sábado, 26 de janeiro de 2013

UMA "ESTÓRIA" MAL CONTADA


Cap. Rui Coelho Abrantes à frente do Esq. 149 formado em apresentar armas na parada do hastear da bandeira portuguesa em Zala.

CARTA ENVIADA À LIGA DOS COMBATENTES ACERCA DO TEXTO "CONQUISTA DE NAMBUANGONGO" UMA "ESTORIA" DA AUTORIA DO FURRIEL EDGAR SILVA PUBLICADA NA REVISTA DA LIGA DE DEZEMBRO DE 2012


Exmos. Senhores,
Caros Combatentes.

Um camarada meu do Esq. Cav. 149 chamou-me a atenção para a “Estória” contada e inscrita na Vossa Revista de Dezembro de 2012 com o heróico titulo de “Conquista de Nambuangongo”, da autoria de Edgar Silva.
É certo que o autor lhe chama “estória” pelo que nos informa à partida que vai contar uma ficção. Contudo o assunto histórico mesmo ficcionado tem de sustentar-se na realidade dos factos históricos e não em deturpações grosseiras desses factos. Não é, contudo, o que o autor faz  que mais parece escrever para se auto-elogiar permanentemente ao longo do texto e divertir-se com a guerra invocando-a para se exibir quase à maneira de António Lobo Antunes. 

O autor Furriel sem medo, começa logo no titulo por insinuar que esteve na “Conquista de Nambuangongo” mas, lendo o texto, constata-se que fez o percurso até Zala e esteve aqui acampado. Depois apenas informa que parte com a sua Unidade, penso que o Batalhão 158, para algures próximo de Carmona. Pelo menos não dos diz nada como, quando e com quem chegou a Nambuangongo, que distava ainda 44 Kms, nem refira quem lá estava quando lá chegou dado que, como é historicamente sabido, o Bat. 96 do Coronel Maçanita foi a primeira Unidade militar a entrar em Nambuangongo e lá permaneceu largos dias. O autor omite deliberadamente a sua chegada e como a Nambuangongo para evitar maior confronto com a realidade que sabe ser outra e contrária ao efeito que pretende tirar da sua “estória”.

É do conhecimento geral militar e histórico da guerra que na operação “Viriato”, relativa ao objectivo bem definido da tomada de Nambuangongo, tomaram parte 3 colunas militares por eixos diferentes: O Bat. 96, o Bat. 114 e o Esq. 149, este exactamente pelo eixo Ambriz-Zala-Nambuangongo. O Bat. 96 atingiu Nambuangongo às 17,00 horas de 9Ago61 e o Esq. 149 às 9,00 horas de 10Ago61. Mais nenhuma outra Unidade foi encarregada ou tomou directamente parte na tomada de Nambuangongo. O Comandante do Bat. 158, certamente, nunca podia ter informado os seus homens que a missão do seu Bat. era a tomada de Zala e Nambuangongo, como afirma Edgar Silva no seu texto. 
 
Mas o nosso Furriel conquistador sem medo, deturpa a realidade dos factos, também, quando afirma que a sua Unidade desobstruiu e tomou as povoações até Zala e conquistou esta povoação, importante sede de Posto Administrativo. Quem foi primeiro e travou todas as batalhas e tomou todas as povoações até Zala, incluindo esta e depois até Nambuangongo foi o Esq.149 que, esse sim, tinha a missão de desobstruir o caminho e retomar povoações até ao objectivo final, que era tomar e ocupar Nambuangongo.
 No terreno a missão do Bat.158 consistiu em ocupar as povoações tomadas pelo Esq.149 no seu percurso como Quimbumbe e depois Zala onde tropas do Bat. 158 ficaram instaladas para guarda dessas posições recuperadas e aí permaneceram depois do arranque do Esq. 149 para Nambuangongo pelas 18,00 horas do dia 8Ago61. Na véspera, dia 7Ago61 foi o Esq. 149 que formou em parada para hastear a bandeira portuguesa no Posto de Zala após a qual o  Comandante do Esq. 149, Cap. Rui Coelho Abrantes fez a entrega oficial da povoação à entidade administrativa competente, o Chefe de Posto de Zala.

Em Zala, na hora da partida para Nambuangongo, o Esq. 149 recebeu como reforço dois pelotões do Bat. 158 onde, eventualmente, estaria incluído Edgar Silva o que, nesse caso, dará um mínimo de verosimilhança à sua “estória”. Não é, contudo, sério, afirmar que a sua Unidade foi encarregada da missão de conquistar Nambuangongo e pelo caminho conquistou Zala e outras povoações, feito esse que apenas pertence ao Esq. 149. Igualmente, não é sério que, caso seja verdade que tenha chegado a Nambuangongo incluído como reforço e sob o comando do Esq.149, não só omita esse facto como insinue ser seu conquistador, feito que nem sequer coube ao Esq. 149 mas sim, como é conhecido, ao Bat. 96. Como reforço e Adidos ao Esq. 149 haviam Pelotões de Morteiros 81, de Artilharia com peças 88, de Sapadores da Compª. Engª. 123 e dos Dragões de Luanda equipados com blindados Panhard e nenhum seu elemento ousou ainda reivindicar para si, ou sua Unidade de origem, a conquista de Zala ou Nambuangongo. Publicar um texto com o título “Conquista de Nambuangongo” e depois falar apenas de si próprio atribuindo-se conquistas e feitos alheios, é de uma vaidade insuportável. 

Deixa-nos espantados que a Liga, que pretende ser um repositório fiel dos acontecimentos dos Exércitos portugueses nas várias guerras e especialmente na controversa Guerra Colonial, não tenha alguém conhecedor e competente para supervisionar os textos publicados nos seus documentos que a representam oficialmente.
Acho eu que, a Liga deve confirmar a veracidade dos acontecimentos relatados e impressos em documentos que só a si responsabilizam. Caso contrário, a História da Guerra feita pelos futuros historiadores com base em documentos sem rigor, acabará por ser uma História de dúvidas e logro: com relatos deturpados e falsos dos factos haverá amanhã Histórias da Guerra para todos os gostos e feitios. Como a “estória” pouco séria por vós publicada e aqui criticada, são hoje mato nos nossos media, onde cada um conta a sua “estória” da maneira mais conveniente e fácil para conseguir um auto-elogio sem a hombridade de respeitar a verdade dos factos.

E não seria difícil repor os factos da guerra tal como aconteceram dado que a maior parte dos participantes nela ainda são vivos e podem relatá-los de viva voz. Espanta-me que os Comandantes das operações de envergadura ou outras significativas, jamais tenham sido convidadas a depor. Ao contrário são sempre os jornalistas ou “estudiosos” que vão debater a Guerra sob uma perspectiva e interpretação literária ou psicológica que não tem nada a ver com os factos reais vividos pelos próprios. O Artur Agostinho, provavelmente ainda tremendo de medo, até comentou a Guerra e sobretudo a Batalha de Nambuangongo sob a perspectiva futebolística: avistou-a do alto dum avião e, claro, não ouviu tiros nem viu mortos e feridos e, claro também, viu nela o que era seu hábito e especialidade, um jogo de futebol envolvido de clubite. 

Por outro lado, penso, que a Liga tem relatos e documentos escritos e de imagem, fieis e credíveis, suficientes para poder fazer a análise histórica correcta sobre as “estórias” que alguém queira contar e mais não são que ficções auto-apologéticas. 

 Para constatação da verdade dos factos que acima referimos, pode a Liga consultar os seguintes documentos:
- Filme “A Grande Arrancada” da autoria dos repórteres da RTP Neves de Sousa e Serras Fernandes que acompanharam, filmaram e viveram com o Esq. 149 até Nambuangongo.
- O livro “História do Esquadrão de Cavalaria 149” da autoria do nosso Tenente Médico Dr. João Alves Pimenta, escrito durante a campanha e impresso ainda em Luanda em 1963.
- O livro “Esquadrão 149 – A Guerra e os Dias” da autoria de José Neves, Furriel do Esq. que relata os factos tal como os viveu e não por ouvir dizer.


Os nossos respeitosos cumprimentos,

Adolfo Contreiras

Furriel do Esq. 149
Gorjões, 24.01.2013



PS – Informamos que iremos publicar esta carta no blogue “Memória 149” que pretende relatar o percurso, missões e feitos do Esq. 149 em Angola entre 1961 – 1963 e que, precisamente, nesta altura está relatando a tomada de Zala.     
 

sábado, 5 de janeiro de 2013

TOMADA DE ZALA

A 6Ago61 fez-se a última arrancada para ocupação de Zala localidade com Posto Administrativo que foi atingida pelas 16 Horas.
O inimigo que se havia batido duramente até Quimazangue e nos fizera um morto e vários feridos, neste pequeno troço final quase não ofereceu resistencia e tinha abandonado a povoação com forte rasto de destruição do casario, como já se tornara habitual no inimigo.







A 7Ago61 o Esquadrão marchou em formatura geral até junto do Posto Administrativo para proceder ao hastear da bandeira portuguesa na presença do Chefe de Posto e de vários civis fazendeiros da região que nos acompanharam e nos serviram de guias pelo meandros e cruzamentos de picadas. 
Nesta cerimónia do hastear da bandeira o Comandante Abrantes, uma vez reconquistada a povoação, fez a entrega do Posto à entidade administrativa competente. 



Foi interessante verificar que, embora já destreinados e desligados dos exercícios de paradas e galas vistosas em aquartelamentos monumentais, os nossos Soldados marcharam garbosa e briosamente embora metidos nas suas fardas de combate já bastante suadas e gastas. 
Nesta parada não havia obrigação de fazer brilhar os amarelos nem a graxa das botas ou outra qualquer exigência para abrilhantar a cerimónia. Nem era necessária e o Comando preocupava-se muito pouco com simbolismos de parada e muito mais com simbolismos de coragem. 
O brilho militar forte estava na consciência do dever cumprido e reflectia-se nos olhos dos Soldados.
Foi uma parada num intervalo da guerra onde estavam presentes o sangue dos camaradas feridos e do morto recentes e o acto comemorava uma victória que significava o cabal cumprimento do dever perante o sangue já derramado sobre a picada até Zala.




Ainda na tarde de 7Ago61 continuaram as obras de improvisação de uma pista de aviação a partir de uma encosta de capinzal.
Com ferros, latas, catanas e algumas pás e enxadas existentes, todos se empenharam em capinar e alisar uma encosta de capim. Com esforço fez-se uma pista cheia de altos e buracos que na aterragem inaugural o Dornier mais parecia uma corça aos saltos e, não fora a perícia do piloto, certamente tinha-se virado às cambalhotas.
A alegria dos Soldados, ao verem o avião, um Dornier DO-27, finalmente parado e direito sobre as rodas, correram em bando felizes para o avião que trazia correio e víveres frescos.


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Ainda andava no ar o fumo e o intenso cheiro
da pólvora, após várias horas de tiroteio intenso
quando avistámos casas e num enorme e alto terreiro
acampámos para descanso do corpo,da alma e do imenso
medo e desgaste psíquico, provocado
durante tantas horas de fogo cruzado
que provocaram à nossa Tropa cinco feridos ligeiros
e várias baixas ao inimigo, a julgar pelos rastos vistos nos carreiros.
Contudo, na hora do dever cumprido e do descanso, ninguém se rala
com os feridos que estavam bem entregues ao Doutor e maqueiros
e, os restantes estavam felizes pela tomada de Zala.


Do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves

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sábado, 22 de dezembro de 2012

ENCORAJAR A CORAGEM


No acampamento do dia 01Ago61 na Fazenda Matombe, o Comandante Rui Abrantes, já senhor de confiança total de seus Soldados, decide tomar nova medida de elevado brio e encorajamento militar à sua Tropa, Esquadrão 149. 
Nesse dia dá ordem de que nenhuma viatura do Esquadrão usasse qualquer tipo de blindagem de protecção de que tipo fosse. Quem pusera taipais de madeira ou chapa ou outro material como "blindagem militar" deveria imediatamente limpar as viaturas de tal empecilho para a visibilidade e mobilidade dos Soldados. 



Foi outra medida inovadora e exemplar face ao que se tornara prática geral nas Unidades que partiam para o mato na ZIN, Zona de Intervenção Norte.
Como toda medida contra-corrente, também esta suscitou reservas em alguns mais receosos que tinham implantado tal protecção por imitação do que tinham visto. 
Contudo o Capitão explicou que melhor que aquela "blindagem" abarracada era os Soldados terem boa visibilidade como prevenção e total mobilidade nos ataques do que estarem sujeitos a ficarem encurralados na viatura onde o inimigo lhes podia cair em cima. 
Isto acontecera com o Bat. Caç. 114 em Anapasso e o nosso Capitão, bom observador e estudioso militar, detinha-se nestes detalhes que eram de grande importância para a estratégia e encorajamento moral dos Soldados. 


O Capitão Comandante dava o exemplo no seu jipe

A coragem de um chefe quando aliada do estudo cuidado e bom senso constitui um exemplo determinante para os seu subordinados.
Uma coragem assim tem tudo para ser bem sucedida e, sendo bem sucedida, eleva a coragem dos que são sujeitos às medidas e tanto mais quanto constatam, na prática, a sua justeza.
Um Comando racionalmente corajoso eleva e encoraja, a todos os níveis, o moral e coragem individual dos Soldados e dá uma identidade especial à Unidade a que esses Soldados pertencem.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

SOLDADO MOURARIA



O MOURARIA SENDO ENTREVISTADO PELO REPÓRTER DA RTP NEVES DA COSTA

O Mouraria tinha este nome de baptismo militar devido ao bairro lisboeta de sua naturalidade. Mas também esse baptismo não era indiferente ao seu comportamento e falas característicos desse bairro genuinamente típico de Lisboa. A sua atitude e reacção perante a guerra estavam-lhe moldados na alma pela sua pertença humana ao bairro onde mourejara desde criança a adulto. 
Passar de repente a ser militar apenas lhe introduziu obrigações que cumpria por imposição mas jamais por qualquer compreensão de ordem ou disciplina. O seu comportamento militar, ainda para mais o rígido comportamento militar cavaleiro, era nada para a sua inocência de garoto criado à solta nas ruas cheias de gente viva e atitude fadista. 

 MOURARIA A RECEBER TRATAMENTO MÉDICO DO DR. JOÃO PIMENTA EM PLENA PICADA

Dos cinco feridos ligeiros que tivemos durante a batalha de Zala um deles foi o Mouraria. O inimigo atacou com uma canhangulada sobre o jipão onde ia o Mouraria e feriu-o na boca e nariz e outros nas mãos e pernas contudo sem gravidade. O disparo fora feito de longe para o alcance daquela arma artesanal e os estilhaços de ferro, que no canhangulo substituiam as nossas balas, tiveram um impacto superficial. 


O DR. JOÃO PIMENTA A SER ENTREVISTADO APÓS RECOMPOR O NARIZ DO MOURARIA

Foi precisamente no arranque de Quimazangue para Zala que ao Mouraria lhe veio à mente as suas memórias de garoto pendurado nos eléctricos entre a Mouraria e o Chile. Quando a longa coluna de viaturas estava alinhada na picada para arrancar e o Comandante Abrantes deu ordem de marcha, o Mouraria desata a gritar sem parar, "segue, segue vai pró Chile" enquanto imitava o cobrador do eléctrico no gesto de puxar pelo cordão que fazia tocar campainha de arranque.
Tal grito e gesto aplicado no momento certo e instantaneamente adoptado e replicado em todas as viaturas ecoou um a um até à viatura da frente da coluna, e esta lançou o grito e o gesto para a rectaguarda enquanto arrancava lentamente.
Desde esse momento feliz nunca mais o Esquadrão, em qualquer operação, grande ou pequena, montada ou apeada, deixou de usar a voz de arranque "segue, segue vai pró Chile".
Este grito e gesto, usados sempre em todas as abaladas do aquartelamento ou cada vez que a coluna arrancava ou partia durante as operações, foi imediatamente adoptado pelo Comando e tornou-se uma voz de comando e um símbolo do Esquadrão que, como outros, o distinguiam. 
O som musical do "segue, segue vai pró Chile" aliado do gesto do puxar do cordão e o imitar do tocar da campainha, sugeria uma minúscula peça teatral que nos entusiasmava e dava alma para, na hora de ir ao encontro do inimigo nos esquecermos dele, e no momento do enfrentar ter mais força e ânimo de o combater.
E tudo isto, que não foi pouca coisa, graças ao garoto reguila fadista que habitava no corpo de Soldado do Mouraria. 

CAMINHADA APEADA EM DIRECÇÃO A ZALA
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Lá vai o eléctrico às voltas
Segue chiando no seu carril
Leva um menino às costas
Segue, segue vai p'ro Chile

E o eléctico chia e rola, rola
Com o menino pendurado
Vai pró Chile, e não prá escola
E o menino foi p'ra Soldado

E o Soldado menino foi prá guerra
Com arma, balas, capacete, cantil
E o menino que o Soldado encerra
gritou, "segue, segue vai pró Chile"

Ó Soldado reguila, puto rufia
Do bairro pobre, tua moldura,
Que te legou nome "Mouraria"
E tu a nós um poema em Figura.

José Neves
Lisboa, 1997

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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

ZALA, BATALHA FINAL




A 5Ago1961, com base no aquartelamento de Quimazangue, desde madrugada fizeram-se duas surtidas com efectivo de Pelotão reforçado, em direcção a Zala. Embora com o apoio das viaturas a progressão fazia-se a pé muito lenta e cautelosamente com prévio reconhecimento por tiro das margens da mata, naquele local muito densa.
Destas incursões para testar o inimigo e desbravar caminho, a nossa Tropa sofreu vários ataques dos quais resultaram 5 feridos sem gravidade.


A 6Ago1961, saída do Esquadrão completo de Quimazangue para o assalto definitivo a Zala. Novamente o inimigo, disposto nas matas ao longo das margens da picada, nos obrigou a fazer a progressão apeados ao lados das viaturas fazendo tiro de reconhecimento e prevenção quase ininterruptamente.
As viaturas blindadas do Dragões de Luanda abriam o caminho na frente. O Cap. Abrantes, de Uzi ao ombro e em estilo de passeio encenando uma exibição contra o medo dava o exemplo aos Soldados, seguia pelo meio da picada incitando e encorajando os Soldados e gritava para que entrassem dentro da mata, destroçassem o inimigo e o perseguissem.     
O inimigo teve de recuar para o interior da mata impossibilitado de atacar das margens da picada com os canhangulos. Flagelaram a nossa Tropa do alto dos morros afastados com algumas armas automáticas. Nesta batalha ouviram-se mais que em outras o "cantar" das FBP que o inimigo havia tomado em Março nos Postos Administrativos e que nós já conhecíamos de cor mal soavam.
Desta batalha foram avistados elementos do inimigo em fuga e, posteriormente foram confirmadas baixas no inimigo.



Ao cair da noite o inimigo, impotente para nos travar, havia desistido do combate e a nossa Tropa pode ocupar Zala à vontade onde estabelecemos novo acampamento geral.


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A nossa Tropa avançava a pé ao lado das viaturas
à velocidade de poucos metros por hora,
pela picada estreita na mata cerrada, que não deixava ver de fora
para dentro, nada, além de sombras e manchas escuras
o que intimidava os Soldados, tanto como o intenso tiroteio
e as balas, que vindas de todos os lados, zumbiam rente ao ouvido.
Até que o Capitão, vindo de trás para a frente e pelo meio
da coluna, Uzi às costas, óculos, capacete, aprumado e bem vestido
gritou aos Soldados, alto, forte e feio, como uma besta,
que entrassem na mata adentro, vinte ou trinta metros,
para evitarem que a tropa inimiga, os pretos,
nos atacassem de perto, na orla da floresta.
Ordem imediatamente aceite e cumprida pelos Soldados
e que se mostrou acertada e deu bons resultados,
pois logo se viram, entre duas matas, numa clareira,
vários inimigos de armas na mão, fugindo na carreira.


Do livro "Esquadrão 149-A Guerra e os Dias" de José Neves.

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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

OBJECTIVO, DETERMINAÇÃO







Antes da arrancada para a tomada e ocupação de Zala, o Comandante Capitão Rui Abrantes deu uma entrevista ao repórter da RTP Neves da Costa, que nos acompanhava, na qual é evidente a  coragem militar e racional confiança e determinação imparável de atingir o objectivo final.
Nesse sentido, são inequívocas estas palavras dessa entrevista: 

"...Foi constituída esta coluna, que tenho o prazer de comandar, de gente que vai dirigida directamente a Nambuangongo, que sabemos havemos de aí içar uma bandeira portuguesa, não sabemos precisamente o tempo que vamos demorar, todavia os esforços no sentido de conseguirmos o mais rapidamente possível, galgar estes últimos Kms, já nos faltam menos de metade daqueles que já progredimos, e apesar de todos os obstáculos e quantidade de abatizes que nos são colocadas no caminho, arranjaremos o processo de, se não pudermos progredir por estrada à custa das viaturas, iremos a pé e chegaremos lá concerteza"  

 

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Todo o Esquadrão reunido e completo
deixa o estacionamento de Quimazangue e embala
em direcção do objectivo imediato, Zala,
determinado, atento, receoso e inquieto.
O inimigo atacava a cada passo
à medida que invadíamos a sua casa.
O estampido das FBP já era conhecido de ouvido e de cor,
os canhangulos ecoavam e espalhavam aço,
as Mausers espalhavam chumbo, os canos ficavam em brasa.
A guerra espalhava o terror.

Do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves

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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

QUIMAZANGUE. SOUSA


 

Às 16,00 horas de 2 de Agosto de 1961, com dois Pelotões de combate reforçados por um Pelotão de Sapadores, iniciou-se uma manobra em profundidade para atingir rapidamente Quimazangue no caminho para Zala.
Durante 23 horas, dia e noite sem interrupção, como ficara determinado pelo Comandante após análise da situação e definição da estratégia a seguir, manteve-se a caminhada eriçada de dificuldades com a picada continuamente impedida por enormes valas e árvores de gigantesco porte abatidas e atravessadas (abatizes).
Quando possível contornavam-se os obstáculos, mas as dificuldades eram tantas que a nossa progressão não ia além dos 800 metros por hora. A progressão nocturna surpreendeu o inimigo, pois encontrámos muitos trabalhos de preparação não concluidos para emboscadas.
Informações do Comando estimavam a concentração de 2000 homens do inimigo na defesa de Zala situados na zona da bifurcação para Nambuangongo.
Às 15,00 horas de 3 de Agosto de 1961, a 1 Km de Quimazangue, o 2º Pelotão quando removia mais umas das inúmeras "abatizes" colocadas para impedir a nossa progressão, sofreu uma emboscada da qual resultou a morte do 2º Sargento Sousa com um tiro de canhangulo.
A reacção dos nossos homens foi imediata com um pelotão perseguindo o inimigo, em fuga através da mata, e outro Pelotão arrancou em força para Quimazangue, ocupou o quartel local do inimigo onde encontrou documentos e uma oficina de fabrico de canhangulos.


Estacionámos em Quimazangue na noite de 3 para 4 de Agosto de 1961 e neste dia procedeu-se á evacuação do corpo do Sousa para Ambriz, após lhe serem prestadas as devidas honras militares, permitiu-se o descanso da Tropa muito fatigada.
Para grande alegria da Tropa houve distribuição de correio recebido por lançamento aéreo. Também por inadvertido e lamentável lançamento aéreo caíram do avião um par de botas militares que tombaram sobre um Soldado que dormia ferindo-o gravemente.
Ainda nesse dia, alguém se lembrou de, aproveitando as fitas adesivas amarelas das granadas de artilharia e morteiros, fazer letras e escrever nomes garrafais amarelos sobre capotas e pára-choques das viaturas. O Comando não se opôs e algumas viaturas ficaram cobertas de palavras-mensagens ao estilo de uma naif arte militar sob a forma de cartaz graffitti da época.
Durante a noite o acampamento foi atacado por atiradores inimigos do lado da sanzala de Quimazangue a cerca de 800 metros do nosso acampamento.



Entretanto, a Quimbumbe havia chegado uma Companhia de ocupação do local para substituir os 1º e 3º Pelotões ali aquartelados para defesa da respectiva área. 
Os nossos Pelotões, cumpridas as formalidades de substituição, arrancam imediatamente ao encontro do resto do Esquadrão estacionado em Quimazangue. Juntam-se ao Esquadrão na madrugada do dia 5 de Agosto em Quimazangue e vão colaborar activamente na batalha da tomada de Zala.


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 O CORREIO

A distribuição do correio
era a festa do acampamento.
O grande momento
ansiosamente aguardado, também com algum receio
das notícias boas ou más que vinham no envelope
que mal era recebido pelos Soldados se afastavam,
isolando-se, com as cartas nas mãos que abriam.
E liam ávidamente, de enfiada, d'um golpe,
vendo-se claramente do que as cartas falavam
porque enquanto uns ficavam contentes e sorriam
outros ficavam preocupados, de rosto pesado e sério.
E outros que liam e reliam as doces palavras da namorada
entusiasmados, atiravan-se sobre a manta estendida
no chão, que era a sua cama sempre feita,
ajeitando-se como quem com uma mulher se deita
ou como se estivesse alguma ali deitada
meiga e sorridente, aberta e pronta, toda oferecida
ao furor
desse doce e indicifrável mistério
que permite a dois amantes fazer amor
mesmo, como neste caso, afastados meio hemisfério.


AS BOTAS DESCALÇAS

Quem manda nas nossa vida
Que manda dum avião cair
um par de botas descalças
descer por linhas falsas
sobre um Soldado a dormir?
Porque razão haviam de vir
aquelas botas cegas e tolas
sem nada dentro do cano
(guiá-las-ia algum desumano
deus escondido entre as solas?)
acertar, como balas de pistolas
do calibre dum pé 40,
sobre o sono d'um Soldado
que dormia e foi acordado
pelo peito, sob a acção violenta
do par de botas que o rebenta.


PALAVRAS AMARELAS

As velhas viaturas vestidas
de letras amarelas lidas
vistas como escrita-imagem
nossa para o nosso inimigo,
davam-lhe a clara mensagem
da determinação e coragem
dos sem medo nem abrigo.
As fitas amarelas das caixas
de granadas feitas faixas
sobre capotas e pára-choques, 
para que o inimigo as visse
bem, não eram inúteis ad-hocs
foram palavras força-fetiche,
nova caixa e lenços pretos,
palavras imagem-amuletos,
sinais de moral alta sempre fixe.


Do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves


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