sábado, 20 de outubro de 2012

149, CONFRATERNIZAÇÃO 2012


E o nosso encontro voltou a acontecer e foi, como vem sendo anualmente, um emocionado reencontro de histórias e episódios passados em comum.
Episódios dolorosos vividos e contados pelos próprios intervenientes, contados na primeira pessoa; tu e eu, ou eu e tu, ou eu tu e ele e ele, descritos com todos os pormenores do local, do tempo, da hora e do perigo.
Episódios reais, hoje contadas com alegria pelos sobreviventes, e porque são felizes ocasionais  sobreviventes de outros camaradas de guerra que tombaram a seu lado.
São sobreviventes do sol abrasador, da chuva torrencial, do pó às nuvens, duma casa em movimento perpétuo sobre quatro rodas e vinte e quatro horas dia e noite sob a mira das armas do inimigo. E por fim, sobreviventes de muitas balas de matar e até do impacto de balas no próprio corpo.

Mais que ninguém, são merecedores de trazerem impregnada na alma a dignidade de felizes combatentes limpos.

 

O ponto de encontro foi no "Parque Biológico" de Avintes, Vila Nova de Gaia

 

Em primeiro plano  "O CANHANGULO", um dos primeiros feridos com um tiro de canhangulo e daí a sua alcunha de guerra.

 

Foram nomeados os mortos em combate e lembrados e recomendados ao céu todos os mortos do Esquadrão e que vivem em nosso coração enquanto este bater. 




O convívio foi, como sempre, um longo e sempre curto momento de troca de velhas e novas recordações sobre episódios que cada interveniente conta, ao seu estilo, como foi, o medo que apanhou e o que aconteceu e, sobretudo, o que podia ter acontecido de trágico.   



  
À falta do nosso Comandante Cap. Cav. Rui Abrantes por motivos de saúde, falou aos combatentes o Médico do Esquadrão Dr. Ten. João Alves Pimenta, no tempo de guerra o segundo Oficial mais graduado da Unidade e, além de médico de elevada qualidade técnica, um Homem de grande humanidade sempre pronto a curar as feridas e as almas dos seus Soldados, e por isso muito querido e respeitado por todos.





É sempre com um "brilhozinho nos olhos" e grande entusiasmo que os combatentes vêem o filme da sua vida, "A GRANDE ARRANCADA" realizado pelos repórteres da RTP, Neves da Costa e Serras Fernandes, que nos acompanharam desde o Ambriz até Nambuangongo, e que relata exactamente a fulgurante progressão e os combates do nosso Esquadrão ao longo da reconquista do itinerário de 180 Kms e o hastear da bandeira em Zala e depois em Nambuangongo, juntamente com o Bat. 96 do Coronel Maçanita.



E, claro, não faltou o bolo e o champanhe que todos levantaram alto e brindaram com a tradicional galhardia da Cavalaria.  

sábado, 22 de setembro de 2012

CONFRATERNIZAÇÃO 2012



     EM COMEMORAÇÃO DOS 51 ANOS DO NOSSO EMBARQUE PARA ANGOLA EM 1961.

ESTE ANO ENCONTRAMO-NOS EM VILA NOVA DE GAIA NO LOCAL DE:

CONCENTRAÇÃO ÀS 10,30 NO PARQUE BIOLÓGICO DE AVINTES, VN DE GAIA

RESTAURANTE     : PÃO QUENTE BARBOSA
MORADA               : RUA CENTRAL de OLIVAL, 2736 SEIXO ALVO - OLIVAL - VN GAIA
TELEFONE             : 22 763 70 60
TELEM.                   : 962 811 672






SÃO PASSADOS 51 ANOS EM CIMA DA NOSSA JUVENTUDE DOS VINTES, O QUE PERFAZ UM TEMPO QUE PARECE ONTEM MAS JÁ FOI HÁ MUITOS ANOS.

AOS QUE TOMBARAM EM COMBATE JUNTO DE NÓS, FORAM-SE JUNTANDO  OUTROS NOSSOS CAMARADAS DE ARMAS QUE AO LONGO DESTE TEMPO, O TEMPO LEVOU. 

DIGNOS SÃO DE MEMÓRIA E HOMENAGEM TODOS ELES. AOS SOBREVIVENTES, ENQUANTO VIVOS E CONSCIENTES, COMPETE MANTER VIVA, MEMÓRIA DELES.

VAMOS, PORTANTO, PRESTAR-LHES ESSA HOMENAGEM DEVIDA E MERECIDA, ALÉM DE QUE É UM DEVER DE ALMA IR VER, ABRAÇAR, FALAR E RECORDAR EM CONJUNTO, AS NOSSAS VIVIDAS HISTÓRIAS DE GUERRA. 

AO TEMPO, UMAS DE CHORO OUTRAS DE ALEGRIA, HOJE SÃO TODAS UMA LEVEZA E FELICIDADE PODER RECORDÁ-LAS EM COMUM.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

FAZENDA MATOMBE

1Ago1961 foi dia de descanso das Tropas e preparação de estratégia militar para a tomada de Zala, a pouco mais de meia dúzia de quilómetros.
Na fazenda Matombe houve, pela 1ª vez, desde Ambriz, ração quente, higiéne de roupa e corporal e fez-se uma ida ao Ambriz para reabastecimento de víveres (comida, shop-shop, como lhe chamávamos).






Analizada a situação e o modo de actuar do inimigo usando a táctica de bater e fugir, em virtude das condições do terreno cada vez mais mais acidentado e coberto de mata fechada, e da concentração do inimigo para defesa de Zala, O Comando tomou novas disposições estratégicas para a progressão dali em diante.
O Comandante Cap. Abrantes, conversando com o Snr. Ribeiro, nosso guia e propritário de uma pequena fazenda de café local, soube por este acerca do respeito para-religioso que os nativos tinham pela noite e que entendiam que a noite era para estar ao fogo e com a mulher na cubata.
Esse conhecimento determinou o Comandante, sem reservas, em avançar de noite e dia sem interrupção.   
Esta medida criou alguma apreensão da parte dos militares mas revelou-se acertada e de grande alcance pois permitiu um avanço seguro sem emboscadas no tempo nocturno.



















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E o Comando, depois da reunião conjunta dos Oficiais
para análise da situação e decidir,
face à táctica do inimigo de bater e fugir
favorecido pelo terreno e outras condições naturais,
optou pela progressão veloz e contínua,
sem paragens além das que o inimigo impunha,
avançando rápido e em força, em cunha,
continuamente, dia e noite, aoSol ou à Lua,
surpeendendo o iniigo, não o deixando emboscar,
pressionando-o a ele e não ele a pressionar,
obrigando-o ao contacto, ao confronto
directo, batê-lo e assustá-lo ao ponto,
de levá-lo
a ter mais medo de nós que nós de enfrentá-lo.


Do livro "Esquadrão 149-A guerra e os Dias" de José Neves

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terça-feira, 4 de setembro de 2012

QUIMBUMBE - CASA ABERTA - FAZENDA MATOMBE

A 28Jul61, deixaram o acampamento de Quimbumbe todo o Esquadrão, incluindo a Tropa adida, como o Pelotão dos Dragões de Luanda, com excepção do 1º e 3º Pelotões que ficaram a guarnecer a posição atingida.
Antes, como contámos já, um Pelotão enviado em missão de reconhecimento caíra numa emboscada donde resultaram dois feridos, na nossa Tropa, sem gravidade.
Percorridos 20 Kms atingimos Quimbunda ao anoitecer, após destruição do quartel local do inimigo, acampámos aqui e na madrugada de 29Jul61 arrancamos em direcção a Casa Aberta. Sentiu-se, desde aqui, que a prograssão era mais demorada e perigosa pois, a picada cercada de floresta densa, em pior estado e mais acidentada, estava semeada de gigantescas árvores derrubadas pelo inimigo e atravessadas em todo o percurso com vista a dificultar ao máximo a nossa progressão.
Tanbém o inimigo, cada vez mais acantonado no seu recuo e em defesa de seus quarteis-generais, mostrava-se cada vez mais frequentemente e melhor armado. Com tais dificuldades de progressão impostas pelo inimigo, atingimos Casa Aberta a 4Kms do estacionamento anterior.


De novo, na madrugada de 30Jul61, antes do arranque da totalidade do Esquadrão do bivaque de Quimbunda, um Pelotão ainda noite, antecedeu a saída das Tropas em missão de reconhecimento, exploração e desobstrução do itinerário. De novo o inimigo atacou emboscado e fez-nos um ferido, que após os primeiros socorros foi evacuado para Luanda. O inimigo actuou com uso de armas automáticas e não só com os tradicionais e artesanais canhangulos.
A 01Ago61 atingimos a região da Bela Vista e o Esquadrão acampou na Fazenda Matombe. Esta era uma pequena fazenda de café, propriedade pessoal, local de trabalho individual e residência fixa do Snr. Ribeiro que nos acompanhou e fez de guia. A Fazenda estava toda destruída e os ossos, dos corpos dos seus familiares comidos pelas hienas, estavam espalhados pelo terreiro à volta de sua casa de fazendeiro pobre.

À medida que avançávamos superando perigos cada vez maiores, íamos ganhando experiência de guerra e mais avisadas e conscientes opiniões iam surgindo acerca da condução da guerra, do modo de avançar com menores riscos, como avançar mais cautelosamente ou mais temerariamente.
O Comandante Cap. Rui Abrantes de tudo tomava nota e, conhecedor não só das opiniões dos seus oficiais, mas também da informação e opinião do Estado Maior de Operações e da situação no terreno das outras Unidades envolvidas na Operação Viriato, começara a imaginar e delinear a estratégia a tomar face ao comportamento do inimigo.


Eram percorridos 110 kms desde Ambriz e estávamos a 30 kms de Zala. Era preciso retemperar forças e definir uma estratégia para enfrentar a tomada de Zala, e de seguida caminhar em direcção a Nambuangongo.

Entretanto, no Quimbumbe, continuavam acampados os dois Pelotões
que ali ficararam guardando aquela posição tomada, por ordem do Cap. Comandante.
A situação aqui começara a complicar-se pela inactividade, pela permanência isolada e exposta a um perigoso ataque do inimigo, por falta de apoio logístico em víveres e correio.

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Entretanto em Quimbumbe, remetidos
ao acampamento e à subsistência,
os Soldados dos Pelotões esquecidos
tinham entrado em falência
de mantimentos e rações de combate,
e paciência.
Sentiam-se meio abandonados e não tidos
em devida conta pela outra parte,
que na frente se batia e abria caminhos,
enquanto eles, sem meios, parados e sozinhos,
sentiam de uma forma ridícula
a sua posição de Tropa de quadrícula.

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Ao quarto dia acabaram-se as rações de combate,
a fome estava instalada e, embora ainda não mate,
abalava fortemente o moral da Tropa toda
que ali estava e decidiu então
ir há caça, embora perigoso e proibido pelo Capitão,
na esperança de fazer uma boda
à roda de um churrasco de veado,
cagando no proibido, perigo e medo que pôe de lado,
pensando muito terra-a-terra
que, entre morrer de fome ou da guerra;
«que se foda».


Do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves.

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sábado, 25 de agosto de 2012

QUIMBUMBE

Ao início da noite de 26Jul61, enquanto se montava o acampamento e sistema defensivo do mesmo, foi um Pelotão encarregado de montar uma emboscada no caminho previsível de aproximação do inimigo até junto do acampamento. O inimigo não deu sinal de si e o Pelotão, após horas de espera, regressou para junto do Esquadrão acampado.

Neste acampamento de Quimbumbe, o Esquadrão passou o dia e noite de 27Jul61. Neste intervalo de tempo recebemos como reforço adido ao Esquadrão, um Pelotão de Reconhecimento do Grupo de Dragões de Angola, no qual vinha integrada a equipa da RTP formada pelo jornalista Neves da Costa e o operador de imagem Serras Fernandes, os quais nos acompanharam até ao fim da operação Viriato.
Também foi realizado um reabastecimento no Ambriz, de víveres e rações de combate, efectuado por um Pelotão.


Também no dia 27Jul61, se realizaram várias saídas de grupos de militares apeados que bateram locais à volta do acampamento. Ainda puderam constatar a existência de sanzalas intactas por onde corriam desorientados animais domésticos e cubatas com lareiras acesas e panelas ao lume.
Ali vivia todo o pessoal familiar em apoio de trabalho de campo e logístico aos combatentes inimigos que guardavam aquele aquartelamento da UPA.


Nesta pausa do dia 27Jul61, o Capitão Rui Abrantes aproveitou para trocar impressões com os fazendeiros locais que nos acompanhavam como guias civis, grandes conhecedores do local e também dos hábitos e costumes tradicionais dos nativos e, desse modo, fazer para seu eventual uso, um retrato psicológico do inimigo que enfrentava naquela guerra.

Em 28Jul61, o Esquadrão levantou-se de madrugada lusco-fusco para arrancar em direcção a Quimbunda.
Mas, planeado de véspera, ao levantar-se a Tropa da cama do acampamento, feita de terreiro duro natural, já dois Pelotões tinham partido em missão de exploração e reconhecimento da picada e perigos que teríamos pela frente.
Foram encontradas grande quantidade de gigantescas árvores atravessadas na picada e numa dessa situações o pelotão da frente caiu numa emboscada donde resultou dois feridos sem perigo de vida que, após os primeiros socorros prestados pela equipa médica do Esquadrão, foram evacuados para o Ambriz.

Em Quimbumbe, por ordem expressa do Comandante Rui Abrantes, ficaram a guardar a posição atingida, o 1º e 3º Pelotões, este sem meios de transporte próprios.
Ficaram de parte o 3º Pelotão, primeiro sacrificado em combate e com feridos e ao qual lhe foram retiradas as viaturas, e o 1º Pelotão e, porque era o primeiro do Esquadrão, não fazia sentido ter sido preterido.
Com tal tomada de posição pelo Comandante, uma nova controvérsia havia de surgir entre o Comandante e os dois Alferes Comandantes destes dois Pelotões. Controvérsia que ultrapassava as questões militares propriamente ditas, e que nunca foram totalmente ultrapassadas, até hoje.
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Continuámos a desobstrução do itinerário principal,
(Aquele que leva ao objectivo final)
e recebemos em reforço, um pelotão de Dragões
montados em Panhards, e para nos acompanhar
trouxe uma equipa de dois repórteres da RTP
armados de muita fita e câmaras de filmar
e medos e receios que ninguém vê.
(iriam comer o pó connosco em várias ocasiões)
Desde então, foram horas e horas de registo ao vivo
de tiros, feridos, mortos, medos, coragens
e feitos, feitas imagens
que são testemunho em arquivo
à espera de poeira e serenidade.
Registos que fizeram do Esquadrão a estrela e o tema
do filme da nossa posteridade
gravado em celulóide de cinema.

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Do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de autoria de José Neves

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sábado, 18 de agosto de 2012

AMBRIZ - QUIMBUMBE

A missão que nos fora atribuída pelo Comando do Sector 3 na Fazenda Tentativa, e então só revelada aos Oficiais, integrava a Operação "VIRIATO", cuja finalidade era a desobstrução do eixo que vai de Ambriz a Nambuangongo passando sucessivamente por Cavunga, Quimbumbe, Quimbumba, Casa Aberta, Bela Vista, Fazenda Matombe, Quimazangue, Zala e, finalmente o troço Zala-Nambuangongo, num percurso total de 180 Kms sempre em picada que, desde 15 de Março de 1961, nunca mais pisada por civis ou tropa.
Em Ambriz, tratou-se febrilmente dos preparativos para a "Grande Arrancada", como haveria de ficar conhecida em filme a partir das reportagens da equipa da RTP constituida pelo jornalista Neves da Costa e operador de imagem Serras Fernandes, que nos acompanharam em todo o percurso até Nambuangongo.
Fez-se o reconhecimento aéreo do terreno e uma operação experimental de reconhecimento com um pelotão do 149 e outro da Comp.ª de Artilharia nº 119, aquartelada em Ambriz desde Maio de 1961, conhecedora do terreno, que regressaram sem problemas pelo que elevou o moral e confianças das nossas tropas, as quais andavam receosas face aos comentários nefastos dos civis locais.

Às 6 horas de 25Jul1961, o 3º Pelotão reforçado com uma Secção de Sapadores, uma Secção de morteiro 8.1, uma Secção de lança-chamas e dois civis da região como guias, abriu as portas da guerra e iniciou a operação Viriato. Entrou em terreno do inimigo invisível, imprevisto e emboscado pronto a atacar e matar. O encontro e combate deu-se em Cavunga onde a informação previra um quartel da UPA comandada pelo célebre António Fernandes, antigo enfermeiro em Ambriz. Sofremos cinco feridos, um deles com alguma gravidade mas sem perigo de vida.
A nossa tropa regressou apreensiva e receosa do que lhe reservava tal operação, pois se, logo ao primeiro contacto com o inimigo, regressava com camaradas estendidos a escorrer sangue à vista.
Imprevisível, mas com mente de professor de estratégia e táctica da Academia aliada à sua natural intuição e pensamento de como lidar com tal guerra à lusitano Viriato de bate e foge(*), o Capitão Comandante, imediatamente ordenou que o mesmo Pelotão se refizesse e regressasse de novo ao mesmo local fazer a exploração do sucesso anterior consolidando a victória do combate e demonstrando ao inimigo que tinha pela frente uma tropa sem medo.
Após alguma controvérsia para convencer o Alferes Ribeiro de Carvalho, um dos mais jovens militares do Esquadrão e estudante de direito, sobre tal visão militar, este aceitou a decisão e cumpriu e executou integralmente a ideia militar e psicológica que o Comandante pretendia dar ao inimigo.
Foi ao Alferes Ribeiro de Carvalho que coube a heróica missão de abrir a porta da guerra, avançar directo ao inimigo e bater-se com ele sem ceder, apesar de iniciado e ter homens seus feridos a escorrer sangue à sua frente.
Além do recado deixado ao inimigo que estava perante uma tropa que procurava o confronto sem medo, o recado mais eficiente e moralizador foi para a própria tropa do Esquadrão que, sentiu a experiência viva de que pelo facto de ter havido um combate e feridos em dada situação e local não significa que haja sempre outro ataque igual estando as tropas na mesma posição. Os Soldados sobretudo, mas também os Alferes, Sargentos e Furriéis, sentiram que a guerra é, também e sobretudo, um estado de espírito e vontade geral de confrontar-se consigo próprio face ao inimigo que, sendo igualmente humano, está sujeito a estados de espírito diferentes e possíveis de mais apreensão e receio que os nossos.
A introdução dessa vantagem do estado de espírito, vontade e prontidão das tropas para enfrentar o combate é tarefa do Comandante. Isso ficou claramente provado com o episódio de Cavunga.

Face ao êxito do 3º Pelotão na sua segunda ida a Cavunga onde, depois de bater a zona do aquartelamento da UPA ali existente, recolheu algum material e documentação deixada no local pelo abandono apressado da posição até então estável.
Pela 05 horas da manhã de 26Jul61, o total do Esquadrão saiu do Ambriz em direcção ao Cavunga onde se reuniu com o 3º Pelotão às 08 horas.
Todo o Esquadrão reunido progrediu até Quimbumbe, após alguns ataques e fogos de capim ateados pelo inimigo. Aqui estabelecemos o acampamento e respectivos dispositivos defensivos da Tropa acampada.
Um episódio também revelador da inexperiência sobre aquela guerra foi, tal como as camas de ferro eram inadaptadas àquela guerra, e pelo contrário eram um obstáculo, e ainda bem que não as tivemos de carregar nem as vimos mais, também aqui, enquanto esperámos horas prontos sobre as viaturas pela partida definitiva do Ambriz, recebemos ordens, ora de carregar malas ora de descarregar malas, com as roupas e pertences pessoais.
Finalmente a ordem foi de deixar malas e levar a roupa imprescindível na mochila. Andámos dois meses sem o empecilho de malas, já nos bastava os constantes ataques e consequentes saltos imediatos e de roldão pelo jipão abaixo, o que com o jipão atafulhado de malas e bagagens, nos atrapalharia e tornaria alvos mais fáceis.
Só voltámos a ver as malas meses depois e após alguns banhos e lavagem de roupa, em pelo, nalguma paragem junto de rio ou ribeiro.

(*) - Uma das críticas que o Cap. Rui Abrantes fazia sobre a operação "Viriato", aquando das nossas conversas posteriores em momentos de confraternização do Esquadrão, era precisamente o facto do Comandante do Bat. 114 não ter sabido explorar a batalha travada em Anapasso, onde tivera vários mortos num ataque em massa do inimigo.
Se em vez de parar e se ficar acantonado a pedir reforços, tivesse reunido forças e avançado rapidamente sobre o inimigo não permitindo a sua reorganização, este, desbaratado, destroçado e desorientado face à derrota e perante dezenas de mortos nesse confronto, e dada a superioridade do armamento sobre o do inimigo, constatado nesse combate, o Bat. 114 teria chegado a Nambuangongo, sem parar, numa semana.

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1961, 26 de Julho, 5 horas da madrugada,
o Esquadrão estava disposto na picada
que ia para Cavunga, Quimbumbe, Zala.
Aguardava impaciente ordem definitiva de abalada
do Comandante Capitão.
Pois já se passara horas no carrega-mala, deixa-mala,
arranca-não-arranca, abala-não-abala
deixando a Tropa nervosa, que comenta e resmunga
àcerca do que se passara com o 3º Pelotão
enviado de novo para ocupar Cavunga,
depois de deixar os feridos ao cuidaddo dos Doutores.
Eram rumores, não houvera divergências no Comando,
fôra apenas acertos nos preparativos e na logística
segundo os Alferes que chegam e vão dando
ordem de preparar motores.
Por fim aparece o Capitão, sorridente e pronto,
confiante em pose histórico-militar-artística,
e como se estivera já em pedestal
levanta o braço e aponta ao encontro
do objectivo final.
Às 5 horas da madrugada, em ponto.

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Do livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves