segunda-feira, 17 de junho de 2013

A GRANDE ARRANCADA, NAMBUANGONGO

OBJECTIVO E DETERMINAÇÃO

Ainda antes da arrancada para a tomada de Zala o Comandante Cap. Rui Abrantes deu esta entrevista ao repórter da RTP Neves da Costa, integrado na coluna militar chefiada pelo Esquadrão 149, na qual é patente a determinação e coragem imparável de atingir o objectivo; nem que fosse preciso prescindir das viaturas e avançar apeado.




sexta-feira, 5 de abril de 2013

A NÃO GUERRA DE PACHECO PEREIRA (*)

 
O QUE MOVIA QUEM FOI E QUEM RECUSOU A GUERRA COLONIAL?
-A guerra engendrou o mundo, reina sobre o mundo-, disse Heraclito no princípio do século V(a.C.), no sentido de que o mundo (cosmos) é o teatro de uma luta incessante entre elementos opostos, e esta luta gera uma mudança perpétua. Ontem, mais através da guerra violenta, hoje mais através da guerra de idéias, o conflito de perpectivas opostas sobre as melhores soluções é o grande princípio gerador de evolução e desenvolvimento intelectual e material. Também a causa má, a ditadura, que levou à guerra colonial, gerou uma consequência boa, a queda da ditadura e a instauração da liberdade democrática, condição sem a qual não seria possível as benfeitorias de que o país beneficiou. A ditadura levou-nos obrigados à guerra e a guerra gerou no seu interior as condições de acabar com a própria guerra acabando com a causa da guerra, o regime ditaturial existente.

Quer isto dizer que devido às contradições geradas pela guerra no seu seio, foi possível a criação de um espaço de liberdade para originar um movimento de opinião e discussão da guerra. Foram os contínuos mortos e feridos da guerra sem solução de parar que fez os militares repensarem a questão da guerra e tirar conclusões. Sem o sacrifício de milhares de Soldados a tomada de consciência dos comandos intermédios despolitizados nunca teria sido interiorizada nem a guerra questionada. Foi no interior das matas africanas, com sangue, que se inscreveu na consciência dos militares a necessidade de libertar o país da guerra. Jamais os refractários ou desertores por convicção política e anticolonialismo, a trabalhar nas "profissões menores" em fábricas ou restaurantes, a estudar ou a cantar nas ruas de Paris, seriam contributos decisivos para mudar o que quer que fosse cá dentro.

O conceito de liberdade absoluta comporta dois tipos de liberdade relativa: a da exterioridade determinada pela vivência em sociedade e consagrada na lei; a da interioridade determinada pela vontade no foro íntimo do indivíduo. Um exilado, por força do exílio, perde inapelávelmente a primeira liberdade pois fica automáticamente fora dos direitos de cidadania e possibilidade de acção e intervenção directa, quanto ao segunto aspecto da liberdade da vontade interior, dado que está fora do meio social onde pode agir, esta apenas lhe pode servir individualmente na forma de estoicismo para suportar as condições duras do exílio. 
Foi por isso que Sócrates preferiu a morte ao exílio e que mais tarde os gregos ao perderem definitivamente a condição de cidadãos livres em Queroneia, viraram-se para a única liberdade que lhes restava e dedicaram-se a inventar filosofias de vida de refúgio e resistência individual como o estoicismo e o epicurismo.

Pacheco Pereira pertenceu àquele pequeno grupo que podia auto-exilar-se para não fazer a guerra ao contrário de; "aqueles homens, rudes, vindos de um Portugal então muito rural, desajeitados, com capacetes de aço feitos para a II Guerra Mundial". Mas agora, vistos do "lado oposto" à distância de quase 50 anos, tenta pôr em pé de igualdade de "patriotismo" os combatentes e os desertores e até descobre que "também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la". O artigo de PP (Público, 19 de Abril), tresanda a moralismo paternalista de quem tomando uma atitude de escape face ao perigo, quer desculpar-se fingindo sobranceiramente compreender e desculpar os outros que lutaram. Diz que não foi por medo, mas o certo é que nas ruas de Paris e outras cidades da Europa apenas havia o medo da perda de conforto pessoal e não o medo de vida ou morte; diz que foi por ideologia e anticolonialismo mas o certo, como depois se constatou, é que a guerra proporcionava mais liberdade de promover proficuamente o anticolonialismo que nouto local qualquer (registe-se que os pides infiltrados nas Unidades Militares não tinham a coragem de denunciar os companheiros que arriscavam a vida a seu lado); diz que foi por anti-salazarismo mas o certo é que foi na guerra do mato que se gerou o movimento consciente que levou ao derrube do salazarismo e não nas cidades-luz dos auto-exilados.

Certamente ingénuos politicamente, simples e rudes socialmente, ignorantes culturalmente, inocentes quanto a altos juizos sobre guerras justas ou injustas, foram enviados obrigados à força para as matas e picadas de África e cumpriram o seu dever do momento. Comeram dia e noite a ração de combate diária e o pó das matas e picadas africanas, meses seguidos sob o permanente risco de vida. Não precisam nada, mesmo nada, eu recuso-o totalmente, do comíseracionismo paternal atestado de "patriotismo" que PP quer atribuir aos combatentes de 1961 " tão capazes de uma heroicidade simples como a que louvamos nos de 'quinhentos' ". Passados estes 50 anos, visto sob a serenidade de julgar que tal afastamento proporciona, cada vez se torna mais evidente que a História apreciará mais e registará primeiramente quem lutou e não quem se auto-excluiu. 
Não é apenas porque a sua música era superior que o José Afonso foi sempre mais ouvido e importante que os outros cantores exilados, foi também e sobretudo porque lutou, enfrentou e sofreu cá dento junto dos seus.

Por fim, PP propõe que " uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo" porque, "bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma atitude" a que ambos tomaram, quer os auto-exilados quer os combatentes. Só numa concepção da imaginação se pode dizer que foi a mesma atitude, porquanto PP ao ver as imagens dos soldados de 1961 na guerra de Mauser na mão, pode ver-me a mim que estava lá, mas nunca a ele que se recusou participar.
O mesmo fragmento de Heraclito citado na abertura deste texto, traduzido-interpretado por Simone Weil é mais completo e diz: -A guerra é mãe de todas as coisas, rainha de todas as coisas, e revela alguns como deuses, outros como homens, e torna uns livres e outros escravos-.



(ª) - Texto escrito e postado no Blog APCGORJEIOS em 04 de Maio de 2008.

 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

LIVRO "HISTÓRIA DO E. CAV. 149"


 EDIÇÃO DE 1963

 EDIÇÃO 2011

Já nos informou o nosso camarada do Esq.149 José António Botas Cardona que foi pessoalmente fazer entrega em mão de um exemplar da 2ª edição do livro "História do Esquadrão 149" da autoria do nosso Ten. Miliciano Médico  Dr. João Alves Pimenta.
Dado o livro ter sido editado ainda em Luanda sobre a hora do nosso embarque em 1963 e em quantidade muito limitada, a quase totalidade dos livros foram distribuidos pelo pessoal do Esquadrão o que restringiu grandemente o conhecimento deste documento preciso e precioso para a verdade dos factos acerca das missões executadas pelo Esq. 149, nomeadamente na operação "Viriato", uma das mais importantes para o regime no aspecto politico-militar.
Estando há muito esgotada a 1ª edição quis o Dr. João Alves Pimenta promover uma nova edição tendo em vista uma divulgação mais alargada além de corrigir algumas gralhas existentes.
Como disse, o livro foi editado em Luanda em 1963 sobre a hora do embarque para Lisboa. E foi possível editar ainda em tempo de cumprimento de missão porque o Dr. Alves Pimenta o foi escrevendo em cima e à medida dos acontecimentos. No relato dos factos inscritos neste livro não há nada intermediado posteriormente pela memória. Até as suas clarividentes notas de observação acerca do moral e estado físico dos militares assim como medidas de tratamento psicológico por si tomadas para evitar o abatimento dos Soldados mais frágeis, foram pensadas e escritas sob o perigo das balas nos acampamentos isolados na mata e sob o calor da sua generosa humanidade.

Tem agora a Liga dos Combatentes em sua posse, um precioso e fiel documento de consulta para poder confirmar com fidelidade os factos relativos ao Esq. 149 e, avaliar e distinguir sem erro a ficção da realidade ou repudiar quem queira imaginar e escrever a História para, com os feitos alheios, aumentar o seu próprio espólio de heroismo.



sábado, 26 de janeiro de 2013

UMA "ESTÓRIA" MAL CONTADA


Cap. Rui Coelho Abrantes à frente do Esq. 149 formado em apresentar armas na parada do hastear da bandeira portuguesa em Zala.

CARTA ENVIADA À LIGA DOS COMBATENTES ACERCA DO TEXTO "CONQUISTA DE NAMBUANGONGO" UMA "ESTORIA" DA AUTORIA DO FURRIEL EDGAR SILVA PUBLICADA NA REVISTA DA LIGA DE DEZEMBRO DE 2012


Exmos. Senhores,
Caros Combatentes.

Um camarada meu do Esq. Cav. 149 chamou-me a atenção para a “Estória” contada e inscrita na Vossa Revista de Dezembro de 2012 com o heróico titulo de “Conquista de Nambuangongo”, da autoria de Edgar Silva.
É certo que o autor lhe chama “estória” pelo que nos informa à partida que vai contar uma ficção. Contudo o assunto histórico mesmo ficcionado tem de sustentar-se na realidade dos factos históricos e não em deturpações grosseiras desses factos. Não é, contudo, o que o autor faz  que mais parece escrever para se auto-elogiar permanentemente ao longo do texto e divertir-se com a guerra invocando-a para se exibir quase à maneira de António Lobo Antunes. 

O autor Furriel sem medo, começa logo no titulo por insinuar que esteve na “Conquista de Nambuangongo” mas, lendo o texto, constata-se que fez o percurso até Zala e esteve aqui acampado. Depois apenas informa que parte com a sua Unidade, penso que o Batalhão 158, para algures próximo de Carmona. Pelo menos não dos diz nada como, quando e com quem chegou a Nambuangongo, que distava ainda 44 Kms, nem refira quem lá estava quando lá chegou dado que, como é historicamente sabido, o Bat. 96 do Coronel Maçanita foi a primeira Unidade militar a entrar em Nambuangongo e lá permaneceu largos dias. O autor omite deliberadamente a sua chegada e como a Nambuangongo para evitar maior confronto com a realidade que sabe ser outra e contrária ao efeito que pretende tirar da sua “estória”.

É do conhecimento geral militar e histórico da guerra que na operação “Viriato”, relativa ao objectivo bem definido da tomada de Nambuangongo, tomaram parte 3 colunas militares por eixos diferentes: O Bat. 96, o Bat. 114 e o Esq. 149, este exactamente pelo eixo Ambriz-Zala-Nambuangongo. O Bat. 96 atingiu Nambuangongo às 17,00 horas de 9Ago61 e o Esq. 149 às 9,00 horas de 10Ago61. Mais nenhuma outra Unidade foi encarregada ou tomou directamente parte na tomada de Nambuangongo. O Comandante do Bat. 158, certamente, nunca podia ter informado os seus homens que a missão do seu Bat. era a tomada de Zala e Nambuangongo, como afirma Edgar Silva no seu texto. 
 
Mas o nosso Furriel conquistador sem medo, deturpa a realidade dos factos, também, quando afirma que a sua Unidade desobstruiu e tomou as povoações até Zala e conquistou esta povoação, importante sede de Posto Administrativo. Quem foi primeiro e travou todas as batalhas e tomou todas as povoações até Zala, incluindo esta e depois até Nambuangongo foi o Esq.149 que, esse sim, tinha a missão de desobstruir o caminho e retomar povoações até ao objectivo final, que era tomar e ocupar Nambuangongo.
 No terreno a missão do Bat.158 consistiu em ocupar as povoações tomadas pelo Esq.149 no seu percurso como Quimbumbe e depois Zala onde tropas do Bat. 158 ficaram instaladas para guarda dessas posições recuperadas e aí permaneceram depois do arranque do Esq. 149 para Nambuangongo pelas 18,00 horas do dia 8Ago61. Na véspera, dia 7Ago61 foi o Esq. 149 que formou em parada para hastear a bandeira portuguesa no Posto de Zala após a qual o  Comandante do Esq. 149, Cap. Rui Coelho Abrantes fez a entrega oficial da povoação à entidade administrativa competente, o Chefe de Posto de Zala.

Em Zala, na hora da partida para Nambuangongo, o Esq. 149 recebeu como reforço dois pelotões do Bat. 158 onde, eventualmente, estaria incluído Edgar Silva o que, nesse caso, dará um mínimo de verosimilhança à sua “estória”. Não é, contudo, sério, afirmar que a sua Unidade foi encarregada da missão de conquistar Nambuangongo e pelo caminho conquistou Zala e outras povoações, feito esse que apenas pertence ao Esq. 149. Igualmente, não é sério que, caso seja verdade que tenha chegado a Nambuangongo incluído como reforço e sob o comando do Esq.149, não só omita esse facto como insinue ser seu conquistador, feito que nem sequer coube ao Esq. 149 mas sim, como é conhecido, ao Bat. 96. Como reforço e Adidos ao Esq. 149 haviam Pelotões de Morteiros 81, de Artilharia com peças 88, de Sapadores da Compª. Engª. 123 e dos Dragões de Luanda equipados com blindados Panhard e nenhum seu elemento ousou ainda reivindicar para si, ou sua Unidade de origem, a conquista de Zala ou Nambuangongo. Publicar um texto com o título “Conquista de Nambuangongo” e depois falar apenas de si próprio atribuindo-se conquistas e feitos alheios, é de uma vaidade insuportável. 

Deixa-nos espantados que a Liga, que pretende ser um repositório fiel dos acontecimentos dos Exércitos portugueses nas várias guerras e especialmente na controversa Guerra Colonial, não tenha alguém conhecedor e competente para supervisionar os textos publicados nos seus documentos que a representam oficialmente.
Acho eu que, a Liga deve confirmar a veracidade dos acontecimentos relatados e impressos em documentos que só a si responsabilizam. Caso contrário, a História da Guerra feita pelos futuros historiadores com base em documentos sem rigor, acabará por ser uma História de dúvidas e logro: com relatos deturpados e falsos dos factos haverá amanhã Histórias da Guerra para todos os gostos e feitios. Como a “estória” pouco séria por vós publicada e aqui criticada, são hoje mato nos nossos media, onde cada um conta a sua “estória” da maneira mais conveniente e fácil para conseguir um auto-elogio sem a hombridade de respeitar a verdade dos factos.

E não seria difícil repor os factos da guerra tal como aconteceram dado que a maior parte dos participantes nela ainda são vivos e podem relatá-los de viva voz. Espanta-me que os Comandantes das operações de envergadura ou outras significativas, jamais tenham sido convidadas a depor. Ao contrário são sempre os jornalistas ou “estudiosos” que vão debater a Guerra sob uma perspectiva e interpretação literária ou psicológica que não tem nada a ver com os factos reais vividos pelos próprios. O Artur Agostinho, provavelmente ainda tremendo de medo, até comentou a Guerra e sobretudo a Batalha de Nambuangongo sob a perspectiva futebolística: avistou-a do alto dum avião e, claro, não ouviu tiros nem viu mortos e feridos e, claro também, viu nela o que era seu hábito e especialidade, um jogo de futebol envolvido de clubite. 

Por outro lado, penso, que a Liga tem relatos e documentos escritos e de imagem, fieis e credíveis, suficientes para poder fazer a análise histórica correcta sobre as “estórias” que alguém queira contar e mais não são que ficções auto-apologéticas. 

 Para constatação da verdade dos factos que acima referimos, pode a Liga consultar os seguintes documentos:
- Filme “A Grande Arrancada” da autoria dos repórteres da RTP Neves de Sousa e Serras Fernandes que acompanharam, filmaram e viveram com o Esq. 149 até Nambuangongo.
- O livro “História do Esquadrão de Cavalaria 149” da autoria do nosso Tenente Médico Dr. João Alves Pimenta, escrito durante a campanha e impresso ainda em Luanda em 1963.
- O livro “Esquadrão 149 – A Guerra e os Dias” da autoria de José Neves, Furriel do Esq. que relata os factos tal como os viveu e não por ouvir dizer.


Os nossos respeitosos cumprimentos,

Adolfo Contreiras

Furriel do Esq. 149
Gorjões, 24.01.2013



PS – Informamos que iremos publicar esta carta no blogue “Memória 149” que pretende relatar o percurso, missões e feitos do Esq. 149 em Angola entre 1961 – 1963 e que, precisamente, nesta altura está relatando a tomada de Zala.     
 

sábado, 5 de janeiro de 2013

TOMADA DE ZALA

A 6Ago61 fez-se a última arrancada para ocupação de Zala localidade com Posto Administrativo que foi atingida pelas 16 Horas.
O inimigo que se havia batido duramente até Quimazangue e nos fizera um morto e vários feridos, neste pequeno troço final quase não ofereceu resistencia e tinha abandonado a povoação com forte rasto de destruição do casario, como já se tornara habitual no inimigo.







A 7Ago61 o Esquadrão marchou em formatura geral até junto do Posto Administrativo para proceder ao hastear da bandeira portuguesa na presença do Chefe de Posto e de vários civis fazendeiros da região que nos acompanharam e nos serviram de guias pelo meandros e cruzamentos de picadas. 
Nesta cerimónia do hastear da bandeira o Comandante Abrantes, uma vez reconquistada a povoação, fez a entrega do Posto à entidade administrativa competente. 



Foi interessante verificar que, embora já destreinados e desligados dos exercícios de paradas e galas vistosas em aquartelamentos monumentais, os nossos Soldados marcharam garbosa e briosamente embora metidos nas suas fardas de combate já bastante suadas e gastas. 
Nesta parada não havia obrigação de fazer brilhar os amarelos nem a graxa das botas ou outra qualquer exigência para abrilhantar a cerimónia. Nem era necessária e o Comando preocupava-se muito pouco com simbolismos de parada e muito mais com simbolismos de coragem. 
O brilho militar forte estava na consciência do dever cumprido e reflectia-se nos olhos dos Soldados.
Foi uma parada num intervalo da guerra onde estavam presentes o sangue dos camaradas feridos e do morto recentes e o acto comemorava uma victória que significava o cabal cumprimento do dever perante o sangue já derramado sobre a picada até Zala.




Ainda na tarde de 7Ago61 continuaram as obras de improvisação de uma pista de aviação a partir de uma encosta de capinzal.
Com ferros, latas, catanas e algumas pás e enxadas existentes, todos se empenharam em capinar e alisar uma encosta de capim. Com esforço fez-se uma pista cheia de altos e buracos que na aterragem inaugural o Dornier mais parecia uma corça aos saltos e, não fora a perícia do piloto, certamente tinha-se virado às cambalhotas.
A alegria dos Soldados, ao verem o avião, um Dornier DO-27, finalmente parado e direito sobre as rodas, correram em bando felizes para o avião que trazia correio e víveres frescos.


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Ainda andava no ar o fumo e o intenso cheiro
da pólvora, após várias horas de tiroteio intenso
quando avistámos casas e num enorme e alto terreiro
acampámos para descanso do corpo,da alma e do imenso
medo e desgaste psíquico, provocado
durante tantas horas de fogo cruzado
que provocaram à nossa Tropa cinco feridos ligeiros
e várias baixas ao inimigo, a julgar pelos rastos vistos nos carreiros.
Contudo, na hora do dever cumprido e do descanso, ninguém se rala
com os feridos que estavam bem entregues ao Doutor e maqueiros
e, os restantes estavam felizes pela tomada de Zala.


Do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves

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sábado, 22 de dezembro de 2012

ENCORAJAR A CORAGEM


No acampamento do dia 01Ago61 na Fazenda Matombe, o Comandante Rui Abrantes, já senhor de confiança total de seus Soldados, decide tomar nova medida de elevado brio e encorajamento militar à sua Tropa, Esquadrão 149. 
Nesse dia dá ordem de que nenhuma viatura do Esquadrão usasse qualquer tipo de blindagem de protecção de que tipo fosse. Quem pusera taipais de madeira ou chapa ou outro material como "blindagem militar" deveria imediatamente limpar as viaturas de tal empecilho para a visibilidade e mobilidade dos Soldados. 



Foi outra medida inovadora e exemplar face ao que se tornara prática geral nas Unidades que partiam para o mato na ZIN, Zona de Intervenção Norte.
Como toda medida contra-corrente, também esta suscitou reservas em alguns mais receosos que tinham implantado tal protecção por imitação do que tinham visto. 
Contudo o Capitão explicou que melhor que aquela "blindagem" abarracada era os Soldados terem boa visibilidade como prevenção e total mobilidade nos ataques do que estarem sujeitos a ficarem encurralados na viatura onde o inimigo lhes podia cair em cima. 
Isto acontecera com o Bat. Caç. 114 em Anapasso e o nosso Capitão, bom observador e estudioso militar, detinha-se nestes detalhes que eram de grande importância para a estratégia e encorajamento moral dos Soldados. 


O Capitão Comandante dava o exemplo no seu jipe

A coragem de um chefe quando aliada do estudo cuidado e bom senso constitui um exemplo determinante para os seu subordinados.
Uma coragem assim tem tudo para ser bem sucedida e, sendo bem sucedida, eleva a coragem dos que são sujeitos às medidas e tanto mais quanto constatam, na prática, a sua justeza.
Um Comando racionalmente corajoso eleva e encoraja, a todos os níveis, o moral e coragem individual dos Soldados e dá uma identidade especial à Unidade a que esses Soldados pertencem.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

SOLDADO MOURARIA



O MOURARIA SENDO ENTREVISTADO PELO REPÓRTER DA RTP NEVES DA COSTA

O Mouraria tinha este nome de baptismo militar devido ao bairro lisboeta de sua naturalidade. Mas também esse baptismo não era indiferente ao seu comportamento e falas característicos desse bairro genuinamente típico de Lisboa. A sua atitude e reacção perante a guerra estavam-lhe moldados na alma pela sua pertença humana ao bairro onde mourejara desde criança a adulto. 
Passar de repente a ser militar apenas lhe introduziu obrigações que cumpria por imposição mas jamais por qualquer compreensão de ordem ou disciplina. O seu comportamento militar, ainda para mais o rígido comportamento militar cavaleiro, era nada para a sua inocência de garoto criado à solta nas ruas cheias de gente viva e atitude fadista. 

 MOURARIA A RECEBER TRATAMENTO MÉDICO DO DR. JOÃO PIMENTA EM PLENA PICADA

Dos cinco feridos ligeiros que tivemos durante a batalha de Zala um deles foi o Mouraria. O inimigo atacou com uma canhangulada sobre o jipão onde ia o Mouraria e feriu-o na boca e nariz e outros nas mãos e pernas contudo sem gravidade. O disparo fora feito de longe para o alcance daquela arma artesanal e os estilhaços de ferro, que no canhangulo substituiam as nossas balas, tiveram um impacto superficial. 


O DR. JOÃO PIMENTA A SER ENTREVISTADO APÓS RECOMPOR O NARIZ DO MOURARIA

Foi precisamente no arranque de Quimazangue para Zala que ao Mouraria lhe veio à mente as suas memórias de garoto pendurado nos eléctricos entre a Mouraria e o Chile. Quando a longa coluna de viaturas estava alinhada na picada para arrancar e o Comandante Abrantes deu ordem de marcha, o Mouraria desata a gritar sem parar, "segue, segue vai pró Chile" enquanto imitava o cobrador do eléctrico no gesto de puxar pelo cordão que fazia tocar campainha de arranque.
Tal grito e gesto aplicado no momento certo e instantaneamente adoptado e replicado em todas as viaturas ecoou um a um até à viatura da frente da coluna, e esta lançou o grito e o gesto para a rectaguarda enquanto arrancava lentamente.
Desde esse momento feliz nunca mais o Esquadrão, em qualquer operação, grande ou pequena, montada ou apeada, deixou de usar a voz de arranque "segue, segue vai pró Chile".
Este grito e gesto, usados sempre em todas as abaladas do aquartelamento ou cada vez que a coluna arrancava ou partia durante as operações, foi imediatamente adoptado pelo Comando e tornou-se uma voz de comando e um símbolo do Esquadrão que, como outros, o distinguiam. 
O som musical do "segue, segue vai pró Chile" aliado do gesto do puxar do cordão e o imitar do tocar da campainha, sugeria uma minúscula peça teatral que nos entusiasmava e dava alma para, na hora de ir ao encontro do inimigo nos esquecermos dele, e no momento do enfrentar ter mais força e ânimo de o combater.
E tudo isto, que não foi pouca coisa, graças ao garoto reguila fadista que habitava no corpo de Soldado do Mouraria. 

CAMINHADA APEADA EM DIRECÇÃO A ZALA
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Lá vai o eléctrico às voltas
Segue chiando no seu carril
Leva um menino às costas
Segue, segue vai p'ro Chile

E o eléctico chia e rola, rola
Com o menino pendurado
Vai pró Chile, e não prá escola
E o menino foi p'ra Soldado

E o Soldado menino foi prá guerra
Com arma, balas, capacete, cantil
E o menino que o Soldado encerra
gritou, "segue, segue vai pró Chile"

Ó Soldado reguila, puto rufia
Do bairro pobre, tua moldura,
Que te legou nome "Mouraria"
E tu a nós um poema em Figura.

José Neves
Lisboa, 1997

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