segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

DESONESTIDADES HISTÓRICAS II

BATALHAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL, MAL CONTADAS.
O LIVRO


O livro abaixo assinalado pela respectiva capa, com o título "GUERRA DE ÁFRICA - ANGOLA, 1961 - 1974", editado em 2006 pela QuidNovi, com texto principal de Rui de Azevedo Teixeira, incorporado na colecção "Batalhas da História de Portugal", nº 22, coordenada pela Prof.ª Doutora Manuela Mendonça, Presidente da Academia Portuguesa de História, foi distribuido e vendido nas bancas com o jornal "Correio da Manhã" no mesmo ano de 2006.
Este livro, à data da sua venda ao público com o jornal citado, mereceu do Ex-Furriel Miliciano do Esq. Cav. 149, Adolfo Pinto Contreiras, o comentário transcrito nos dois post seguintes, enviado por carta de 22.03.2006, ao cuidado da Prof.ª Doutora Manuela Mendonça.




NOTA : ler os dois post seguintes para uma leitura da totalidade da crítica ao livro em questão.

DESONESTIDADES HISTÓRICAS II (Cont.)


BATALHAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL, MAL CONTADAS (Cont.)
A CARTA

De : Adolfo Pinto Contreiras

Gorjões, Santa Bárbara de Nexe
8005-448 FARO
BI nº 1164250
Combatente furriel miliciano do Esq.Cav. 149
Ref. : APC/2006.03.22


Para : Academia Portuguesa de História
A/C : Prof.ª Doutora Manuela Mendonça



Exma. Prof.ª Doutora
Presidente da Academia Portuguesa de História,


Terminada a leitura do livro de sua coordenação vendido com o “Correio da Manhâ” intitulado “Guerra de África, Angola 1961-1974”, e após chegar ao fim do capítulo “Anexo, A Operação Viriato” deparei com um enigma gigante o qual é o seguinte:
Como conseguiu a Doutora fazer desaparecer um Batalhão (~600 homens) mais um Esquadrão reforçado ~300 homens) da operação Viriato?
É que na página 93 está dito escrito preto no branco que «a operação Viriato esteve a cargo do Esq. Cav. 149, do Bat. de Caç. 114 e do lendário Bat. Caç. 96» e depois remete para o capítulo ”Anexo” a descrição minuciosa. Não sei por que artes mágicas o Bat.114 e o Esq.149 desapareceram da operação sem deixar rasto, terão fujido? Terão caído prisioneiros? Terão sido engolidos pela águas do Lifune (114 em Anapasso) ou pelas águas do Uembia (149 próximo de Nambuangongo)? Terá a operação que tinha três pés perdido dois e ficou perneta ou terá o historiador ficado cegueta com os raios da FBP de Maçanita e o raios do inferno de Maneca Paca? Enfáticas conjecturas minhas que estive lá ao vivo ou enigmáticas prestidigitaduras de historiador?


O enigma continua em Quipedro «a primeira operação de combate com lançamento em pára-quedas». Compreende-se, se o Esq.149 desaparecera a caminho de Nambuangongo como o podia ter visto alguém em Quipedro? O Artur Agostinho ainda viu «umas tropas» acampadas quando, branco de medo, se dirigia do DO-27 de asa ferida para o acampamento dos páras, mas o historiador nada viu desta vez cegueta pelo brilho do raio da boina verde, a primeira.


Para dramatizar o enigma o historiador faz reaparecer o Bat.114 com a missão de progredir sobre o eixo Caxito-Nambuangongo e várias unidades; Bat.Caç.137, Comp. Art. 119, Comp. Caç. 66 e 67 mantidas em quadrícula.
Sobre
o eixo Ambriz-Zala-Nambuangongo progrediu o olho cego do coordenador e de todas as “Referências Bibliográficas”.

Feito desaparecer por prestidigitação de historiador o Esq.149 da operação Viriato também teria de ficar na sombra dos «soldados portugueses de eleição» o Cap. Rui Abrantes, o homem que à frente do 149:

1. Iniciou Viriato arrancando de Ambriz a 26Julho1961.
2. Fez o percurso Ambriz-Zala-Nambuangongo, 180 Kms, o mais longo e não o menos perigoso.
3. Nunca esteve acampado mais que uma noite até ao dia 1Ag1961.
4. A partir de 1Ag1961 com 110 kms percorridos e a 30 de Zala decidiu avançar noite e dia sem estacionamento, o que foi um sucesso de rapidez e baixas.
5. A 7Ag1961 hasteou com formatura e clarins a bandeira portuguesa no Posto Administrativo de Zala.

6. Na noite de 7Ag1961 queria arrancar para Nambuangongo, a 44Kms, e não o fez
por oposição dos subalternos dada a falta de munições.
7. Arrancou de Zala às 13,00H de 8Ag1961 e chegou a Nambuangongo às 9,00H do
dia 10Ag1961, após 20 Horas sem paragens e 44 quilómetros percorridos.
8. Foi o único comandante de Viriato a perceber após os primeiros dias a fraqueza do inimigo em poder de fogo e preparação militar, por isso argumentou com os subalternos em Zala que chegava a Nambuangongo com três (3) pelotões incluindo o pelotão blindado do Dragões adido ao Esq.
9. Tendo à sua disposição menos de metade do efectivo das outras unidades de Viriato nunca pediu reforços de pessoal ou material.
10. No dia seguinte à chegada a Nambuangongo arrancou para Quipedro por dois itinerários diferentes e no dia 13Ag1961, quando os Páras foram lançados, já estava no Lué a 6 Kms da povoação.
11. Depois de uma estadia de 20 dias em Quipedro rodeado de inimigo por todos os lados(os Páras estiveram activos 3 e 3 dias à espera de vôo para Luanda), 2 mortos e 3 feridos graves evacuados, foi enviado para desobstruir e cortar a linha de fuga do inimigo da Pedra Verde pelo eixo Quijoão-Dange(transposição)-Pedra Verde, operação "Esmeralda" .
12. Conseguiu fazer passar o Esq. sobre o rio Dange construindo, com paus cortados à mata, lianas, arame farpado e bidons velhos, uma jangada que transportou viaturas com 14 toneladas sem o mínimo acidente e nada se perder. Um episódio odissaico e um milagre da determinação e improviso do soldado portugues.
13. Transposto o Dange sobre jangada feita à mão a 18Set1961 estava na Pedra Verde protegendo o acampamento das tropas que lutavam no morro.
14. A 24Set1961 já estava desobstruindo o itinerário Balacende-Roça Maria-Fernanda-Quimanoxe e libertando as roças Lagos & Irmão e Maria Fernanda.
15. Nunca consentiu a “blindagem” das suas viaturas com tábuas e latas, dando uma mensagem de força e não de medo ao inimigo, deixando os movimentos livres aos soldados, jamais dando ao nosso acampamento o ar de um bairro de lata.
16. Soube incutir nas tropas um moral, um estilo, um estar, uma união e ousadia tão elevada que durou todo o tempo de comissão mesmo sob outro comandante.
17. E tudo isto apesar dos 4 mortos e 40 feridos entre os quais 6 irrecuperáveis como consta do louvor dado pelo General Comandante da Região após 2 meses e as operações acima referidas.

Este é o lado de Viriato que o historiador não conta assim como não conta a acção do Bat.Caç. 114 que tinha a seu cargo o percurso mais curto mas o mais defendido pelo inimigo, distorcendo completamente a História como conjugação de factos e acções concorrentes de que resulta o facto histórico.
Neste caso quiz-se, à maneira épica (homérica), pôr um herói armado de FBP a comandar a História de Viriato e mais uns quantos heróis conhecidos espalhados pelos 13 anos de guerra a comandar a História da guerra em Angola.
Repare-se
que Aquiles é primeiro um não-combatente por amuo e depois um combatente feroz por vingança sem nobreza, restando aos outros o verdadeiro trabalho heróico e a Ulisses a manhosice.

Compreende-se como livro divulgativo comercial distribuido pelo “Correio da Manhã” mas o historiador não deveria transigir com o rigor histórico.

DSESONESTIDADES HISTÓRICAS II (CONT.)

BATALHAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL, MAL CONTADAS. (Cont.)
A CARTA (Cont.) E ADENDA

No arquivo da Região Militar de Angola certamente também estão os textos relativos às outras Unidades com a missão de tomar e ocupar Nambuangongo. Sem o seu enormre contributo de esforço a missão teria falhado e o Vosso livro contaria outra história, de outra operação, de outros heróis. Talvez:
- o brilho solar da boina dos Páras que o Maçanita impediu com ameaças tesas caso fossem lançados sobre Nambuangongo para colher os louros por sobre dezenas de mortos e feridos entre bravos que combatiam extenuados nas picadas.
- o brilho da brilhante visão militar e coragem do Cap. Rui Abrantes que em recurso e necessidade avançaria com o pelotão blindado dos Dragões e apoios, e atingiria o objectivo Nambuangongo rápidamente como posteriormente se constatou ser fácil.
- outra imaginária história qualquer pois que a tomada de Nambuangongo era o objectivo militar que correspondia ao objectivo político do regime e como tal haveria sempre uma solução de força.

Os factos acima relatados sei-os não de leitura mas de observá-los, vivê-los e senti-los. São uma realidade inapagável e de certeza encontram-se registados nos arquivos militares tal qual os mortos, feridos, evacuados, louvoures e condecorações do pessoal do Esq. Cav. 149. Mas se dúvidas existem pode-se:
- consultar o livro “História do E. Cav. 149 - Mais Faz Quem Quer do Que Quem Pode"” da autoria do Ten. Mil. Médico do Esq. João Alves Pimenta escrito durante as operações e editado ainda em Luanda em 1963.
- pedir junto da RTP o filme “A grande Arrancada” da autoria da equipa que nos acompanhou formada pelos jornalistas Neves da Costa e pelo operador Serras Fernandes.
- ler o livro “Esquadrão 149 – A guerra e os Dias” de José Neves que lhe envio e relata veridicamente os episódios e as operações relatadas por quem as viveu dia a dia.

Os meus cumprimentos
Adolfo Contreiras
Furriel Miliciano do Esq. Cav. nº 149


ADENDA DE HOJE
1. Rectificação
No "Anexo" para o qual o autor remete o relato minucioso da "Operação Viriato", constata-se que a operação, preparada e coordenada pelo Sector 3, sediado na fazenda Tentativa, Caxito, visava a progressão segundo dois eixos, um Caxito-Nambuangongo e outro Ponte do Dange-Muxaluando-Nambuangongo, respectivamente a cargo dos Bat. Cac. nº 114 e 96.
Só depois desta única referência é que o Bat.114 desaparece do relato "minucioso" da operação "Viriato" enquanto ao Esq. Cav.149 é-lhe dado "minuciosamente" um total desaparecimento dos factos em que fortemente andou empenhado com cerca de trezentos homens.

Nota: é insignificante a presente rectificação que não muda nem altera em nada o fundamento da crítica contida na carta sobre o essencial da leveza da interpretação histórica dos autores e responsáveis do livro.

2. Recomendação
Somos informados no livro em questão, que a tal descrição "minuciosa" dos factos é retirada da leitura, entre as pág. 20 e 33 do texto "Batalhão de Caçadores nº 96: história da unidade", publicado em 1963 pela Região Militar de Angola.
Recomenda-se vivamente que, em futuros trabalhos que se reclamam de fazer a História das Batalhas de Portugal, se consultem os documentos e relatos oficiais e, como ainda é possível neste caso, os testemunhos factuais ainda vivos, de todas as forças militares intervenientes, caso contrário não se faz História como Tucídides nos legou mas sim, o relato apologético de um herói preferido entre outros, com a finalidade de construir uma "Mitologia das Batalhas" e não da História das Batalhas da História de Portugal.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATAL, NATAIS.

NATAL DE 1962

Nesse Natal longínquo de há 41 anos , o Esq. 149, a caminho do fim de Comissão em Angola, estava aquartelado em Bolongongo com pelotões nas povoações do Quiculungo e Terreiro e um pelotão destacado na Roça Rodrigues & Irmão, a cerca de 80 Kms e próximo da nascente do Rio Dange.

Nesta Roça para onde era destacada Tropa de protecção às pequenas Fazendas à volta, o perigo maior era a qualidade da àgua e os mosquitos: ao fim dos quinze dias de permanência da Tropa metade já estava tomado de paludismo, não obstante haver uma bomba-máquina para tratamento da água com "halozon".

Nesta zona acidentada de farta mata, muito afastada de povoações e sobretudo muito custosa para desmatar e fazer fazenda de café, pouco apetecida pelos grandes fazendeiros, foi o local possível a deportados do continente para demarcarem terreno e encetarem, de iniciativa e esforço próprios, a sua fazenda isolada do mundo além dos contratados vindos do Sul Bailundo. Escolhendo as suas mulheres de entre esses contratados, a prole para o trabalho doméstico e na mata de café crescia na medida dos pés de caféeiros.

José Neves no seu livro "Esq. 149 - A Guerra e os Dias" assinala esse facto assim, no poema " A Comer Terra e a Plantar":

...........................................................
Assim nasceu, segundo reza a lenda,
a primitiva pequena fazenda
pelos condenados desordeiros
ao exílio p'rás terras do ultramar,
qual imitação de avós marinheiros
redimidos a comer mar e a remar,
eles se redimiram como fazendeiros
a comer terra e a plantar.

e no poema "Os Contratados":

Os contratados vinham do fundo
do mapa, país do povo Bailundo
das terras do fim do mundo sem fim,
sem nada saíam das secas e desertos
para durante dois anos completos
tratar do café, das matas e capim
a troco de quase nada de pilim
em angolar. Em cada roça havia
um rentável negócio montado
onde o bailundo era obrrigado
a comprar tudo o que a roça vendia
sem alternativa, que d'alí não saía
durante os dois anos de cativeiro.
.......................................................
.......................................................


Seguem-se fotos desse Natal de 1962 passado, na Roça "Rodrigues & Irmão", pelo pessoal do 1º Pelotão, na altura destacado nesse local. Parte do almoço foi frango assado, obtido na Roça, e comido na marmita regado com a inseparável "cuca".


NA PICADA O JIPE QUE VEIO DE PROPÓSITO FAZER O REABASTEIMENTO DE RANCHO MELHORADO PARA ESSE DIA ESPECIAL DE NATAL.


Nesta altura de fim de ano, os contratados terminaram o seu contrato de dois anos e estavam de regresso às suas terras natal do Sul. Dias depois, em vésperas de abalada, fizeram uma festa ao seu uso e tradições , bem regado com vinho do "Puto" vendido na Roça e que era a sua perdição.
Dançaram e cantaram canções tradicionais bailundas imperceptíveis para branco, mas certamente adequadas à festa do regresso a casa. Provavelmente com a mesma alegria com que nós, Tropas, festejámos o nosso regresso a casa depois dos anos de Angola.

Uma dessa canções que eles cantaram enquanto andavam em fila indiana à roda do aldeamento da Roça, foi esta gravada na altura com um gravador monofónico comprado em Luanda, e que se pode ouvir aqui.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

DESONESTIDADES HISTÓRICAS

Jornal "lanceiro" Nº 27 - janeiro de 2007

MORTOS E FERIDOS NA OPERAÇÃO VIRIATO. REPOSIÇÃO DOS FACTOS.

No livro "Guerra Colonial" de Aniceto Afonso e Matos Gomes, no relato da tomada de Nambuangongo diz-se, escrito em caixa, a propósito dos feridos e baixas havidas por cada Unidade envolvida na referida operação "Viriato", que o Esqudrão 149 teve 7 feridos.
Se os autores quizessem ser historiadores sérios para escrever certa a história da tomada de Nambuangongo, tinham bastos elementos de registo a consultar para saber a verdade sobre o número exacto de baixas do Esquadrão 149.
Desde logo a morte do 2º Sargento Manuel de Sousa em Quimazangue, o qual está registado em filme "A Grande Arrancada" filmado pela equipa da RTP que nos acompanhou nesse percurso, Neves da Costa e Serras Fernandes, e é incluido na generalidade dos documentários que passam na TV sobre a Guerra Colonial. Outro documento escrito, imprescindível, para fazer a História do Esquadrão 149 é o livro do Ten. Mili. Médico Dr. João Alves Pimenta "História do E. Cav. 149 - Mais Faz Quem Quer Do Que Quem Pode", escrito durante os acontecimentos e editado ainda em Luanda em 1963, antes do embarque do Esquadrão.
Se os autores do referido livro "Guerra Colonial" tivessem o cuidado e dever histórico de consultar os documentos existentes indiscutíveis sobre o assunto ou actores testemunhos ainda vivos, não caíam no erro grosseiro de registar números que deturpam a memória futura sobre o Esq. 149 e também sobre a História da Guerra Colonial que travámos.
Teriam constatado facilmente que o Esquadrão até Nambuangongo teve 1 morto e 8 feridos entre eles três evacuados.

E muito importante, tinham oportunidade de conhecer uma boa lição de táctica militar aplicada sobre como enfrentar melhor a guerra de guerrilha, no seu estado de acção na altura, e que só o Comando do Esq. 149 intuiu, face ao estudo e análise da actuação do inimigo, e que logo empreendeu evitando com tal táctica mais feridos e baixas. Diz-se no livro do Dr. Alves Pimenta acima citado:
"Ao contrário do que aconteceu com as outras Unidades que progrediram em direcção a Nambuangongo (Bat. 96 e Bat. 114), que sofreram ataques em massa, o E.Cav. 149 não permitiu esses encontros. Foi das três, a Unidade mais rápida a progredir e, além disso, actuou no sistema de não criar hábitos que pudessem servir de referência ao inimigo. Nunca estacionou mais de três dias na mesma posição e iniciou a táctica da progressão nocturna". E prossegue: " o efeito de surpresa alcançado pelas acções realizadas contra o quartel de Cavunga (do inimigo), devem ter provocado não só desmoralização como não permitiram a sua organização eficaz".
De referir ainda que a progressão nocturna encetada não parava durante o dia: o Esq. passou a progredir continuamente noite e dia sem interrupção até Zala. E o mesmo fez de Zala para Nambuangongo e mais tarde em todas as operações em que participou.

A certificar a justeza destas palavras ditadas ao Dr. Pimenta pela experiência vivida, estão os acontecimentos passados menos de um mês apenas depois da tomada de Nambuangongo. Após um dia de descanso o Esq. 149 foi incumbido de desobstruir e ocupar a povoação de Quipedro, distante 75 Kms, onde permaneceu 24 dias estacionado. Nesse período de permanência acampada, imóvel, alvo estático, tivemos ataques e emboscadas consecutivas que originaram 2 mortos, dois feridos graves evacuados ( um cego e outro um joelho desfeito), e váris feridos ligeiros.
A prova dos nove da realidade descrita pelo Dr. Pimenta. O inimigo, neste caso teve todo o tempo para conhecer os nossos hábitos e rotinas de deslocações e movimentos de modo a preparar ataques com eficácia, dramática para a Nossa Tropa. Sobretudo a nossa necessária obrigatoriedade, sem alternativa, de ter de atravessar o Rio Lué a vau numa cova cercada de mata cerrada, altamente propícia aos ataques do inimigo que aproveitou bem, para nosso mal, tal situação favorável.

Recomenda-se aos autores do livro citado que sejam históricamente criteriosos e investiguem os dados e fontes irrefutéveis, ou testemunhos ainda ainda vivos dos episódios, para poderem relatar os factos tal como se deram e não como outros alheios aos acontecimentos os contam ou ficcionam. É que, constata-se a existência de erros semelhantes, a respeito do Esq. 149 na operação Viriato, em outros livros da responsabilidade dos mesmos autores. Iremos falar deles em seguida.

sábado, 5 de dezembro de 2009

149, OS DOCUMENTOS DE HEROICIDADE II

QUADRO DE HONHA
LOUVOURES
Adicionar imagem
OS/2 - QG/RMA, de 05Jan62.
O General Comandante da Região Militar de Angola, LOUVA o ESQUADRÃO DE CAVALARIA Nº 149. porque "tendo recebido, na operação «Viriato», uma missão identica à que foi atribuida a unidades de escalão superior (abertura de itinerários convergentes em Nambuangongo) conseguiu com os seus limitados meios e os reforços que lhe puderam ser fornecidos , alcançar um sucesso digno de maior admiração, porquanto atingiu Nambuangongo, pelo itinerário mais longo, apenas com o atrazo de 16 horas sobre a força que aí chegou primeiro, apesar de ter iniciado as operações dias depois."
E porque" Não menos brilhante foram as actuações desta unidade quando, após um dia de descanso em Nambuangongo, se lançou sobre Quipedro." E pela " colaboração que prestou, 15 dias mais tarde, na operação desencadeada na Pedre Verde, actuando sobre a linha narural de retirada do inimigo."
E porque "O número de baixas sofridas pelo E. CAV. 149 - 4 mortos e 40 feridos, dos quais 6 irrecuperáveis - é suficientemente expressivo e constitui o pesado tributo da glória que alcançou."




OS/2 - QG/RMA, de 05Jan62.
O General Comandante da Região Militar de Angola, LOUVA o Capitão de Cavalaria, RUI COELHO ABRANTES, Comandante do Esquadrão de Cavalaria nº 149, porque "...soube imprimir à sua Unidade - mercê do seu elevado moral, sangue frio, audácia, competência profissional, emergia e iniciativa que possui - uma mobilidade de tal forma exemplar que lhe permitiu com os reduzidos meios de que dispunha, surpreender o inimigo em todas as circunstâncias e manter o ritmo de progressão de que é fiel testemunho a fulgurante marcha que realizou sobre Nambuangongo em 16 dias".

























OS/14 - QG/RMA, de 16Fev62.

O Comandante Chefe das Forças Armadas de Angola, considera por sí conferido o Louvor da OS/2 - QG/RMA de 05Jan62, com a redacção seguinte:
LOUVADO o Capitão de Cavalaria, RUI COELHO ABRANTES, Comandante do ESQUADRÃO DE CAVALARIA Nº 149. ....


























OS/4 - ECav. 149, de 07Ago61.
LOUVO o Senhor Ten. Mil. Médico, JOÃO ALVES PIMENTA, porque... "aproveitou todos os momentos disponíveis para o tratamento dos doentes", e porque..."Registo também o seu temperamento calmo, destemido e decidido por forma a conseguir imediatamente socorrer os homens feridos", e porque... "deixo registado a qualidade fundamental do médico militar saber aliar a sua elevada competência profissional à noção exacta da missão a cumprir pela Unidade a que pertence".
























OS/8 - ecAV,149, DE 08sET61

LOUVO o Senhor Ten. Mil. Médico, JOÃO ALVES PIMENTA, "porque... trabalhou incansavelmente durante várias horas, sem se alimentar, afim de evitar o perigo de vida em que se encontrava uma das praças, operando-a e ministrando soro..."
























OS/10 - EcAV. 149, de 17Set61

LOUVO o Senhor Ten. Mil. Médico, JOÃO ALVES PIMENTA, porque "durante a operação de transposição do Rio Dange, demonstrou mais uma vez o seu elevado espírito de corpo, cooperando em todos os trabalhos realizados, aliando as sua qualidades militares ao prestígio angariado como médico durante o tempo que serve neste Esquadrão, por forma a conseguir um rendimento de trabalho difícil de igualar".
E porque "É um oficial exemplar, dotad de espírito de sacrifício inexcedível, com cultura digna de nota, e cujo prestígio ao fim de tão pouco tempo de serviço nesta Unidade é já de molde a merecer o reparo de quantos o rodeiam. Sente-se este comando orgulhoso por entre os seus oficiais, estar incluido um, cujas qualidades excedem em muito as habituais, não só
do ponto de vista técnico, como de virtudes militares."
























OS/60 - Com. Sect.3, de 19Mai62
OS/12 - ECav. 149, de 29Mai62
O Comandante do Sector Operacional nº 3, LOUVA: O Senhor Ten. Milº Médico, JOÃO ALVES PIMENTA, porque " nomeadamente na operação "VIRIATO" para a abertura do eixo Ambriz-Nambuangongo-Quipedro e operação "ESMERALDA" para a limpeza da região da PEDRA VERDE, demonstrou uma alta e heróica compreensão da grandeza do dever militar e da disciplina pelos acttos de rara abnegação , valentia e coragem que com grande sangue frio e serenidade praticou nas diversas situações de combate que teve de enfrentar." "Da sua decidida e enérgica atitude e notória acção do ponro de vista clínico, especificamente nas accções que ocorreram nas regiões de QUIMAZANGUE e QUIXICO, em que pôs bem em destaque aquelas virtudes, resultou uma confiança e prestígio tal entre os seus camaradas e subordinados, que muito contribuiram para o elevado moral do pessoal e bom êxito das operações da sua Unidade".
























OS/11 - QG/RMA, de 06Fev63

LOUVADO o ten. Mil. Médico, JOÃO ALVES PIMENTA porque "há mais de um ano no CONGO, se evidenciou um Oficial destemido", porque " Em QUIXICO foi notória a acção do Dr. Alves Pimenta" que " tratou ininterruptamente durante cerca de seis horas o soldado ferido mais gravemente, afim de lhe se possível salvar a vida..."
"Os serviços deste Oficial devem ser considerados relevantes e distintos."

























Justamente, estes dois Homens, o Capitão RUI ABRANTES e o DR. JOÃO ALVES PIMENTA, são considerados por todos que constituiram o corpo de pessoal do Esquadrão 149, os dois heróis maiores da nossa Unidade. E tal consideração foi estabelecida logo durante e passado que foi o comportamento do Esquadrão na operação Viriato(Nambuangongo), depois em Quipedro e Pedra Verde.
Neste caso último com o feito temerário e único da transposição do Rio Dange sobre uma jangada improvisada no local com paus arrancados da mata, tábuas e bibons velhos abandonados, e o Esquadrão completo, homens, equipamentos e GMC com 14 Ton., transpuseram o Rio sob a presença do inimigo, sem a mínima perda.
Tudo isso só foi possível devido à confiança determinada que os homens do Esquadrão depositavam no seu Comando, especialmente nestes dois heróis maiores que, cada um no seu mister, se conciliavam e completavam perfeitamente para alcançar o objectivo com êxito total .

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DR. JOÃO ALVES PIMENTA V

DEPOIS DAS BALAS, DEPOIS DE... (x)

Depois das balas e carne rasgada
quem de pronto nos acudia?
Depois das feridas e estilhaços
quem de mão firme e armada
de garrotes, lancetas e cirurgia
sarava buracos, cosia pedaços?
Depois de meses de mato e mato
e perda mental quem nos protegia?
Depois da moral em baixo e fadiga
física das batidas, que mãos e trato
humano nos animava e nos valia,
nos devolvia a alma na mão amiga?
Depois d'afugentar mortes a lanceta
quem salvou vidas quase alminhas?
Depois de resgatar soldados à morte
quem foi noite fora dar à Mãe preta
menino preto, pretinhos e pretinhas
salvas por suas mãos saber e porte?
Depois de tanta guerra e tanto bem
distribuir, quem foi herói imparcial?
Depois de tanta vida e tanta luta
nobre a dar a mão e levantar recém
almas caídas, quem foi umbilical
cordão entre vida e morte em disputa?
Depois de tanta guerra e vida veloz
a zelar vidas, resta apenas o coval?
Depois do derradeiro combate
pode o céu levá-Lo, que para nós
será memória viva, que a Um Tal
Homem nenhuma morte há que o mate.


José Neves
Gorjões, 10.10.2007

(x) - Poema lido na confraternização anual do Esq. Cav.ª Nº 149
em homenagem ao Dr. João Alves Pimenta.
Évora em, 13.10.2007