Morada dos heróis do glorioso Esq.Cav. Nº149 que por coragem, artes e feitos militares que mais ninguém empreendeu naquele tempo é, hoje em dia, motivo de nosso orgulho, já nos penetrou a pele, instalou-se no nosso corpo e marca a nossa alma de cidadãos inteiros e dignos pelo cumprimento do dever e respeito pela condição militar quer dos nossos quer do inimigo.
Nesta confraternização não puderam estar junto a nós os dois Comandantes do Esquadrão, respectivamente o Cor. Nosso Cap. Rui Abrantes nem o Cor. Nosso Cap. Faria Fernandes e também o Nosso Ten. Médico Dr. João Alves Pimenta.
Respeitando a hierarquia, segundo a regra militar, tomou a palavra o Cor. Nosso Alferes, Ruben Domingues, Comandante Adjunto, para nos dirigir umas palavras de recordação acerca do que foi o Esquadrão 149, sua primeira Unidade e pia baptismal de guerra; falou sentidamente emocionado pela experiência vivida no centro da guerra entre nós que considerou única como escola de virtudes militares e formação de camaradagem e amizades indestrutíveis sob fogo e constante perigo de vida.
Dos Oficiais de um só galão
havia o Comandante imediato
que era militar de carreira.
Era o adjunto do Capitão,
não tão austero no trato
e capaz de uma brincadeira
com os jovens Soldados
que eram da sua juventude.
A sua principal virtude
face a perigo de dar brados
era uma enorme bravura
feita daquela mistura
de coragem e foiteza
que lhe deu a natureza.
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Do poema "Os Intérpretes" do livro "Esquadrão 149, A guerra e os Dias" de Jose Neves.
O Esq. Cav. 149, mobilizado em Maio de 1961 e constituído sob o pendão do Reg. Cav. 7 e Comando do Cap. Cav. Rui Coelho Abrantes, foi enviado em Missão de Serviço para Angola ainda no mesmo ano.
Embarcou em Lisboa, no paquete Vera Cruz, a 27Jun61 e aportou em Luanda em 07Julh61. Constituída como Unidade de Reforço tinha o estatuto de Unidade independente e um efectivo de 172 militares.
Como Unidade de reforço às ordens do Comando de Sector 3 (Fazenda Tentativa) participou em dezenas de Operações de tomada de território ocupado pelo inimigo das quias se destaca a Operação Viriato, na qual foi uma das três colunas militares intervenientes na Tomada de Nambuangongo, quartel general do inimigo.
Após uma comissão de serviço de 27 meses sempre na ZIN, Zona Intervenção Norte regressou a Lisboa em Outubro de 1963.
25 anos depois, a quase totalidade de combatentes do Esquadrão, reuniu-se para confraternizar em Lanceiros 2, Unidade herdeira do Reg. Cav. 7 entretanto extinta, em 15.10.88 para comemorar os 25 anos da chegada a Lisboa e reencontro com pais e mães, esposas e filhos, amigos e namoradas todos envolvidos em alegria de abraços e lágrimas.
O presente filme, ainda filmado e realizado muito artesanalmente, mostra como foi esse encontro e, especialmente o, espiritual e moralmente revigorante, discurso do nosso Médico de Missão, Dr. João Alves Pimenta.
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Foi a 30 de Setembro de 1963
que a tropa do império portugês
embarcou em Luanda, contente
de deizar a guerra para trás
sãos e salvos, com vontade e capaz
de lutar à civil no Continente.
No barco havia festa no ambiente
havia conversas e sorrisos
havia sonhos em soltura
havia planos de vida futura
havia recomendações e avisos
havia trocas de moradas
havia abraços fortes leais
havia irmãos mães e pais
havia mulheres e namoradas
havia lágrimas e beijos no cais
havia perdas trágicas e fatídicas
havia lembranças e idéias
havia dois anos de odisseias
havia o regresso às suas Ítacas.
Havia na consciência imprimida
"dever cumprido" e força de vida.
A 10 de Outubro de 1963
toda a tropa sobe ao convés
tentar ver entre a neblina
barra margens e o Rio,
colinas torres e o casario
da branca luminosa pombalina.
O coração fez-se fole de concertina
a branca desfez-se em côres
do cais nasceram silhuetas
destas brilhavam olhos em setas
voando de amores para amores.
Trocaram-se beijos abraços choros
trocaram-se farpelas, fez-se a muda,
ex-Soldados aos grupos aos coros
cantavam "vivas à peluda".
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Do poema "A Peluda" do livro "Esquadrão 149, A Guerra E Os Dias" de Jose Neves
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Se o Capitão foi o grande estratega
da arte militar,
o Tenente é quem cuida, trata, sossega
e mantém a unidade familiar
com suas qualidades e exemplo ímpar
de homem bom e íntegro:
fazendo de médico militar competente
fazendo de médico civil sendo Tenente
fazendo de parteira nas sanzalas do perímetro
fazendo a cada Soldaddo de seu chefe de família
fazendo de Capelão sem missa nem homília
fazendo de médico dedicado das popuçações pretas
fazendo de médico de almas as quais trata
fazendo de psiquiatra
fazendo de cirurgião com garrotes e lancetas
fazendo frente à morte com um sorriso
fazendo frente às emboscadas e armadilhas
fazendo de médico, enfermeiro e pastilhas
fazendo de feiticeiro se fosse preciso.
Fazendo-se homem respeitado e de bem
foi, para todos, a nossa mãe.
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Do Poema "Os Intérpretes"do livro "O Esquadrão 149, A Guerra e os Dias" de Jose Neves
Ia ficando o pessoal ocupado nas duras tarefas
da travessia, ao qual se fazia uma justa rendição
de tempos a tempos, o que provocou catrefas
de trocas e baldrocas e muita confusão
entre quem seguira e quem ficava ou estava indo.
Foi assim, por entre todo este enredo
que, entre o Rio Lué e Quipedro,
O Soldado Rosa ficou dormindo.
Nunca na vida se vira tão sozinho no mundo
como quando acordou, do pesado sono oriundo,
e viu apenas a escuridão densa da mata,
e sentiu o silêncio pesar toneladas,
e um nó no peito que não desata,
e um tremor de pernas derreadas,
e um atropelo no pensamento,
e uma mudez na fala,
e um medo sem aguento,
e uma fera ou uma bala,
e uma cova ou uma vala,
e um fim incógnito e inglório,
sem velório,
e um acordar do susto e da razão,
e ao analisar e medir a situação
reconheceu que apesar de só e perdido
ainda não tinha morrido.
MAIS UM ANO E MAIS UMA REUNIÃO DE CONFRATERNIZAÇÃO DA NOSSA INESQUECÍVEL COMUNIDADE DE GUERRA FORJADA SOB PERIGOS DE VIDA ININTERRUPTOS DIA E NOITE.
CINCO TOMBARAM E SEIS DEZENAS SOFRERAM FERIMENTOS IMPREGNANDO DE SANGUE O PÓ DAS PICADAS E MATAS DO NORTE DE ANGOLA. NÓS, OS QUE SOBREVIVEMOS, DEVEMO-LHES A IMPAGÁVEL GRATIDÃO DO SEU SACRIFÍCIO EM NOSSA DEFESA. TEMOS, PORTANTO, O DEVER ÉTICO E DE CONSCIÊNCIA DE NOS REUNIRMOS E, EM CONJUNTO, LEMBRAR E MANIFESTAR O NOSSO RESPEITO PELA SUA MEMÓRIA.
LÁ, DO ALÉM, ONDE QUER QUE ESTEJAM ELES CONTINUARÃO CAMARADAS FRATERNOS E SENTINELAS VIGILANTES DE NÓS.
NESTE ANO DE 2014 O ENCONTRO SERÁ EM 11 DE OUTUBRO JUNTO À IGREJA DE REPESES-VISEU E A 'RAÇÃO DE COMBATE' SERÁ SERVIDA NO RESTAURANTE 'CHURRASQUEIRA DE SANTA EULÁLIA' TAMBÉM EM REPESES.
Outra das três forças militares empenhadas na operação "Viriato" convergentes na tomada e ocupação de Nambuangongo foi o Bat. Caç. 96 comandado pelo bravo Ten. Cor. Maçanita. Esta força com nível militar de Batalhão reforçado com engenharia, artilharia e morteiros, como todas as Unidades utilizadas nessa operação, teve a seu cargo o itinerário Este-Oeste progredindo pelo eixo Piri-Rio Luica-Mucondo-Muxaluando-Nambuangongo.
Também esta Unidade teve fortes ataques do inimigo nomeadamente na travessia do Rio Luica embora sem a dimensão do ataque sofrido pelo outro Bat.114 em Anapasso. Foram, contudo, fortes e duros o suficiente para provocar baixas e sobretudo marcas no moral e estado de confiança de parte do corpo de Comando que perdeu alguma unidade e coesão na acção. Não o seu Comandante, Cor. Maçanita, que era um Oficial corajoso e destemido mas em alguns dos seus oficiais que se tornaram mais cautelosos e menos confiantes quanto ao modo e rapidez de progressão.
As consequências tiveram expressão no recurso a pedidos ao Comando Sector 3 de maior apoio logístico nomeadamente ao nível de abastecimento de combustível, mantimentos e munições. O relato do Cor. Carlos Campos e Oliveira, substituto de Maçanita no Comando do Bat.96 e outros relatos, explicam, no livro "A Guerra de África 1961-1974" de José Freire Antunes, como o defeituoso reabastecimento era feito pelo "Quartel-General". A progressão fazia-se ao nível de Comp.ª que estabelecia o novo acampamento ao fim do dia com luz natural, o que tornava o avanço moroso e pior que isso, permitia o reagrupamento do inimigo e seu planeamento de novos ataques e emboscadas com feridos o que, por sua vez, retardava mais o avanço e aumentava o estado de baixo moral na Tropa.
A todas as faltas e mal-estar interno tentava remedear e colmatar o intrépido Comandante Maçanita sem, contudo, pela defesa intransigente da sua Tropa no campo de batalha, acabar por desenvolver ele próprio necessariamente algum mal-estar com o Comando de Sector 3 e também com o Quartel-General. E, estando o Bat. 96 em Muxaluando a poucos Kms e prestes a fazer o assalto final sobre Nambuangongo, o caldo de relações entre O Comandante do Bat. e o Comando de Sector 3 na Tentativa e Comando Geral em Luanda, confrontaram-se como se de inimigos se tratasse. O caso não era para menos.
O Cor. Maçanita, após longa marcha, feridos e mortos tombados sobre as picadas e deixados enterrados nos acampamentos, no momento do assalto final para atingir e tomar o objectivo principal, recebe ordens ao mais alto nível para parar e esperar que os Pára-Quedistas de Luanda fossem lançados sobre Nambuangongo e deste modo ficar com os louros da vitória: uma original operação montada para acalmar e sossegar a impaciência de inactividade dos Páras em Luanda, retirar ao Maçanita e oferecer os louros aos Páras e que, sobretudo, permitiria fazer uma acção de propaganda para consumo internacional tanto mais que nesse lançamento estava incluído o jornalista Artur Agostinho preparado para o "relato", de ênfase à desportiva, do acontecimento. A operação de propaganda teria sido tomada para aliviar a pressão internacional que, naquela altura, na ONU votava inteira contra Portugal e era crucial para a argumentação da diplomacia portuguesa a afirmação do domínio e soberania da totalidade do território angolano.
Segundo relatos constantes do referido livro atrás citado o Alferes Jardim Gonçalves diz que Maçanita respondeu, "Vou entrar em território inimigo e vou com fogo" e mandou fechar todos os rádios proibindo qualquer telegrafista de os abrir. O citado Cor. Campos e Oliveira diz,"O Maçanita respondeu que faria fogo sobre os pára-quedistas quando eles estivessem a cair como pássaros". Manuel Catarino no "Correio da Manhã" diz que Maçanita respondeu, "Quem entra ali sou eu. E se lançarem pára-quedistas vou tomá-los como inimigos, porque não sei se são portugueses", e desligou o rádio para não receber mais mensagens.
Deste modo o Bat. 93, com o Ten. Cor. Maçanita à frente da Comp.ª 103 entrou triunfante em Nambuangongo às 17.45H do dia 09Agosto1961. Para Maçanita nenhuma respeitabilidade militar lhe podia retirar os louros da victória que o sangue dos seus Soldados e a sua bravura conquistara.
O nosso Comandante Cap. Rui Abrantes do Esq. Cav.ª 149, na entrevista dada e reproduzida aqui parte referente ao Bat. 96, foi conhecedor priviligiado dos acontecimentos e refere-se a eles de forma historicamente inofensiva dada a sua condição de militar protagonista, também construtor dos mesmos factos, mas colocado quase em oposição quer do ponto de vista da estratégia militar quer do pensamento e acção no terreno.
Quando O Cap. Abrantes se refere a Maçanita como militar destemido e teso, quando refere que no Esq. 149 nunca foi exigido mais apoio logístico com reabastecimentos e alimentos, quando se refere que uma ordem sua no 149 era rigorosamente cumprida e no 96 não era bem assim, quando se refere ao não lançamento dos Páras em Nambuangongo e depois ao lançamento, dias depois, dos mesmos Páras em Quipedro, para bom entendedor o Cap. Abrantes está-se a referir a todos acontecimentos passados tal como são fielmente descritos acima.
Como é já da História Militar acerca da Guerra em Angola, a operação militar de maior envergadura realizada no norte de Angola foi a operação denominada "Viriato" montada para a reocupação de Nambuangongo, considerada pelo inimigo a sua Praça-Forte, Quartel-General e Capital política dos territórios ocupados. Nessa operação tomaram parte três importantes colunas militares seguindo percursos mais ou menos formando vectores de força de 120º entre si e convergido em Nambuangongo.
Do vector sul-norte seguindo por Caxito-Anapasso-Quicabo-Beira Baixa-Onzo-Nambuangongo ficou encarregado o Bat.114 comandado pelo militar conceituado Cor. Oliveira Rodrigues. O vector Este-Oeste seguindo pelo Piri-Rio Luica-Mucondo-Nambuangongo ficou encarregado o Bat.96 comandado pelo destemido Cor. Maçanita. E o vector Oeste-Este, arrancando tardiamente dez dias em relação aos dois Batalhões referidos, seguindo por Ambriz-Quimbumbe-Zala-Nambuangongo ficou encarregado o Esq. Cav. 149 reforçado com quatro Pelotões de Armas específicas, comandado pelo racional e sagaz Cap. Rui Abrantes.
O Bat.114, logo aos primeiros 15 kms de avanço foi atacado em massa em Anapasso junto da ponte sobre o Rio Lifune. Com as suas Mausers e várias armas automáticas fez frente a uma mole de homens armados de catanas, canhangulos e algumas armas automáticas, vencendo a batalha sem contudo evitar a morte de alguns homens seus.
Desde esse momento pareceu ter ficado atemorizado e praticamente ficou paralizado, sem iniciativa. O Comando do Bat., em vez de explorar o sucesso da vitória e a raiva dos vivos perante os camaradas mortos e arrancar em frente a todo vapor, mediu mal a situação sobrestimando a força do inimigo e fez alto, remetendo-se depois a solicitar reforços para poder avançar de novo.
É certo que o percurso entregue ao Bat.114 era o mais bem guardado e defendido pelo inimigo dado ser o caminho mais curto e directo em relação a Luanda. Também, talvez por isso mesmo, tal percurso tenha sido entregue ao Comando do Militar considerado melhor preparado.
Aconteceu que o Comando do Bat.114 e o Comando do Sector 3 responsável máximo pela operação, instalado na Fazenda Tentativa e comandado pelo Brigadeiro Peixoto da Silva, não chegaram a entender-se cabalmente, um quanto aos reforços disponíveis e outro quanto ao avançar sem os reforços pedidos. E sobretudo, nem o Comando Chefe nem o Comando de Bat. viram na batalha de Anapasso uma vitória importante e determinante para ou, enviar com rapidez os reforços ou dar ordens claras de avanço explorando a desorganização do inimigo atingido fortemente.
Deste modo, o Bat.114 acabou por instalar-se e acomodar-se em Quicabo e as suas Tropas ocuparam a Fazenda Beira Baixa e o Onzo não tendo atingido o objectivo principal, Nambuangongo.
Tal como definido há um ano em V. N de Gaia a promessa de nova confraternização em Pombal no dia 12 de Outubro de 2013, foi cumprida.
Embora o peso de cinquenta e quatro anos passados sobre o nosso embarque para Angola, que nos tirou alguma energia de juventude, mantem-se em nós aquele estado de camaradagem e prontidão que o Corpo de Comando do Esq. 149 nos incutiu em tempo de guerra.
À hora marcada para o encontro lá estavam quase todos os combatentes sobreviventes em condições de saúde prontos para a arrancada da confraternização amiga.
E também, trocados os fortes abraços e recordações de episódios trágicos-cómicos uns e cómico-trágicos outros passados em comum, não foi esquecida a memória dos que tombaram em combate pagando com sangue a sobrevivencia de camaradas e dando um elevado contributo para a identidade ímpar do nosso Esquadrão 149.
O Cardona, a alma e a força incansável da organização dos nossos encontros anuais, não se esqueceu de nada como de costume. E também nos recordou o desaparecimento, já este ano, dos dois homens que compunham a equipa da RTP que nos acompanhou desde o Ambriz até Nambuangongo e que comeram connosco diariamente noite e dia a ração de combate, o pó da picada e o risco de vida ou morte permanente.
Já não haverá mais a sua habitual feliz companhia junto de nós, contudo deixaram a sua indelével presença, em nós e no Esquadrão 149, imortalizada no filme "A Grande Arrancada" que narra a nossa epopeia vivida entre Ambriz e Nambuangongo.
Foi curto o tempo para tanto episódio que havia para recordar entre os próprios intervenientes. Tanto mais que há sempre um dado novo ou pormenor esquecido de uma história passada sob perigo que, nestes encontros de troca de recordações em grupo, saltam à memória como badaladas de sino.
Mas para o ano haverá nova oportunidade de trocarmos abraços de nossa amizade e histórias de nossa guerra.