sexta-feira, 6 de novembro de 2026

GUERRA COLONIAL ESQ. CAV. 149 ANGOLA 1961-1963 VII

 

"ILHA DOS AMORES"

 

CAXITO, CAXITO 
 
Caxito, Caxito
solto alívio
gostoso convívio
foi amor e exito
viver contigo.
Tem guerra e perigo
tem canseira?
Tem lavandeira.
Tem madrinhas
tem enleio?
Tem correio.
Tem mulatinhas
tem bronze luzidio? 
Tem o rio.
Tem partes sujas
tem que lavá-las?
Tem sabão rio e valas.
tem mulher que usas
tem consentimento?
Tem "Alambamento"?
Tem mulata com feitiço
tem feitiço e não trata?
Tem mulata?
Tem fogo e luar castiço
tem som sem truque?
Tem batuque.
Tem café e cerveja
marisco a pataco?
Tem Cacuaco.
tem Caxito mas deseja
tudo noutra banda?
Tem Luanda.
 
Tem "Ò minha ué"
"ò minino soldado"
"tu quer fazer nené
senta aqui a meu lado".
"Ò minino fica calado"
Tem "Ò minina ué
ond'vai tão apressado
a dar a dar ò mataco
a cada passo do pé
descalço?
Tu inda tem o cabaço?"
"Ò minino fica calado
mete a viola no saco
sinão
vai fazê' que'xa no Cap'tão".
 
Tem "Ò minina ué
tu quer vender o cabaço?"
Olhares olhares ... olhar.
"Ò minino o que é eu faço?
Qu'nto é?
Qu'nto vale angolar?" 
 

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

GUERRA COLONIAL ESQ. 149 ANGOLA 1961-1963 VI

 
 
 "ILHA DOS AMORES"
 
 
CAXITO 
 
Enquanto Mabubas o quartel
era um conjunto disperso 
de moradias ruas a granel 
exatamente o inverso
do que deve ser o papel
propriamente dito
dum aquartelamento
com toda a gente lá dentro
que é o mínimo requisito   
duma Unidade Mimitar.
O Capitão foi encontrar
no Caxito
não o quartel modelo
nem um quartel seguro
mas com obras e trabalho duro
poderia muito bem vir sê-lo.
 
A 4 de novembro soou o apito
de partida para o Caxito.
Cada qual com seu espólio
lá foi na sua viatura
ia contente e à procura
da antiga de fábrica de óleo
de palma erguida no centro
da vila de uma rua só
que era um importante nó
rodoviária e apenas dista 
60 km da capital angolana.
À volta e a partir de vista
vivia uma mole humana
em sanzalas já que por ali erra
a fronteira do medo e do perigo
consentida por Tropa e inimigo
ali repousa, ido e vindo da guerra.
 
Era o verdadeiro entreposto
ideal do inimigo onde
observa descuidado
descansado entre o povoado
nem se preocupa ou esconde
porque misturado não tem rosto.
E era o entreposto abastecedor
igual da Tropa e da guerrilha
do prato do repouso e do amor.
P'ró Soldado e guerrilheiro
Caxito era o "descanso do guerreiro"
 

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

GUERRA COLONIAL ESQ. CAV.149 ANGOLA 1961-1963 V

 

"ILHA DOS AMORES"

 

O MORAL DA TROPA 
 
Quem tinha vontade e queria
com ajudas ou sem ajudas
em quatro dias nas Mabubas 
já tinha posto a escrita em dia.
Notava-se nova disposição 
rostos de alegre samblante
tanto mais que o Comandante
era um militar com opinião
firme que o RDM da paz
na guerra era pouco eficaz
para trazer a tropa motivada
e pronta, então dá o recado
à tropa aquartelada
do Oficial ao Soldado
que quem por ali ciranda  
circulando sem nada fazer 
pode ir na borga de Luanda
tratar sua vida e bem viver.
 
Este inesperado bem desafio
foi o que a Tropa quis ouviu  
formou-se logo um corropio
de jipes e jipões a partir
num vai-vem permanente
cheios de Tropa feita gente
em folgada demandada
da descoberta de Luanda.
E quem não tinha lavadeira
p´ró serviço que se gosta
tinham lá as substitutas
na grande cidade farta feira
do "Bat. Ferreira da Costa 
formada de Com.ªs de putas"
do Puto peixe da ocidental
praia proibido na lusa lota
que por outro lado exorta 
venham p´rá guerra colonial
baixar cueca e elevar o moral
da Tropa. 
 
   

domingo, 1 de novembro de 2026

GUERRA COLONIAL ESQ. CAV.149 ANGALA 1961-1963 IV

 

"ILHA DOS AMORES" 

 

ERUDITO TALENTO

 
O Furriel que melhor tinha
habilidade e jeiteira
para arranjar madrinha
amiga ou lavadeira 
não perdeu tempo 
e enquanto se arruma
nas Mabubas arranjou uma
podia ter arranjado um cento.
 
Ele entrou como um vento
pelo nosso quarto a dentro
e disparou; "anda daí 
levanta o rabo da cadeira
anda ver o melhor exemplo
de par de pernas que já vi  
de osso e carne verdadeira
não perguntes o que se passa
vamos depressa ali ao Sassa 
à casa de minha lavadeira".
 
Ele entrou eu fiquei no jipe
aguardando que se explique
com ela. Trouxe-a à ombreira
da porta da cubata e eu vi
uma bela preta longa magra
mãos gastas de ser lavadeira
rugas na cara quando sorri
peito caído de cavar na lavra.
"Jovem gasta antes do tempo"
pensei e disse com desalento
quando ele me manda entrar
e diz-me "Na arte de amar
é um nato e erudito talento".
 
Entramos os três na cubata
e perante a minha hesitação
ele pede à bela Conceição
que levantasse o pano-bata.
Ò celestial visão doce tortura
vê-la de costas pano à cintura
uma perna sobre o catre
outra apoiada no chão de pó.
Ò humana escultural figura, ò
beleza de fazer inveja à arte
de enlouquecer quem fixar-te
as belas pernas até ao buraco
no centro do soberbo mataco.
 
Não resisti fiquei como Priapo
ela inclinou-se; gozámos o ato.
 
 
 

sábado, 31 de outubro de 2026

GUERRA COLONIAL ESQ. CAV. 149 ANGOLA 1961-1963 III

 

 "ILHA DOS AMORES"

 A LAVADEIRA 

Uns andaram à procura da dita cuja
outros p'la dita cuja procurados
cuja dita sabia que os  soldados
tinham pouca roupa e muito suja.
A dita cuja era prazenteira
ou desconfiada e olhar frio
passava os dias lavando no rio 
chamava-se à cuja a lavadeira.
A lavadeira era o grande pretexto 
para fazer propostas descaradas
sem maneiras
como querer meter no mesmo cesto
das lavadeiras 
coisas que para serem bem lavadas
não precisavam água e sabão
apenas apertadas e bem esfregadas
à mão ou não. 
  
Todos acabaram por arranjar uma
diretamente ou por intermédia
do amigo mais safo, era o remedia
santo e milagreiro que arruma
de vez o grande drama humano
que é o traumatismo freudiano.
A roupa era o processo prático
que estabelecia o laço
humano passo a passo
fala a fala, tráfico a tráfico
dinheiro a dinheiro
roupa a roupa 
corpo a corpo boca a boca; 
por fim o que se queria primeiro.
 
Nem era difícil de obter o favor
da lavandeira preta ou mulata
para quem o valor da prata
era mais valioso que outro valor
qualquer que fora pouco ou nada
lhe dizia nem lhe parecia porco
ou imoral o uso do seu corpo
de forma natural e não sagrada.
O seu andar e olhar seu dengoso
já era proposta de sedução
um ritual primitivo amoroso
de dádiva pagão
sem moral nem cabrão
sem má consciência
sem desesperos
sem remorsos nem pecado
sem inferno nem diabo
apenas a imanência
grande humana de Dionísio e Eros. 
 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

GUERRA COLONIAL ESQ. CAVª. 149 ANGOLA 1961-1963 I

 

JOSÉ MANUEL DOS SANTOS COSTA

 
FUNDADOR DO "LANCEIRO" DESDE 1999
 
 
E o seu amigo Coronel literário do Lanceiro que um dia disse do livro
"Esquadrão 149, a Guerra e os Dias" que tal parecia como aquele antigo
e famoso livro, pois, também este tinha uma "Ilha dos Amores".  
 
   
VAMOS RECORDAR
A "ILHA DOS AMORES" DAQUELE TEMPO MABUBAS-SASSA-CAXITO. 
 
 
 
A FRONTEIRA
 
ÀS desassete do dia vinte
chegámos à povoação
das Mabubas, um requinte
de lugar e localização.
Após dois meses exatamente
da chegara ao Ambriz
para iniciar Viriato 
tínhamos finalmente 
teto de construções civis
e não o relento do mato.
Era um local bonito
com gente e movimento
num vai-vem a todo o tempo
entre as Mabubas e Caxito.
Haviam festas nas sanzalas
havia mercados e roboliço
havia mulheres no rio 
havia no ar cheiro do cio
havia lavadeiras e o serviço
havia poder de contratá-las.
 
Mabubas não era passagem
para nenhuma banda.
Era o local da barragem 
hidroeléctrica que manda
energia e para Luanda.
Era um bairro de moradias
parecidas ou iguais
de armazéns e garagens
construídas de serventia
aos técnicos principais
da energia e barragem
durante a construção.
À tudo à volta da estrada
Mabubas-Sassa-Caxito
era uma sanzala pegada
fronteira do delito.
Era o esconderijo do aflito
inimigo que procura  
refúgio ou informações 
militares que se mistura
e disfarça entre populações.
  
  

GUERRA COLONIAL ESQ. CAVª. 149 ANGOLA 1961-1963 II

O ASSÉDIO

Os primeiros dias na Mabubas
enquanto o Esq. se instala
aquilo do que mais se fala
e poe os militares em pulgas
saltonas de assédias corridas 
são as milhares de raparigas
outras mulheres maduras
cabritas mulatas pretas escudas
alguns corpos perfeitos 
de bronze puro luzídio
lavando-se nuas no rio
livres sem preconceitos.
Atrás deste mar de mulherio
que deambulava entre sanzalas
estradas veredas rio mercados
indígenas andavam magalas
às dezenas obcecados
por tanto bronze ondulando 
provocatório à sua solta
deixando desejos à solta;
inchando
 
 
Com quase três meses de seca
sem hipótese de molhar a sopa
não há ninguém que não caia 
num estado levado da breca
que eriça os sentidos e dopa
desejos alterados e dar de vaia.
Neste estado o magala ensaia
um assédio destemido
a tudo o que usava vestido 
blusa saia tudo por baixo
fazia entrever-se a cada passo
o corpo feminino
delicado belo divino
maravilha das maravilhas
a que macho algum se furta
uma irreprimível tentação
de penetrar com a perna curta
a fenda entre coxas e virilhas
o fundo e gostoso espaço 
que quer tenha ou não
o cabaço
nos faz perder tino e juízo
e a salto; ir e ver do paraíso.