolta coerente e organizada já segundo o modelo ideológico do partido é consciente e constante. Vai ser despromovido do Curso de Oficiais Milicianos para o Curso de Sargentos Milicianos e, mais tarde, preso como Furriel Miliciano e despromovido a Soldado Raso enviado de novo para o interior perigoso da guerra em Cabora Bassa aguentando ideológica e estoicamente as dolorosos injustiças, torturas e sofrimentos a que foi sujeito.

Acerca da grande questão do dever ir ou dever de não ir à guerra também logo no "Prólogo (Advertência)" a questão é colocada; segundo o partido de forma ambígua e segundo o João de forma clara e definitiva imposta pelo argumento de "uma importante nuance" decidida pelo partido acerca da guerra. Diz-se que o partido - Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa - e, de seguida, cita-se o "Avante de Outubro de 1962 (mais de ano e meio depois de rebentar a guerra em Angola e quando já para lá tinham sido enviados milhares de soldados) no qual não se define concretamente se se devia ou não ir à guerra.

Assim, João diz, - A recusa podia revestir diversas formas, nomeadamente: fuga à tropa, recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra -, confirmando a recusa preconizada atrás pelo partido segundo o João. Contudo a recusa é recusada face às medidas de punição severa inscritas no RDM especialmente a pena de morte para deserção em teatro de guerra. Que fazer?

O João explica, - Na determinação da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo, sob todas as formas, os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes, ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos, deviam ir à guerra e uma vez aí desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados (o povo fardado!...) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída, deturpada e mentida -.   Depois, ao longo do decorrer do livro, João, vai descrevendo vários episódios de luta justificativos da aplicação dessa nuance pedida pelo partido aos seus militantes. E diz-nos que esse trabalho de consciencialização política dos militares do quadro tiveram um efeito importante na organização, primeiro do "Movimento dos Capitães" e depois no "Movimento das Forças Armadas" culminando, mais tarde, no derrube do regime em 25 de Abril de 1974. E conclui que tal facto capital se deu porque, - Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra, do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram -.  

Assim, na atual discussão acerca de quem esteve mais certo, se o combatente ou o que se exilou e fugiu à guerra, o autor dá razão ao combatente não obstante o exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. E, não obstante, o autor enfatizar mais o trabalho e atuação premeditada e organizada pelo aparelho do partido junto dos militares, trabalho esse protagonizado pelo João, dado como exemplo, na realidade foram os 13 anos de permanente guerra sem solução política à vista e pior, perante a impossibilidade de vitória militar, caídos  num beco e colocados entre a espada e a parede os militares resolveram derrubar a parede.

Foi, acima de tudo e de longe, o sacrifício de milhares de mortos e feridos que regaram com seu sangue as picadas da selva africana e de pais, mães e viúvas que regaram com lágrimas os lares portugueses que, lentamente, ao longo de uma dúzia de anos mudaram, moldaram e fixaram uma nova consciência dos militares do quadro, em especial dos jovens capitães; especialmente estes que eram os mais próximos dos soldados quer no combate quer na morte. Sabe-se que a organização da revolta dos capitães militares do quadro começou por uma reivindicação corporativa-sindical, contudo, o sentimento de revolta contra a guerra estava definitivamente instalada em suas consciências pois rapidamente transitou de uma simples reivindicação sindical para uma constatação de que tal não resolveria nada acerca da questão de fundo: o prolongamento indefinido da guerra sem fim à vista e em condições cada vez mais difíceis para os militares que, ainda por cima, ficariam com o ónus da derrota.

Como digo atrás, o livro "Guerra Colonial, a memória maior que o pensamento" é um libelo contínuo bem esgalhado sobre o regime do Estado Novo salazarista. Contudo toda a narrativa se enquadra sob a perspetiva política do partido comunista português sem qualquer outra abordagem ou ponto de vista histórico-político. Assim é, simultaneamente, uma contínua apologia política do partido do autor. Até mesmo quando avança pela descrição da História de Moçambique, desde as descobertas dos navegadores portugueses que encontraram um povo - de tipo negróide, ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista -. Com a chegada dos portugueses, estes, - lançaram-se desesperadamente à procura de ouro; quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata; quando esta faltou também lançaram-se em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos, acabando por se contentar com o comércio de escravos -.  

Este episódio, à semelhança dos demais desta narrativa ficcionada, é pensada e focada para terminar em crescendo final, não no empreendimento, mau ou bom, dos navegadores mas sobretudo e apenas no português porco, mau e carniceiro comerciante de escravos. Sabe o autor o que aconteceu aquando os conquistadores do norte forçaram e promoveram a miscigenação dos povos do sul? Mais uma vez faz-se que a História da civilização tenha início onde dá jeito para integrar idealmente a mensagem preconceituosa da ideologia formatada.

Outro caso revelador de preconceito ideológico é o episódio de "O senhor doutor", que fora apanhado  "a desertar com medo da guerra" fugindo a "salto" na fronteira de Vilar Formoso, tratado como cobarde delator do João que - numa noite contou toda a sua história desde pequenino, denunciando a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido, em Mafra, em Dezembro de 1971 -. Este cobarde delator que, mal era ameaçado, "cantava" facilmente tudo à Pide desde pequenino era, só podia ser, do MRPP.

Ao contrário o episódio de "A negra Teresa" revelando um facto igualmente degradante para a pessoa humana, a personagem porque se degrada, se rebaixa e se deixa humilhar e prostituir como ser humano ao serviço da causa do "bem" é tratada como uma heroína sem a mais pequena repreensão moral a quem a condena sujeitar-se a tão desumana condição servil. Ela leva o seu sacrifício ao ponto de ter filhos seus de um qualquer malvado militarista Furriel Miliciano de serviço, para obter informações das operações militares portuguesas que depois transmite aos seus camaradas locais guerrilheiros da Frelimo. Um camarada perguntava, - Porque se sujeitará Teresa, uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? E só escolhe operacionais dos GEs! O anterior também era! E o próximo?... Não sabia, este camarada, que, - Desde quando a Teresa «casara» pela primeira vez, o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua, fazendo as principais despesas da guerra naquela zona, raramente encontravam alguém da guerrilha, que todavia continuava activa! -.      

Uma ideia transcendental de Deus que promete o paraíso a todos após a morte, pode tornar-se uma irredutível convicção-fixa pelo processo de crença no desconhecido objectivado numa paradisíaca promessa, assim como uma ideologia objectivada numa promessa de um futuro de beleza e alegria contínua para todos, pode tornar-se uma ideia divinizada por via de um socialista dotado enviado de um transcendental Deus social.

domingo, 26 de dezembro de 2021

DEIXEM QUE A HISTÓRIA DECIDA, PORRA.

 

Oh! Vós acusadores fanáticos da pós-verdade

histórica que não escutais vossas ficções

contadas e cantadas como loas à identidade

que apregoas certa mas afinal só metade

o é e a outra é falsa e é fonte de opiniões

pós-verdades gizadas de tua espúria fidelidade.

 

A vossa pós-verdade oculta é feita de partes

das quais apenas uma tomas por verdadeira

a qual insistes ficcionar e narrar com artes

milenárias de palco encenadas com encartes

de velhas pós-verdades históricas à maneira

de profetas, mágicos e deuses como Martes.

 

As vossas pós-verdades feitas de promessas

de futuros de festa e alegria permanente

tal como tantas já feitas viraram de avessas

o compromisso repetindo sempre mais dessas

pós-verdades iludindo mundos de gente

com profecias, livros, ficções, teatro e peças.

  

Impingiste narrativas falsas que são eternas

sem parar e queres continuar impondo

novas pós-verdades, ficções pós-modernas

invertendo verdades e factos de pernas

para o ar na ânsia de seres o deus redondo

liso do mundo a ditar os heróis e os palermas.

 

Vós quereis ditar à força de tanto ficcionar os factos

quem esteve certo e foi herói e quem foi cobardola,

se o pensante exilado ou os embarcados fracos,

se o de fala de combate ou o de combate nos matos,

se o combatente que deu a vida ou o que deu à sola.

A história decidirá entre o sangue e os fala-baratos.

 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

ACTA & CTA; "UM GAJO NUNCA MAIS É A MESMA COISA", NOTAS.

 

Monday, December 20, 2021


A certa altura do decorrer da peça o velho "Alferes" diz: - qualquer dia já não há ninguém para contar  como foi... -.

É verdade. É uma verdade que esconde uma mentira; a questão é porque razão nunca ninguém foi ouvir e entrevistar os Oficiais Comandantes operacionais da guerra, os Capitães, Alferes, Sargentos, Furriéis e Praças que viveram juntos dia a dia a guerra no mato com os seus Soldados e seus problemas. Pelo contrário, sempre os escritores e artistas se basearam em relatos específicos contados em 2ª ou 3ª pessoa já adulterados pelos preconceitos culturais ou ideológicos individuais de cada contador.

Por exemplo, Artur Agostinho quando enviado como repórter da RTP para cobrir a tomada de Nambuangongo queria estar lá antes das tropas para relatar a chegada; dada a evidente impossibilidade de tal e face ao grande medo, para si, que era seguir embebido numa das duas colunas que se dirigiam rapidamente para a tomada daquela importante base do inimigo resolveu, de acordo com sua cultura de habitual e popular relator futebolístico, descrever para os ouvintes, a tomada de Nambuangongo como um despique futebolístico Benfica - Sporting. E deixou tal registado em livro como seu estúpido troféu de guerra.

Também a mensagem deste texto e encenação de "Um gajo nunca mais é a mesma coisa" está untado de preconceitos; desde logo do preconceituoso ponto de vista criado e fomentado pela elite dos "exilistas", os que se exilaram em Paris, Estocolmo, Roma e outras capitais europeias. Quando a falaciosa inglesa "jornalista?", "socióloga?" ou simplesmente "revolucionária?" pergunta; - e vocês foram assim para a morte e não fizeram nada? -, está completa e intencionalmente a ocultar a situação política e social em Portugal naquele tempo; a obrigatoriedade imposta pela ditadura, a pobreza das famílias das aldeias e seus filhos aldeões quase totalmente analfabetizados sem os mínimos recursos financeiros e apoios fora do seu ambiente familiar, sem passaporte nem condições de obtê-lo e sob o horror do medo oculto de represálias sociais exercidas pela polícia política sobre a família. 

Ainda assim, muitos rapazes pobres filhos dos primeiros emigrantes a "salto" para França seguiram as pisadas dos pais ou familiares e arriscaram tudo abandonando a farda no dia do embarque e fugir para a Guarda afim de passar a fronteira a salto com destino a França, não para se dirigir a um hotel e esplanadas dos cafés parisienses mas sim, para se dirigir ao "bidonville" e ao trabalho duro no "bâtiment", como foi o caso do Juvenal em 12 de Julho de 1964. Mas estes fugiam primeiro da miséria e depois do acréscimo de miséria que a guerra lhes acrescentava às suas vidas; fugiam daquela miséria portuguesa característica que tanto impressionara horrivelmente a fina sensibilidade da jovem revolucionária inglesa quando viajava com o namorado do Porto para Lisboa. 

Também quando o "Alferes", que nunca mais foi o mesmo, se refere aos militares que no "Cu de Judas" ou seja, isolados do mundo no meio do mato durante longo tempo e sempre sob forte tensão emocional por estarem permanentemente cercados do inimigo e sujeitos a ataques constantes, dava-lhes o "badagaio" moral e sobretudo psico-mental está a contar a guerra pelo falso prisma do médico Lobo Antunes que distorceu totalmente a verdade sob a forma de uma ficcão literária quase paranoica para seu gozo pessoal; qualquer Unidade Militar nessa situação não estava mais de 5-6 meses sem ser rendida. Mas se tal se passou com o Dr. Lobo Antunes, ou outro médico, são deles a maior responsabilidade por tal se ter passado e com tal severidade; eu estive por duas vezes numa situação dessas, contudo, o nosso Ten. Mil. médico Dr. João Alves Pimenta estava atento e tratava do caso de modo a alterar a situação clínica desses homens abatidos, "em baixo": sempre atento, mal detectava sintomas de tal fazia uma inspecção médica e aos homens em estado de mal-estar mental mandava-os de férias clínicas uns dias para Luanda, que eles já conheciam bem, e vinham de lá mais prontos para suportar de novo mais algum tempo de isolamento, perigos e intempéries.

A guerra também são as pessoas e as suas circunstâncias; a pessoa do nosso médico, face às terríveis circunstâncias, não as podendo alterar contornava-as com escapatórias possíveis; assim, sempre atento na protecção da melhor saúde e bem-estar dos soldados nunca deixou que tais males tomassem conta dos homens sob seu controlo clínico; nenhum elemento do nosso Esquadrão foi repatriado ou embarcou em Luanda de regresso com problemas psicológicas; nem pela vida fora no meio da selva humana da vida civil houve algum caso de "velhote despassarado"; pelo contrário, como lhes dizia o Dr. Pimenta nas nossas confraternizações anuais, a guerra tinha-os tornado mais fortes, mais conscientes e melhor preparados para suportar os trabalhos duros na selva humana da vida civil.

Sem querer, a encenação dá duas verdadeiras imagens da guerra colonial, precisamente, quando nos quer dar a entender de princípio ao fim, que a nossa guerra colonial foi uma bestialidade de matanças de pretos cometidas por soldados portugueses. Primeiro, quando é encenada com fortes e ruidosas luzes, sons de metralha e helicóptero, uma confrontação terrível entre as duas tropas inimigas e, depois,  passado o terrível confronto, vê-se apenas no palco o "Alferes" ferido e do inimigo não se vê nem mortos nem feridos, nada. Ora esta situação foi, que eu vi, a mais corrente naquela guerra de guerrilha e no meu tempo; talvez tenha sido caso único mas eu nunca vi um "terrorista" morto ou ferido no entanto vi cinco mortos e dezenas de feridos do meu lado.     

Segunda situação dá-se quando os nossos soldados em formatura respondem "à chamada" e só depois de muitos  "presente" chega o momento de ficarem engasgados e calados perante o nome de um não presente, isto é, de um morto. Significam estas duas situações que quer do lado dos portugueses quer do lado inimigo as baixas foram imensamente menores do que os relatos jornalísticos, revisteiros, livrescos, cinematográficos e agora também teatrais, dão a entender e dramatizam por questões comerciais ou ideológicas.

Também a ideia feita de imensos massacres cometidos pelas tropas coloniais é falaciosa como o prova a fala da jovem inglesa quando menciona os massacres de Nambuangongo, Wiriamu e outro que não fixei o nome. Ora em Nambuangongo, posso afirmar eu que participei nessa operação, não houve qualquer massacre nem podia haver dado que as populações nativas tinham todas fugido para esconderijos na mata impenetrável para nós; terá havido sim algum tipo de massacre inicialmente nessa região como resposta enlouquecida ao massacre da UPA de 15 de Março de 1961. E, este massacre, causa principal do início da guerra colonial, cometido pelo inimigo terá sido mais brutal e numeroso em vidas humanas que todos os outros cometidos pelas nossas tropas depois; contudo nunca tal horrível cometimento é referido para não sujar a ideia que se pretende fazer passar de que os soldados portugueses combatentes foram todos uns criminosos de tal modo ferozes e obscenos que agora são todos "Alferes" velhotes passados dos cornos ou taralhoucos pós-traumáticos.

E o que dizer da revolucionária inglesa que diz ter falado com muitos "velhotes" combatentes e daí retirou a certeza de que todos esses antigos soldados, hoje em dia, são racistas reaccionários que votam na extrema direita? Teve o desplante de perguntar a dois combatentes presentes que eram de direita e logo ali concluiu reiteradamente que, hoje em dia, são todos fascistas mesmo quando antes eram revolucionários e votavam comunista. Como pode saber e ter tanta certeza a inglesa revolucionária que todos os antigos soldados combatentes são fascistas? Terá ela o condão de ver um Mussollini  desenhado na testa de cada combatente da guerra colonial? Haverá assim tanto fascista por cá e, contudo, após a democracia, ainda nenhum partido de raiz fascista ganhou eleições e governou o país?

A revolucionária inglesa, que faz uma espécie de papel de compère que está sempre em palco dizendo o texto e marcando o ritmo da encenação, faz lembrar aquelas jovens revolucionárias que vieram da Europa universitário-revolucionária, logo após o 25A, ensinar a fazer a revolução aos portugueses. Claro, passado a festa revolucionária e instalada a democracia, voltaram para as esplanadas de Paris a tomar o seu cafezinho e ler Marx, Sartre e Althusser com mais atenção para na próxima não falharem.

A ideia que constitui a mensagem central da peça encenada é fazer passar o preconceito de que todos os soldados combatentes andaram e passaram todo o tempo a matar pretos na guerra colonial; são todos, hoje, uns velhos maus, fascistas, racistas, porcos e desdentados como, não só se dá a entender em toda a fala da observadora inglesa ao longo da peça como até o declara aberta e ostensivamente. 

A rapariga observadora inglesa funciona na peça como a voz do "argumento de autoridade"; à boa maneira subserviente portuguesa foi preciso chamar uma autoridade "lá de fora" em matéria de guerra de guerrilha para explicar académica e autoritariamente ao Zé o que foi a nossa guerra colonial "sem papas na língua e sem espinhas". Fala ela de massacres mas saberá ela como conseguiram os seus ascendentes ingleses vitorianos conquistar o maior império já visto sob o céu? Pensará que foram armados de gaitas-de-foles e encantaram os nativos da Índia, América, Astráulia, África do Sul, Médio Oriente, o mar e recheio de navios que o cruzavam e até o Rochedo de Gibraltar?    

O preconceito fica inscrito no texto e também na encenação desde logo quando o assunto se centra numa história humana particular comovente. Mesmo quando fundamentamos textos e opiniões em estatísticas e dados rigorosos acerca de um assunto de ilimitada subjectividade e complexidade nunca conseguimos captar a verdade nem seque a melhor verdade acerca desse assunto; o mais provável é que nos faça ferver o sangue, deixemos cair uma lágrima furtiva e gerar em nós uma falsa certeza moral.         

É o que nos acontece quando pensamos acerca da relação entre nós e o inimigo relativamente à guerra colonial. Retrata-se esta a partir de casos muito particulares para, emocionalmente, extrairmos ideias gerais fixas erradas e preconceituosas. Por exemplo, se alguém que esteve na guerra, teve experiência de baixas havidas em algumas Companhias ou Batalhões, pensar racionalmente e fizer simples contas aritméticas rapidamente chega à conclusão que, o mais provável, foi que houve mais mortos nas nossas tropas do que nas do inimigo. Ora se assim foi, como se pode dar a entender ou até formular e afirmar como verdade certa que todos os soldados portugueses são assassinos que andaram todo o tempo de guerra a matar "pretos"?

Explica-se tal, exactamente, porque nunca ninguém foi falar seriamente com quem andou a comer a ração de combate untada de pó das picadas; antes pelo contrário, apenas ouvem e lêem as ficcções livrescas de quem por lá andou a escrever cartas choramingas de saudades pela mulher esquecendo-se que os soldados também tinham mulher, filhos e pais que choravam e rezavam por eles nos recôndidos das aldeias remotas.       

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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

SABER COMANDAR PARA ALÉM DO "RDM", COM SUCESSO.

Falei num texto anterior da ideia do Cap. Rui Coelho Abrantes, Comandande do Esq. Cavª 149 mobilizado para Angola em 1961, querer desembarcar o Esquadrão em Luanda vestido à índio com peles e plumas armados de arcos e flechas.

Era algo tão inesperado que parecia apenas pensável por alguém diferente e distante da normalidade dos estudos militares. Contudo quem o pensava e propunha era, precisamente, um Cap. Cavª. professor de táctica militar na Academia.

Talvez por ser pensador académico sobre tácticas militares, ou por isso mesmo, quando foi mobilizado meditou sobre a especificidade daquela guerra de guerrilha ou por pura intuição e imaginação ou, melhor, por uma conjugação das duas coisas o Cap. Abrantes foi sempre inventor-criador de ideias fora de todas as ortodoxias militares; aliás como se impunha naquela guerra.

Foram, cronologicamente, surgindo as seguintes imaginativas e inovadoras soluções de comando:

1º. Tudo começa ainda o Esquadrão não estava completo e só parte dos militares mobilizados tinham fardas de caqui para uso no ultramar e ele manda formar, na parada do Reg. Cavª. 7, algo à semelhança de um Pelotão e ordena ao Alferes de serviço; - agora vocês vão descer pelos passeios dos dois lados da Calçada da Ajuda, devidamente equipados à Ultramar e de "mauser" na mão e, quando o Alferes apitar, vocês têm de desaparecer imediatamente do passeio; devem enfiar-se dentro dos cafés e casas de comércio ou mesmo pelas portas e janelas das residências locais -. Tudo foi cumprido como descrito e imagine-se o susto dos passantes e especialmente dos residentes ao verem suas casas invadidas, de repente, por homens desconhecidos armados. E também tudo, aquando dos ataques nas picadas da selva angolana, não foi muito diferente do que imaginara o Capitão na selva humana da Calçada da Ajuda em Lisboa.   

2º. Se não desembarcámos em Luanda vestidos e equipados à índio partimos de Luanda para o Caxito, Fazenda Tentativa, mascarados com um lenço preto ao estilo de uma mascarilha à Zorro; atravessámos Luanda de farda de caqui nova, barrete de dois bicos bem espetados à cavaleiro e também bem ao alto as antenas dos rádios de transmissões; até à Fazenda Tentativa não havia pó mas a ideia era, mais uma vez,  impressionar os possíveis "olheiros" do inimigo em Luanda.

3º. Na Fazenda Tentativa onde estava instalado o Comando da ZIN, Zona de Intervenção Norte, o Cap. Abrantes, depois de uma reunião onde aceitara participar na perigosa Operação Viriato que consistia na tomada de Zala e, se possível, a tomada de Nambuangongo, reuniu o Esquadrão em formatura à tardinha e preparou o pessoal para uma grande e prestigiosa mas igualmente perigosa operação em que iríamos tomar parte a partir do Ambriz; depois de referir os perigos dado termos de enfrentar o inimigo em terreno ocupado por ele desde o 15 de Março de 1961acabou dizendo: - não se preocupem porque foi-me entregue uma caixa preta que detecta todos os terroristas escondidos ao longo das picadas -. Os Soldados ficaram intrigados e muitos perguntavam se era verdade que o Comandante tinha essa caixa especial à qual os subalternos respondiam, sem desfazer o efeito mágico-psicológico da afirmação, que se o Capitão o dizia é porque era verdade. Verdade foi que muitos homens do Esquadrão foram receptivos à ideia, ficaram mais calmos e todos foram dormir mais descansados.

4º. No Ambriz, com o Esquadrão já preparado para arrancar naquela madrugada de 26 de Julho de 1961 em direcção a Zala passando pelo Cavunga, Quimbumbe, Quimazangue, Zala, na véspera o Cap. Abrantes ordenou ao 3º Pelotão fazer o reconhecimento da picada até ao Cavunga onde, segundo informações recolhidas, era suposto haver um aquartelamendo do inimigo e onde, realmente, o Pelotão foi atacado e sofreu cinco feridos ligeiros de disparos de canhangulos. Regressado ao Ambriz e entregue os feridos ao cuidado do Dr. Pimenta, contado ao Cap. o sucedido de imediato recebe ordem para reforçar o Pelotão e regressar imediatamente ao mesmo local afim de surpreender o inimigo e infligir-lhe uma derrota; apesar da contestação veemente do Alferes Ribeiro de Carvalho Comandante do 3º Pelotão este acabou por voltar ao local do quartel da UPA mas os guerrilheiros e famílias puseram-se todos em fuga através dos carreiros da mata. Vários ensinamentos prático-teóricos se retiraram do caso; primeiro, que era da boa táctica militar saber explorar a vitória; segundo, mostrar ao inimigo que a "nossa tropa" não tinha medo daquele inimigo; terceiro, que o Comandante era um militar capaz e sabia o que fazia; quarto, todo o pessoal do Esq. ficou admirado e conquistado pela firmeza e serenidade do Capitão; quinto, perante tal atitude militar toda a Unidade se sentiu mais protegida, mais confiante, sem medos e mais unida.

5º. Eram percorridos 110 Km de picada desde Ambriz e estávamos a 30 Km de Zala, acampados na Fazenda Matombe, local de retemperar forças e, sobretudo, repensar a estratégia de progressão; e deu-se o grande salto inovador que consistiu em aliviar as viaturas retirando-lhe toda a protecção improvisada de chapas metálicas que encurralavam e dificultavam o salto dos soldados para o terreno e entrar na mata; aumentar a velocidade de progressão pela táctica da progressão contínua, dia e noite, sem paragem nem aquartelamento; tal foi um sucesso completo pois desmobilizou o inimigo porque não só não tinha tempo de montar obstáculos e emboscadas à nossa frente como os seus ataques nocturnos seriam facilmente localizado pelo fogo dos disparos. 

Soube-se depois que o nosso guia e pequeno fazendeiro, Sr. Ribeiro, que fizera a braço próprio a pequena Fazenda Matombe, confidenciara ao Comandante que o gentio local respeitava a noite como momento de estar em casa com a mulher ao abrigo da cubata e ao calor da fogueira. E tal confidência fora a campainha que despertara o pensamento militar do Cap. Abrantes para a tomada de tão inusitada como valiosa decisão.             

6º. Na tomada de Zala apesar de um morto e vários feridos ligeiros vários episódios de comando directo se deram. i) Ordenou avançar apeados e no meio da picada pedia com força que os homens seguissem no interior da orla da mata para não serem alvos à vista dos atiradores no alto dos morros laterais, tal como treinara na Calçada da Ajuda em Lisboa. ii) Após a tomada de Zala, o içar da bandeira portuguesa e  entregue ao Chefe de Posto a Administração Civil do território local, quis arrancar imediatamente para Nambuangongo. iii) O Cap. dá uma entrevista à equipa da RTP, que nos acompanhava, afirmando categoricamente que chegaria a Nambuangongo custasse o que custasse nem que fosse a pé. iv) Contudo, aqui sofreu um revés dada a oposição dos Oficiais subalternos porque, sobretudo, além dos feridos e esgotados não havia munições suficientes pois pensava-se que o troço para Nambuangongo seria o mais bem guardado e defendido pelo inimigo. v) Capinou-se uma encosta de terreno para servir de pista e permitir aos pequenos Dornier DO 26 aterrar com munições e de volta levar os feridos mas de Luanda enviaram munições de madeira usadas para instrução militar. vi) O Cap. ainda assim, mesmo com tão poucas condições de precaução e ameaças de severos castigos militares, propôs avançar mas não conseguiu demover os outros Oficiais. 

Anos mais tarde confidenciar-nos-ia que caso o Pelotão de Panhards dos Dragões de Luanda se dispusessem arrancar falo-ia com mais o Pelotão de Reconhecimento do Alferes Ruben, 2º Comandante, e outro pessoal de serviços disposto a fazê-lo voluntariamente. vii) Tinha tido razão pois o inimigo tinha apostado tudo na defesa de Zala e sentiu-se impotente para nos deter pelo que a caminhada, noite e dia, para Nambuangongo deu-se apenas com os contratempos de abatizes e pontes derrubadas ao longo da picada até ao objectivo final. viii) Tinha-mos ganho um dia, contudo, nem mesmo esse ganho seria suficiente pois o Bat. Caçadores 96 do Cor. Maçanita já estava acampado há dias a cerca de 6 kms de Nambuangongo.

7º. Depois de um dia passado em Nambuangongo o Esq. recebeu ordem de desobstruir o itinerário até Quipedro passando por Quixico e fazer a ligação com os pára-quedistas que seriam lançados em Quipedro em 13 de Agosto de 1961. Cumprida a rigor tal missão lá ficamos até 4 de Setembro depois de dois mortos, o Soldado Aguiar e o 2º Sargento Mota e vários feridos dos quais cinco evacuados e um deles, o Furriel Milho, cego de uma vista.

Também aqui se dá uma atitude enérgica, e talvez inédita, por parte do Ten. Mil. médico Dr. Pimenta que, segundo o entendimento e escola de comando do Cap. Comandante Abrantes, contra o regulamentado obrigou o Oficial piloto do Dornier a transportar o 2º Sargento Mota para Luanda não obstante o considerar morto contra a opinião médica que o considerava ainda vivo e responsabilizava o piloto pela eventual morte do Mota por falta de socorro; depois do Aguiar que tivera morte instantânea nunca mais o Dr. Ten. médico deixou que outro morto fosse enterrado no mato.

Haveria de dar-se mais tarde outra situação idêntica no Mucondo com o soldado Pires manifestamente morto mas que o Ten. Mil. Pimenta fez valer a sua condição de médico para obrigar o Cap. piloto a transportar o morto para Luanda; havia uma consonância de pensamento entre Cap. Comandante e Os Oficiais do Esquadrão de como conduzir a tropa naquela situação de guerra isolados no mato rodeados de inimigos; os soldados observavam e sentiam o valoroso comportamento dos Oficiais em sua defesa e orgulhavam-se disso pelo que, por sua vez, estavam sempre prontos e disciplinados a seguir os seus oficiais.

8º. Nova missão foi dada ao Esq. 149: desobstrução do itinerário Quimanoxe-Quijoão-Caje-Fazenda Maria Fernanda-Rio Dange-Cassacala a fim de guarnecer o flanco das tropas que actuavam na "Operação Esmeralda" na área da "Pedra Verde", Úcua. Esta Operação implicava a transposição do Rio Dange na área de Quijoão.

Iniciou-se o acampamento junto da margem direita do grande Rio Dange com a desmatação de uma área para improvisar um heliporto; foi esta a primeira vez que tivemos o apoio de helicóptero que trouxe o tão faltado como desejado correio e transportou os dois feridos graves que tinha-mos sob tratamento médico  deficiente na mata.   

A antiga jangada existente no local havia sido destruída e os restos jaziam no meio do rio a cerca de 400 m abaixo do local de transposição. Nada metia medo ou atrapalhava a ousadia do Comando e pessoal do Esquadrão; a 13 de Setembro iniciou-se a construção de uma nova jangada improvisando paus arrancados à mata, bidons velhos remendados como bóias, tábuas e pregos achados nas sanzalas abandonadas, arame farpado para amarrar os bidons aos paus de suporte do estrado; dois homens a nado e um cordel nos dentes fez passar o velho cabo de aço para a outra margem e atá-lo a um imbondeiro; com estacas de pau e tábuas velhas construiu-se um pequeno cais à altura da jangada.

A 15 de Setembro deu-se por concluída a jangada abarracada e posta a flutuar, aquela maravilha do improviso à portuguesa único no mundo; fez-se a experiência com um jipão com guincho e cerca de vinte homens para fazer de lastro de equilíbrio face à corrente do rio que era enorme no meio das águas; quando a jangada atingiu o centro da corrente começou a empinar e teve de ser reforçada, com mais homens que a nado atingiram e saltaram para a jangada, uns para fazer peso e outros ajudarem os que agarrados ao cabo de aço, que fazia de guia, puxarem contra a corrente aquela estranha embarcação a fim de a manterem segura e equilibrada; tudo esteve por um fio, contudo, dado a bravura do pessoal de bordo a jangada foi trazida para terra e feitos alguns reparos de estaleiro necessários; alguns bidons apanhados nas sanzalas tinham buracos e foi preciso tapa-los com cunhas de pau; reforçou-se a estrutura de arame que amarrava os bidons à estrutura de paus; procedeu-se a outras pequenas reparações para tornar mais sólida a totalidade da jangada.

E de novo a nossa improvisada embarcação plana foi lançada à água; dada a experiência obtida antes, este segundo lançamento à água correu controlado e a transposição deu-se; agora com um jipão em cada margem tínhamos um sistema motriz de vai-vem para rebocar a jangada contra a corrente mais adversa. E aos vai-e-vem a jangada transpôs os demais jipões e jipes e material dos pelotões de modo a poderem avançar em direcção à Pedra Verde protegendo a retaguarda e linha de fuga do inimigo; só no dia seguinte chegou, escoltada por um nosso Pelotão que já transpusera o rio, uma secção de engenharia com o material requerido para reforçar a jangada e esta poder transpôr as viaturas pesadas.

Esta perigosa e aventurosa mas pensada, calculada e acautelada operação foi executada de fio a pavio sem um único acidente ou a mínima perda de material apesar de alguns ataques do inimigo feitos de longe e sem perigo; foi uma realização espantosa só possível de realizar por tropa competente, moralizada e sobretudo ousada, sem medo de correr riscos.            

9º. Na Operação "Pé-Leve", penúltima operação sob Comando do Cap. Rui Coelho Abrantes, o Esquadrão reforçou durante dez dias o Bat. Caç. 158 na zona de Quizonve-Quisserongue entre os rios Onzo e Uezo, no Concelho do Ambriz. No dia 19 de Fevereiro de 1962 pelas 21 horas o acampamento, montado em círculo, foi perigosamente atacado de cerca de 50m por alguns homens armados com armas automáticas, precisamente, quando o Soldado Higino Algarvio junto de uma rodela de Soldados, tocava no seu acordeão.

Após a reacção imediata dos homens do Esquadrão, comandada pelo próprio Cap. Abrantes, dá-se o imprevisível da situação vinda directamente do Comandante; quando os homens do Esq. estavam todos em alerta de armas na mão virados para a mata e local do fogo inimigo, o Cap. Abrantes dá ordem para que o Higino agarre no acordeão e continue a tocar novamente, se possível, ainda mais alto para que o inimigo ouvisse bem.

Era assim o nosso Comandante; quando não havia uma vitória militar no terreno explorava imediatamente uma vitória psicológica sobre o inimigo, se tal fosse possível e adequada. Imaginem o que teriam pensado aqueles homens, já de si pouco foitos guerrilheiros, senão que o ataque fora falhado e mais importante, que tal som sobre-elevado do acordeão serviria para encobrir um assalto do nosso pessoal ao local onde se encontravam os atacantes.

A medida racional do atacante inimigo foi, naturalmente, fugir o mais rápido possível do local e, assim,  deixar-nos em sossego, naquela noite e seguintes.

10º. Desembarcámos em Luanda, sob o Comando do Cap. Rui Coelho Abrantes, em 07 de Julho de 1961 e este partiu para Portugal, o "Puto", em 19 de Março de 1962; se, em apenas cerca de nove meses de Comando do Esq. de Cav. 149, o Cap. Abrantes, quer segundo sua previsão do que era aquela guerra de guerrilha quer depois segundo uma observação atenta sobre as condições e práticas no terreno, quer da nossa tropa quer do inimigo acerca daquela guerra, imaginou, pôs em prática e desenvolveu todo um conjunto de ideias inovadoras para a acção vitoriosa do Esquadrão no terreno, a questão é; quantas mais teria imaginado e posto em prática em benefício dos Soldados e glória do Esquadrão de Cavalaria 149 naquela campanha de 1961-1963 em Angola.


terça-feira, 9 de novembro de 2021

JOÃO ALVES PIMENTA 1931 - 2021

Ten. Mil. médico do Esquadrão de Cavalaria nº 149 entre 1961-1963 em Angola, natural de Ponte de Sor, nascido em 06 de Maio de 1931 faleceu ante-ontem em 07 de Novenbro de 2021.

Figura exemplo de vida ímpar do Esquadrão foi-o igualmente na sua vida profissional como constatámos acompanhando-o sempre de perto desde o nosso encontro e camaradagem durante vinte e oito meses contínuos de situação de guerra no Norte de Angola. Ele que corria imediatamente agarrado à sua maleta de pronto-socorro mal era informado de alguém ferido, e que só não conseguiu dar vida aos que lhe chegavam às mãos já mortos; Ele que socorreu homens e mulheres de tantos males e salvou tantas vidas não pôde socorrer e salvar-se a si próprio da implacável corrosão do tempo; já alguns homens poderosos da mitologia tentaram lutar e matar a morte para tornar-se imortais contudo, o Dr. Pimenta imortalizou-se, junto de nós, pela suas qualidades de amizade, entrega, competência e generosidade dedicadas aos outros que dele precisavam.

Todos nós, os homens do Esq.Cav.ª 149, temos de algum modo e sob qualquer um aspecto da nossa vida na guerra em Angola, uma dívida de gratidão pelo apoio clínico primeiro e depois pelo apoio moral, psicológico, conselho amigo e familiar, que prestou desde o primeiro momento a todos igualmente; dedicou-se aos outros como se todos fossem de sua família e, verdadeiramente, tornou o Esq. 149 numa grande família na qual Ele era a figura paternal que todos escutavam e em quem todos confiavam abertamente. 

A sua atenção acerca da saúde física, moral e mental dos homens do Esquadrão era permanente e nunca deixou que algum deles ultrapassasse o ponto de não retorno ou caísse em situação de demência mental por cansaço ou por medo do perigo eminente; até como homem militar era um exemplo de coragem inteligente que sabia correr os riscos necessários para o socorro sob combate.

Por nossa vontade quereríamos tê-lo, para sempre, junto de nós mas o que nós queremos não conta perante a lei não escrita mas rigorosa e inultrapassável na vida dos humanos sobre a terra. Assim, resta-nos a ajuda do seu exemplo para completar a caminhada e pensar que Ele está algures, observando-nos.