quinta-feira, 14 de maio de 2020

CARTA DO CAP. RUI ABRANTES EM LUANDA PARA ALFERES RUBEN E LIDA AOS MILITARES DO ESQ. CAV. 149 EM QUIPEDRO EM 30.08.1961

O 2º Sargento Leitão comandante do Serviço de Trasmissões e Cifra do Esq. transcreveu esta carta e arquivou-a até 2005 (44 anos depois), data em que iniciou a organização de um Caderno Comentado titulado "Diário de Guerra" do qual esta carta constitui um excerto.
Quando em 27/09/2005 enviou ao Furriel Contreiras também do Esq.149 um pacote de quase uma arroba de fotografias também lá vinha esta carta importante como documento de prova da permanente dedicação e preocupação com o bem estar e cuidar de obter o melhor para o Esq. 149, sua Unidade.
Sua porque feita e conduzida à imagem do seu carácter e visão militar invulgar os Soldados reconhecidos lhe correspondiam e obedeciam valorosamente sem hesitações e de vontade própria.



sexta-feira, 8 de maio de 2020

EQUIPAS DE FUTEBOL DO ESQ. 149 E OS GRANDES JOGOS


JOGO TREINO NO CAMPO DO CAXITO 1961
 
JOGO NO CAXITO 1961
De pé da esquerda para a dirira: Soldado José Augusto, Alferes Agostinho Ribeiro, Furriel Carita, 
Alferes Ribeiro de Carvallho, Soldado Aníbal, Soldado Camilo.
Sentados da esq. para a direita: Cabo Cardona, Cabo Fernando, Soldado Leal, Furriel Contreiras e Furriel Leite.
JOGO NO CAMPO DO CAXITO 1961
JOGO CONTRA O ESQ. 107 NO CAXITO 1962
JOGO CONTRA A EQUIPA DA COMPª. DE ENGª. 123 EM LUANDA 1962
AS DUAS EQUIPAS DO JOGO COM A COMPª. ENGª 123 EM LUANDA 1962
JOGO COM O ESQ. CAVª. 122 EM LUANDA ESTÁDIO DOS COQUEIROS 1963

Constata-se que a maior parte eram craques insubstituíveis na equipa base do Esq. 149; eles estão em todos os jogos como o Soldado José Augusto de Lx, o Cabo Fernando de Linda a Pastora, o Soldado Camilo de Catanhede todos ex-jogadores júniores do Benfica e o Soldado Anbíbal ex-júnior do F.C.Porto, além dos igualmente insubstituíveis Alferes Ruben, Furrieis Contreiras e Carita e do Soldado Leal da Covilhã e mesmo os poucos restantes são regularmente os mesmos como o Alferes Ribeiro Agostinho Comandante do 1º Pelotão.
Havia, portanto, uma equipa de seleccionados pelas melhores artes do chuto, domínio e passe de bola e portanto formavam o grupo dos indiscutíveis.
Indiscutíveis? Bem com o Alferes Ruben não se podia discutir muito pois ele era o 2º. Comandante do Esq. e se ele queria jogar não era fácil excluí-lo da equipa tanto mais que, diga-se, qualquer outro seu subtituto não faria melhor que ele.

Também de realçar, deste tempo de guerra, que estes jogos só foram possíveis porque estávamos sediados no Caxito como Unidade à ordem e sob o comando especial do Sector 3, Comando Geral Militar da ZIN, Zona de Intervenção Norte instalado na Fazenda Tentativa.
Quando mais tarde mudámos para o Mucondo isolados do mundo e rodeados do inimigo por todos os lados tais exercícios de recreio terminaram.
A receita do Dr. Pimenta, para aliviar o duro isolamento sob constante perigo, era enviar os mais desorientados física e mentalmente uns dias para Luanda de modo a refrescar-lhes a mente e elevar-lhes o moral.
E o Dr. Pimenta era um grande médico e um psicólogo gentleman expert atento ao mínimo sinal de desvario mental dos Soldados.
    
 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

TEMPOS DE PANDEMIA: A "GUERRA" AO VÍRUS E A GUERRA MESMO.


 DISTRIBUIÇÃO DO CORREIO

«Este período de confinamento, longe de estimular a solidariedade, tornou-nos mais rudes, agressivos e egoístas.» 

Esta frase, como se constata, é pensada em relação ao problema da pandemia da actualidade e foi publicada num texto do Blog "Ponte Europa" de autoria de Carlos Esperança. Este autor que costumo ler embora não assiduamente no seu Blog referido foi combatente na Guerra Colonial e quando fala dessa sua experiência não poupa nas palavras contra a desgraça motivada e estimulada pela guerra. Maldiz da guerra mas fala de experiência própria e fundamenta racionalmente a sua inimizade à guerra que, aliás, tal malquerer é comum a todos que a viveram na pele e no osso.
Mas esta frase, talvez pela comparação generalizada na fala corrente entre o combate na guerra e o combate ao vírus, fez-me lembrar imediatamente a guerra por onde andámos nós todos submetidos.
E sobretudo por ter bem presente na memória 149 o célebre discurso do Dr. Alves Pimenta, nosso mui estimado merecidamente médico do Esq. Cav.149, no qual ele refere mui explicita e precisamente o contrário da ideia de que a guerra nos tornou "mais rudes, agressivos e egoístas".
Ao contrário, diz o Dr. Pimenta, a nossa participação na guerra e combates sob perigo de vida ou morte vividos em comunidade isolada no interior das matas e picadas angolanas, tornou-nos mais compreensivos e sábios para enfrentar situações complexas de resistência perante a dureza da luta diária pela sobrevivência ao longo da vida civil corrente. E também, segundo o Dr. Pimenta, tornou ainda melhores todos os Soldados de bom carácter e menos agressivos e rudes os mais primários e analfabetos oriundos de Aldeias profundas escondidas nas serras.
E, claro, vivendo assim isolada e diariamente numa comunidade pequena de Esquadrão, ou Companhia, a entreajuda e amizade criada na luta de todos pela sobrevivência comum e de cada um torna obrigatório e evidente que o egoísmo individual quase desapareca no momento e perdurará na memória como força de contenção egoísta pela vida fora.
A guerra mata e o vírus também mas deste precisamos ser vacinados anualmente enquanto a guerra foi uma vacina para a vida toda; ninguém mais quer e evitará conscientemente voltar novamente à guerra com armas  de morte na mão. 

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A distribuição do correio
era a festa do acampamento.
O grande momento
ansiosamente aguardado, também com algum receio
das notícias boas ou más que vinham no envelope
que mal era recebido pelos Soldados se afastavam,
isolando-se, com as cartas na mão que abriam.
E liam ávidamente, de enfiada, d'um golpe,
vendo-se claramente do que as cartas lhes falavam
porque enquanto uns ficavam contentes e sorriam
outros ficavam preocupados de rosto pesado e sério.
E outros, que liam e reliam as doces palavras da amada,
entusiasmados, atiravam-se sobre a manta estendida
no chão, que era a sua cama sempre feita,
ajeitando-se como quem com uma mulher se deita
ou como se estivesse alguma ali deitada
meiga e sorridente, aberta e pronta, toda oferecida
ao furor
desse doce e indecifrável mistério
que permite a dois amantes fazer amor
mesmo, como neste caso, afastados meio hemisfério.

No dia seguinte de manhã não houve alvoroço,
todos ficaram até mais tarde na manta-cama
descarregando intensamente os sonhos e desejo moço
à terra, ao céu ou àqueles a quem se ama
e tinham enviado boas notícias recentes
que lhes mantinham as almas ainda quentes
ou em brasa, conforme os casos,
levando a que, dos Oficiais aos Soldados rasos,
respondessem logo
apagando a labaredas do aceso fogo
sobre o corpo aberto dum extenso aerograma.
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Excerto do poema "O Correio" do livro "Esquadrão 149, Os Trabalhos e os Dias" de José Neves.


quarta-feira, 29 de abril de 2020

TEMPO DE PANDEMIA E CONFINAMENTO!


FORTE GENTE DO 149

Fomos à dura guerra; sobrevivemos dos tiros.
Será que sobreviveremos do vírus?
Ficámos velhos e os aerogramas papiros. 
Será que sobreviveremos do vírus?
Enfraquecidos de vida de suores e suspiros.
Será que sobreviveremos do vírus?
Agora, idosos confinados em celas retiros.
Será que sobreviveremos do vírus?
E se enclausurados em muros de bacilos.
Será que sobreviveremos do virus?
E será que vencendo nós o vírus putativo
Resistiremos ás desgraças do curativo?  
Forte gente do 149, se a tanta luta já resistimos
Também resistiremos ao maldito vírus.
Se até a vis apelos de morte à ‘peste grisalha’
resistimos, também venceremos esta batalha. 



sábado, 19 de outubro de 2019

ESQ CAVª 149, FÁTIMA 2019




Continuam realizando-se os  "Encontros" desta "Família" constituída de 1961 a 1963 percorrendo perigos e picadas, trilhos, matas e lugares interiores do mato angolano.
Constituída e baptizada sob o fogo das armas de guerra conquista a sagração no sangue dos mortos tombados em combate.
Fosse a guerra aquilo que se considerava ser no seu tempo ou fosse aquilo que depois foi ou será para a história e que ainda está em discussão, isso nada nos incomoda ou nos impede de celebrar a camaradagem e amizade inscrita em nossas peles e consciências pelo sangue dos nossos mortos e feridos derramados ao nosso lado e em nossa defesa.
Nenhuma discussão académica, acerca do que foi ou será a guerra colonial ou do ultramar, diminuirá nossa consciência de termos sido combatentes dignos enfrentando muitos e variados perigos de morte ou vida a que estivemos continuamente expostos.
Nos nossos encontros de celebração aos combatentes mortos e aos ainda vivos estamos daquele lado humano que celebra a camaradagem e fraternidade que a guerra nos proporcionou para além de quaisquer feitos militares que também realizámos.
     

domingo, 15 de setembro de 2019

ESQ. 149, ENCONTRO CONFRATERNIZAÇÃO 2019

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É já no próximo dia de 12 de Outubro de 2019 o nosso tradicional ENCONTRO anual para estarmos, convivermos e comemorarmos juntos durante mais umas horas inesquecíveis e também celebrar a memória dos nossos mortos tombados em combate e os outros que foram sobreviventes da guerra mas que a labuta de muitos anos pela vida já os roubou da nossa companhia.
Somos cada vez menos mas, precisamente por isso, torna-se um dever de respeito e memória não deixarmos no esquecimento uma parte tão importante da história da nossa juventude.
Sentimos que quanto mais avançamos na idade mais vivemos das nossas memórias e aqueles que têm um espólio de memórias tão rico como nós, os combatentes de guerra, não devem menorizar ou menosprezar esse espólio adquirido em defesa comum da vida de uns pelos outros.
A guerra não é coisa recomendável mas a camaradagem e a amizade nascidas sob a luta comum de vida ou morte durante aquele tempo melhor da nossa juventude é inesquecível e só a nossa morte a pode matar.
        

HOMENAGEM AO AGUIAR SOLDADO Nº 267/61, DISCURSO DO FURR. MIL. CONTREIRAS


 

Antes de mais o nosso agradecimento aos presentes  que se dignaram juntar-se a nós nesta cerimónia de homenagem ao nosso herói comum aqui sepultado.
Aos ex-combatentes de Marco de Canavezes terra natal do homenageado.
Aos dirigentes da Associação do “Lanceiro” nossos amigos sempre prontos a colaborar com o Esq. 149.
Aos familiares do Aguiar que também quiseram associar-se a esta homenagem ao sobrinho e primo herói da família.
E, claro, aos camaradas do inesquecível Esq. 149 que preservam a memória do seu camarada herói morto em combate.
E um agradecimento muito especial e sentido aos Escoteiros que são os principais responsáveis por este Memorial erigido para ser a digna última morada do nosso camarada de armas Joaquim Ferraz de Aguiar.
Nós, os seus camaradas do Esq. Cav. 149, logo após a sua morte, só pudemos no dia seguinte dar-lhe uma morada no local do acampamento mas nem por isso deixámos de lhe dar um funeral cristão e prestar-lhe as devidas honras militares.
Para os militares vivos do Esq. a guerra continuou igual como antes e a luta pela sobrevivência durante 28 meses e mais três baixas e muitos feridos, inevitavelmente, fez esquecer o nosso único morto que não pudemos enviar para Luanda.
Felizmente o Aguiar, militar do inigualável Esq. 149 também era militante dos Escoteiros e estes tiveram a grandeza de o retirar da cova de Quipedro e dar-lhe uma morada condigna de um herói.
Faltava, contudo, dar uma direcção, um endereço, uma referência familiar a essa nova morada, completar a sua identidade.
Faltava juntar de novo o Aguiar aos seus camaradas de armas.
E faltava que os seus camaradas de armas e de guerra viessem aqui junto dele prestar a devida homenagem ao herói que tombou em combate em sua defesa.
E logo que soubemos da sua morada aqui quisemos fazer-lhe companhia e aqui estamos, e aqui vamos ficar.
Com esta placa-lápide restituímos ao nosso herói o seu endereço militar que, tal como é para nós, também será para ele um orgulho voltar a pertencer á família deste glorioso Esquadrão 149.    
Com esta homenagem à memória do Aguiar cumprimos um dever em falta e igualmente é também para nós uma honra e orgulho enorme voltar a estarmos junto do nosso herói morto.
Herói morto que, uma vez aqui imortalizado na pedra deste monumento e no bronze desta placa, vai continuar a conviver com os vindouros e nós estaremos, a partir de agora,  junto deles, escutando-os.


Lisboa, 31.08.2019