quinta-feira, 17 de outubro de 2013

CUMPRIU-SE MAIS UMA CONFRATERNIZAÇÃO

Tal como definido há um ano em V. N de Gaia a promessa de nova confraternização em Pombal no dia 12 de Outubro de 2013, foi cumprida.
Embora o peso de cinquenta e quatro anos passados sobre o nosso embarque para Angola, que nos tirou alguma energia de juventude, mantem-se em nós aquele estado de camaradagem e prontidão que o Corpo de Comando do Esq. 149  nos incutiu em tempo de guerra.
À hora marcada para o encontro lá estavam quase todos os combatentes sobreviventes em condições de saúde prontos para a arrancada da confraternização amiga.   

E também, trocados os fortes abraços e recordações de episódios trágicos-cómicos uns e cómico-trágicos outros passados em comum, não foi esquecida a memória dos que tombaram em combate pagando com sangue a sobrevivencia de camaradas e dando um elevado contributo para a identidade ímpar do nosso Esquadrão 149.


O Cardona, a alma e a força incansável da organização dos nossos encontros anuais, não se esqueceu de nada como de costume. E também nos recordou o desaparecimento, já este ano, dos dois homens que compunham a equipa da RTP que nos acompanhou desde o Ambriz até Nambuangongo e que comeram connosco diariamente noite e dia a ração de combate, o pó da picada e o risco de vida ou morte permanente.
Já não haverá mais a sua habitual feliz companhia junto de nós, contudo deixaram a sua indelével presença, em nós e no Esquadrão 149, imortalizada no filme "A Grande Arrancada" que narra a nossa epopeia vivida entre Ambriz e Nambuangongo. 




Foi curto o tempo para tanto episódio que havia para recordar entre os próprios intervenientes. Tanto mais que há sempre um dado novo ou pormenor esquecido de uma história passada sob perigo que, nestes encontros de troca de recordações em grupo, saltam à memória como badaladas de sino.
Mas para o ano haverá nova oportunidade de trocarmos abraços de nossa amizade e histórias de nossa guerra. 
Será em Viseu daqui a um ano.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

ARRANCADA ZALA-NAMBUANGONGO




TRAVESSIA DO UEMBIA

Em Zala, ainda a 07Ago61, ao anoitecer, depois de inventariadas as munições, alimentação, estado físico e moral das tropas, o comportamento do inimigo e tácticas utilizadas, o Comando decidido a avançar imediatamente sobre Nambuangongo ordenou às tropas fisicamente aptas que se aprontassem, montassem as viaturas e se colocassem em estado de prontidão e arranque.
Face a tal medida do Comando houveram reacções de oficiais subalternos, nomeadamente do Comando do Pelotão motorizado com Panhards dos Dragões de Luanda, Alferes Barão da Cunha.  O problema mais grave era a falta de munições sendo consideradas insuficientes as que haviam para fazer o percurso Zala-Nambuangongo de 44 Kms, sentido pela maioria como o mais perigoso pensando que o inimigo iria concentrar força e recursos para defender o seu bastião-forte.
Com o pessoal montado e alinhado para arranque onde chegavam notícias contraditórias ora de partir ora de ficar, os Oficiais em Reunião Geral discutiam a situação e possíveis consequências quer de ficar quer de arrancar em condições precárias de segurança militar.

TRAVESSIA DO UEMBIA

O Comandante Cap. Rui Abrantes, embora fortemente contrariado, deu-se por vencido perante a argumentação do risco que representava a falta de munições suficientes, aceitando que no dia seguinte se fizesse uma pista de aviação de modo a evacuar feridos e doentes e houvesse reabastecimento de munições e víveres frescos por via aérea. Aos Sargentos e Soldados chegaram, após a Reunião Geral dos Oficiais e ordem de desmontar e dormir a noite em Zala, rumores de troca azeda de argumentos incluindo a evocação do poder absoluto do Comandante em situação de Estado de Guerra.

TRAVESSIA DO UEMBIA

Assim, na manhã do dia 08Ago61, com enxadas, pás, latas e botas capinou-se uma área suficiente para aterrar os pequenos aviões DO-27, o Dornier. Este trouxe cunhetes de munições, correio e víveres frescos e evacuou feridos e doentes em várias viagens entre Zala e Luanda.
E, ironia trágico-cómica da nossa guerra, constatou-se que a maior parte dos cunhetes de munições trazidas eram de balas de madeira usadas na instrução militar. Em cima da hora prevista para arrancar foram precisas novas viagens do Dornier para trazer balas a sério. Já não houve tempo para examinar os novos cunhetes chegados de Luanda e logo distribuidos pelas viaturas destinadas à frente da coluna que arrancou às 18,00 horas desse dia 8.

RECEPÇÃO DO PESSOAL DO BAT.96 À NOSSA CHEGADA

Sendo o meu Pelotão escalado para a frente da coluna, eu próprio quando batia a picada fazendo reconhecimento pelo fogo, ao segundo cunhete aberto deparei-me novamente com balas de madeira. Comunicado o assunto ao Comandante de Pelotão recebi um cunhete de balas verdadeiras e ordem de parar com o fogo de reconhecimento e fazer reconhecimento pela observação atenta da mata e bermas da picada: devia esquecer o caso, não falar mais no assunto, progredir com rapidez e poupar as balas de matar. O Cap. Comandante não queria discutir mais o assunto e atrazar a marcha sobre Nambuangongo.
Posto o Esquadrão em marcha não havia mais condições de voltar atrás ou acampar, isso seria um sinal de fraquesa que contrariava totalmente a visão táctica militar do Comandante. Pelo contrário, face a tal facto que faria voltar de novo a discussão à estaca zero, o Comandante colocou o pelotão de Panhards blindadas na frente da coluna e ordenou a máxima rapidez na progressão.

O ENCONTRO DOS COMANDANTES COR. MAÇANITA E CAP. RUI ABRANTES

Como grande estratega militar, o nosso Comandante, já percebera que o inimigo reunira todo o seu esforço de defesa sobre Zala e que, naquele momento, estava batido e convencido da impossibilidade de deter as nossas Tropas tanto mais que sabia que o Bat. 96 do Cor. Maçanita também já havia rompido a defesa do inimigo e estava às portas de Nambuangongo. Também fora por estar convencido da justeza da sua visão sobre a situação militar do inimigo que quizera arrancar imediatamente de Zala no dia anterior e discutira acesamente com os outros Oficiais. Agora, uma vez o Esquadrão em marcha só pensava em atingir Nambuangongo o mais rápido possível e surpreender o inimigo e não ser surpreendido, como era estratégia estabelecida para actuação do Esquadrão.

O ABRAÇO DOS COMANDANTES DO BAT. 96 E ESQ. 149

O caso foi que o inimigo só deu sinal de vida logo a seguir ao arranque de Zala com uns tiros de muito longe sem consequências e depois limitou-se a acompanhar e observar de longe a nossa progressão sem parar directa a Nambuangongo. O obstáculo maior foi a travessia do Rio Uembia a 6 kms do objectivo final dado a ponte ter sido destruida e ser preciso reabrir uma antiga passagem a vau ao lado da ponte abatida. Levámos quase a noite toda do dia 9 para 10 a fazer a travessia do Rio Uembia e no dia 10Ago61 às 9,00 horas atingimos Nambuangongo onde as Tropas do Bat. 96 do Cor. Maçanita haviam chegado às 17,00 do dia anterior e nos receberam com saudações de grande entusiasmo e alegria.


UM SOLDADO DO BAT. 96 FEZ TOCAR O SINO À NOSSA CHEGADA E AO HASTEAR DA BANDEIRA

HASTEAR DA BANDEIRA PORTUGUESA NA CAPELA DE NAMBUANGONGO

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Viriato, chefe guerreiro lusitano
do ataque bate e foge, do engano,
do sempre em movimento,
do vem de milhas e vai pra milhas,
das emboscadas e armadilhas,
do sem casa nem acampamento
certo, sem noite, dia ou hora,
tal qual o nosso Esquadrão labora.
Na nossa guerra o guerrilheiro
era o preto mas a nossa táctica
adoptada supunha uma prática
de atacar de surpresa e primeiro,
usando ensinamentos e cartilhas
de Viriato que era preto entre virilhas.

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Excerto do poema "Viriato" do livro "Esquadrão 149, a Guerra e os Dias" de José Neves

domingo, 11 de agosto de 2013

CONFRATERNIZAÇÃO 2013 (2)


 P O M B A L
 
EM 12 DE OUTUBRO DE 2013
 
P R O G R A M A

12 DE OUTUBRO 2013 

10:30 H - CONCENTRAÇÃO NO LARGO DO CADAVAL - JUNTO À C.M. DE POMBAL

12:00 H - MISSA NA IGREJA "Nª.SENHORA DO CARDAL" - JUNTO À C.M. DE POMBAL

13:00 H - ALMOÇO NO RESTAURANTE "MANJAR DO MARQUÊS" - VER MAPA DE LOCALIZAÇÃO JUNTO

Contactos:
Cardona        :Telef. 212422047
                      Telm.967075752/926411513

Restaurante  :Telef. 236200960
                      Telm. 917292830


domingo, 28 de julho de 2013

ELVAS, FORTE DA GRAÇA OU DA 'BARRILADA'

O Sargento LAÇO foi comandante de Secção do 3º Pelotão do Esq. Cav. 149 entre 1961 e 1963 em Angola.
Fez parte dos heróis do Esquadrão que abriram as portas da guerra. Na Madrugada de 25Jul1961 o 3º Pelotão é enviado de Ambriz para explorar o caminho do nosso itinerário para Zala-Nambuangongo afim de conhecer as dificuldades de progressão e sobretudo testar a presença e capacidade de reacção do inimigo.
Ao fim de 53 kms percorridos, na área de Cavunga, os homens do 3º Pelotão são surpreendidos por um forte ataque do inimigo escondidos na mata da berma da picada armados de canhangulos.
Em Cavunga, a cerca de 150 kms o inimigo montara a sua primeira defesa de Zala e Nambuangongo instalando ali uma guarda avançada aquartelada de centenas de homens. 
O 3º Pelotão comandado pelo Alferes Ribeiro de Carvalho, o mais jovem dos Alferes e até da maioria dos seus Soldados, embora inexperiente e vendo-se de repente com 5 homens feridos, não se ficou ou amedrontou reagindo com fogo cerrado das Mauser sobre o inimigo. Obrigou-o a debandar pelos carreiros da mata e abandonar o quartel onde foi encontrada vária documentação com informação militar importante.
Na 1ª batalha travada na guerra a sério onde há quem morra e quem mate, quem tombe e quem escape, um dos intérpretes combatentes sem medo foi o Sargento LAÇO.
No dia 3Jul2013 fui visitá-lo a Elvas, sua terra natal onde apresentou praça e depois esteve muito anos em serviço nos quarteis da Cidade. Não há muito, o tempo quase lhe fez o que a guerra não conseguiu mas, temperado pela força de (L)aço rijo que foi o 149 e a guerra, resistiu e voltou a ter qualidade de vida.
Eu que em jovem ouvira falar do Quartel da "barrilada" em Elvas, falei-lhe acerca disso e que gostava de conhecer esse lugar mítico, que já perguntara como se ia lá mas houve até quem respondesse que o caminho não estava capaz ou já nem havia. O Laço levantou-se da cadeira e disse-me: queres lá ir agora?
E assim foi e fomos. O pequeno vídeo apresentado abaixo é o resultado dessa visita ao Forte da Graça ou da "Barrilada" como ainda é conhecido devido ao seu mito de Sisífo associado à sua condição de prisão militar.     
   


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Progrediram pelo terreno do inimigo até Cavunga.
53 quilómetros percorridos, sob um perigo que ocupa
a cabeça dos Soldados e todos os seus sentidos,
na tentativa de descobrir os homens escondidos
da UPA,
organização de prática tribalista que comunga
expulsar Portugal de Angola, nos combate,e era
sabido que estariam, emboscados, à nossa espera.
E em Cavunga dá-se o inevitável e receado contacto,
de Viriato.
Um frente-a-frente de facto
onde há quem morra e quem mate,
quem tombe e quem escape.
Felizmente, nesta batalha, passados os últimos
estampidos,
quando o fumo e o cheiro da pólvora ainda nos invade
contámos, entre os nossos, apenas cinco feridos,
sem gravidade.
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Extrato do poema  "O 1º Passo" do livro " Esquadrão 149, A Guerra e os Dias" de José Neves.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

SERRAS FERNANDES, NEVES DA COSTA VIVOS EM NOSSA MEMÓRIA SEMPRE

SERRAS FERNANDES, operador de imagem da equipa da RTP integrada no Esq.149 durante a arrancada para Nambuangongo em Angola, 1961.
Imagem de 13.10.2001 obtida na reunião do Esq.149 comemorativa dos 40 anos.


NEVES DA COSTA, jornalista chefe da equipa da RTP integrada no Esq.149 durante a arrancada para Nambuangongo em Angola, 1961.
Imagem de 13.10.2001 obtida na reunião do Esq.149 comemorativa dos 40 anos.

Soubemos no princípio deste ano do falecimento do SERRAS FERNANDES. Agora, inesperadamente, soubemos da má notícia do desaparecimento entre nós do NEVES DA COSTA.
Formaram a equipa da RTP integrada na coluna militar do Esq.149 dirigida a Nambuangongo. Entre o Ambriz e Nambuangongo foram nossos camaradas de guerra e que, tal como nós, correram perigo de morte e comeram a ração de combate e o pó da picada. Foram também heróis do Esq.149.

Admiradores da estratégia e qualidades de comando e militares dos Soldados da nossa Unidade tornaram-se nossos grandes amigos e nunca faltavam às nossas confraternizações anuais.
A eles deve o Esq.149 o Filme "Nambuangongo, A Grande Arrancada", que trata precisamente da história gravada ao vivo dos combates e progressão do Esq.149 desde o Ambriz até Nambuangongo.

Para Eles a certeza de que nós, os seus camaradas de guerra sobreviventes, não deixaremos de os manter vivos em nossas memórias.

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e recebemos em reforço, um Pelotão de Dragões
montados em Panhards, e para nos acompanhar
trouxe uma equipa de dois repórteres da RTP
armados de muita fita e câmaras de filmar
e medos e receios que ninguém vê.
(Iriam comer o pó connosco, em várias ocasiões)
Desde então, foram horas e horas de registo ao vivo
de tiros, feridos, mortos, medos, coragens
e feitos, feitas imagens
que são testemunhos em arquivo
à espera de poeira e serenidade.
Registos que fizeram do Esquadrão a estrela e o tema
do filme da nossa posteridade
gravado em celuloide de cinema.

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Do livro "Esquadrão 149, A Guerra e os Dias" de José Neves.

sábado, 29 de junho de 2013

CONFRATERNIZAÇÃO 2013



Como era de nossa marca um militar do 149 só não ia ao combate se o Dr. Pimenta o desse como incapaz de saúde.
Do mesmo modo, também agora, apesar dos anos nos terem fragilizado a antiga força e vontade, só não deve ir á nossa confraternização habitual de cada ano quem estiver mesmo impossibilitado de todo. Porque, a nossa reunião e convívio anual para recordar tempos inesquecíveis da nossa juventude em tempos de vida ou morte, são o mais eficaz medicamento contra as nossas maleitas. 
E porque somos cada vez menos a confraternizar são cada vez mais os que lá do alto nos observam e esperam pelo nosso dever de os recordar e homenagear. 

ASSIM, CARO AMIGO CAMARADA DO E.CAV149.

AGENDA JÁ ESTA DATA : Sábado, 12 de Outubro de 2013

Convívio 2013 do Esquadrão de Cavalaria 149 (Os morcegos)

Restaurante - "O MANJAR DO MARQUÊS"

Situado em Pombal

Em Setembro, o nosso inigualável organizador camarada Cardona enviará o convite individual e croqui de localização pelo correio.

O COGNOME

OS 
MORCEGOS


Este é o velhinho, gasto pelo tempo e uso intenso, emblema usado na manga dos homens do Esq. Cav. 149 depois da campanha de Nambuangongo.
Quando em 01/Ago/61, após o acampamento na Fazenda Matombe, o Comando decidiu tomar a iniciativa arriscada e inovadora de avançar em progressão contínua noite e dia sem acampar, tal decisão deu origem a que entre os Soldados se começasse a falar de sermos como os morcegos. E como se passou a progredir mais de noite que de dia a ideia de que éramos como os morcegos alargou-se a todo o Esquadrão e ganhou consistencia como mais um motivo de orgulho e, sobretudo, tomado como mais um reforço para a força anímica e moral da Tropa. 
Desse modo, logo que terminada a campanha de Nambuangongo, Quipedro e Pedra Verde, chegados ao Caxito o próprio Comando, sempre atento aos pormenores de auto-estima dos Soldados, encomendou a uma bordadeira de Luanda a feitura dos emblemas do Esquadrão 149 tendo como símbolo o morcego em homenagem à iniciativa táctica invulgar que, sendo nosso emblema, foi também sempre a imagem do nosso modo de actuar durante toda a comissão de serviço em Angola.  

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Depois da estratégia estabelecida
de não dar descanso ao inimigo,
avançando noite e dia, sempre em partida,
tendo a viatura, a arma e o instinto como abrigo,
passámos noites e dias e noitadas
em cima e debaixo das viaturas.
E, tanto estavam as nossas Tropas habituadas
que, já melhor que os dias eram as noites escuras,
porque à noite as Tropas não eram atacadas,
tornando os Soldados mais audazes e afoites
sem tiros e desassossegos.
Os nossos melhores dias eram as noites,
à semelhança daqueles não-pássaros negros
chamados morcegos.
E sendo assim, justo se impunha 
que "Morcegos" fosse a nossa alcunha.

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Do livro "Esquadrão 149, a Guerra e os Dias" de José Neves.