sexta-feira, 20 de novembro de 2009

DR. JOÃO ALVES PIMENTA

UM MODO DE ESTAR NA VIDA

Todos nós do Esquadrão de Cav.ª nº 149 que tivemos o privilégio de conviver de perto e intimamente na dura prova dos nove que é a perigosa situação de guerra com o, na altura, Ten. Mil. Médico Dr. Pimenta, jamais pode olvidar o Homem superior que sob a farda militar foi o nosso médico, psicólogo, pai, mãe e irmão mais velho a toda a hora. Aquele que, quer sob as balas do combate na picada quer na paz e sossego aparente do acampamento, nunca faltou no momento de socorrer em cima do acontecimento os feridos ligeiros e graves em combate. Sem medos ou exigências de protecções especiais: o sentido do dever de socorrer e tentar salvar foi sempre o impuso primeiro, institivo, demonstração de elevada entrega e nobreza de carácter.

Sem nunca despir a farda foi sempre Homem e Médico antes de ser militar e acima de tudo. Assistiu sempre com igualdade e a mesma dignidade os militares do Esquadrão como assistiu, tratou e medicou os nativos locais. Sem medo de emboscadas ou armadilhas deslocou-se às povoações e sanzalas para socorrer acidentados, doentes graves ou mães pretas grávidas em parto para tratar e salvar vidas. Substituiu o falecido Delegado Médico no Caxito e todos os dias deu consulta aberta a todos os nativos sem excepção, recebendo e tratando diariamente dezenas de feridos e doentes.
Se o capitão Abrantes foi o grande herói militar o Dr. Pimenta foi o grande herói da paz e unidade familiar no interior do Esquadrão. Foram ambos, os dois Grandes Homens que, embora de formação profissional e humana bem dissemelhantes, formaram uma dupla de entendimento e Comando que elevou a níveis inimitáveis a capacidade e qualidade do Esquadrão 149.

Quem acompanhou minimamente a sua posterior carreira civil sabe que, tal como já provara na guerra perante os Homens do Esquadrão 149, enfrentou a sua vida profissional com a mesma actitude de carácter ímpar e impoluto, sempre mais dedicado ao outros do que a sí próprio. Não foi por acaso que, imediatamente ao 25 de Abril, foi designado por escolha das forças vivas locais para ser o 1º Governador Civil de Évora em Democracia.
Desde sempre, os princípios deontológicos coincidiam, ou ficavam àquem, dos seus princípios éticos ontológicos, pelo que, fiel a sí próprio, haveria sempre de alguma vez chocar-se com alguns de formação rasteira ou politiqueira. A vida acabou sempre por dar-lhe mais razão a ele que aos outros, pelo que hoje vive rodeado de amigos e até as poucas inimizades contraídas já se renderam à grandeza humana do Dr. Pimenta. E isso porque, também ele, o Dr. Pimenta, mesmo a esses que o contradisseram sem razão, nunca lhes quiz mal algum. Como é timbre dos Homens Bons.


UMA JUSTA E MERECIDA HOMENAGEM

Sábado, dia 28 de Novembro de 2009, pelas 15,30H, no Palácio D. Manuel em Évora, uma justa e merecida homenagem vai ser prestada ao Dr. João Alves Pimenta, com o lançamento do livro "DR. JOÃO ALVES PIMENTA - UM MODO DE VIDA", da autora Maria Reis, sua companheira dedicada.

E estamos em total acordo de sentimentos com a autora quando nos diz que o fez "por uma questão afectiva e de justiça porque acho que o Dr. , pela postura que sempre teve para com os que dele precisaram e continuam a precisar, merece que fique um registo da sua passagem por esta vida".




HOMENAGEM DO "MEMÓRIA 149"

Nós, "Memória 149", morada dos combatentes que foram privilegiados pela inesquecível companhia e ajuda médica e humana do Homem limpo e inteiro que foi e é o Dr. João Alves Pimenta, associamo-nos de alma e coração a esta homenagem simples de acordo com a simplicidade da grandeza do homenageado.
E reproduzimos o poema que no livro"Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias", conta o episódio ocorrido no ataque à frente da coluna quando nos deslocáva-mos no Quixico, entre Nambuangongo e Quipedro, e o Dr. se viu confrontado entre o risco de morte pelo caminho por demora até Luanda ou operar ali mesmo um ferido grave a esvair-se com uma perna desfeita.




OPERAÇÃO FRONTAL II

A palavra e o conhecimento, por sí só, não faz o homem,
são as suas acções que o definem e confrontam,
as suas qualidades que o abaixam ou o alevantam,
as suas actitudes que o escondem ou o descobrem
quando nos momentos necessários, decisivos, apontam
o dever e agem a bem dos outros, que ajudam e socorrem.
Explico,
Face à impossibilidade de proceder à evacuação
aérea dos feridos, sobretudo o grave que não aguenta
perder mais tempo, a equipa do Dr. Pimenta,
reúne todos os limitados meios que tinha à mão
e resolve operar ali mesmo no Quixico.
Foi uma noite inteira sem descanso cirurgiando
à luz deficiente de uma gambiarra
utilizando meios rudimentares.
Mas a vida e a perna ficaram nos seus lugares
devido à vontade e determinação do Dr. que as agarra
e devolve ao Soldado, donde se estavam escapando.
Bem haja abnegada gente que com garrotes e lancetas
evitaram mais um português morto, ou de muletas.



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

149, OS DOCUMENTOS DE HEROICIDADE

QUADRO DE HONRA
CONDECORAÇÕES














Cap. Cav.ª Rui Coelho Abrantes, Medalha de Cruz de Guerra de 2.ª Classe.





























Ten. Mil. Médico Dr. João Alves Pimenta, Medalha de Prata de Serviços Distintos com Palma.








Alferes de Cav.ª Ruben de Almeida Mendes Domingues, Medalha de Cruz de Guerra de 3ª Classe.

























Alferes Mil. de Cav.ª José Manuel Júdice Pontes, Medalha de Cruz de Guerra de 3ª Classe.














2.º Sarg. de Cav.ª Avelino José Leitão, Medalha de Mérito Militar de 4ª Classe.

















2.º Sarg. Cav. Manuel de Sousa, Medalha de Mérito Militar de 4ª Classe, a título póstumo.


















Fur. Mil. Cav.ª Eduardo José Valença Baptista, Medalha de Mérito Militar de 4ª Classe.












1.º Cabo nº 20/61, Florentino Ferreira Cardoso, Medaçha de Cruz de Guerra de 4ª Classe.

















1º Cabo n.º 17/60, Manuel Bonifácio Charneca Travessas, Medalha de Cruz de Guerra de 4º Classe.

1º Cabo nº 55/60, Martinho António Pavia Albano, Mdelha de Cruz de Guerra de 4º Classe.






1º Cabo nº 248/61, José Augusto Sabino, Medalha de Cruz de Guerra de 4ª Classe.

Soldado nº 116/61, José da Conceição Matias, Medalha de Mérito Militar de 4ª Classe.

















Soldado n.º 267/61, Joaquim Ferraz de Aguiar, Medalha de Mérito Militar de 4.ª Classe, a título póstumo.

















Estes foram os heróis notáveis maiores nomeados e condecorados do Esq. Cav.ª 149 que, por actos de valentia e dádiva, se elevaram ao cume e foram cabeça do corpo heroico constituido pelo conjunto de todos os Homens do Esquadrão, do qual o tronco braços e pernas, igualmente constituido por heróis invulgares, tornaram esta Unidade única e incomparável.


O livro "Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias" de José Neves, depois de nomear os heróis notáveis, termina dizendo:

Aos restantes Sargentos, Furrieis, Cabos e Praças
que constituiram o grosso do Esquadrão
e atravessaram cacimbos, chuvas, luas e sóis,
emboscadas, combates, feridos, desgraças
sem conta, sem roupa, sem água, sem pão,
sem sono, sem casa, sem cama e sem lencóis,
sem revolta, sem choros e sem queixume,
só uma palavra os resume:
heróis.



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

149, OS DOCUMENTOS DE SANGUE

OS SACRIFICIADOS

Quiz o regime da altura que, teimosamente foi rejeitando todas as possíveis iniciativas e ofertas de paz pelo diálogo, fossem enviadas à força e rapidamente Tropas em massa para preservar Angola, a jóia da corôa do que restava do Império Ultramarino, bárbara e ferozmente atacada em Março de 1961.

Mal preparados, metidos num terreno desconhecido e analfabetos acerca de guerra de guerrilha, só a nossa longa e histórica experiência de capacidade de adaptação e improvisação às dificuldades, aliada à clarividência do Comando, bravura e coragem dos nossos Soldados, valeu ao Esq. 149 não contar um maior número de baixas. Foi a decisão do Comando, após astuta análise do comportamento do inimigo nos primeiros dias de guerra, de avançar sem parar noite e dia sem estacionar, atacando e não deixar-se atacar, numa estratégia de antecipação, que impediu emboscadas e evitou mais feridos e baixas na nossa Tropa.

Mas a guerra caracteriza-se por ser o lugar onde se ensina a matar e numca a morrer, o lugar onde se ensina a matar para não ser morto. E metidos nela somos necessáriamente obrigados a praticar tal qual nos ensinam ou pagamos com a vida. Contudo o inimigo ensina o mesmo aos seus combatentes e então a guerra torna-se o lugar onde todos se defendem matando. O ensino da guerra apela ao homem primário e a prática da guerra leva ao comportamento por instinto.

Nesta luta de vida e morte feita institivamente é inevitável não surgir o estilhaçar dos corpos, o jorrar do sangue quente, o escapulir-se da vida pelos buracos das balas, das granadas dos acidentes, e o ser-se cadáver de repente.
Tanbém no Esq. 149 aconteceu e houve de tudo isso e, ao fim de três meses e depois de Nambuangongo, Quipedro e Quissacala (Pedra Verde), com travessia do rio Dange em jangada construida no local com paus, arames, lianas e bidons velhos, a Unidade tinha cinco baixas: três mortos e dois feridos graves evacuados. E ao fim de dezoito mêses tinha o Esquadrão 149 completado o seu contributo de sangue com uma funesta lista final de cinco mortos, dez feridos graves evacuados e tinta feridos ligeiros:

- Mortos,
2.º Sarg. de Cav. Manuel de Sousa
2.º Sarg. de Cav. Paulo António Neves Mota
Soldado nº 134/60, José Manuel Vicente Pires
Soldado nº 267/61, Joaquim Ferraz de Aguiar
Soldado nº 291/61, António de Oliveira Gaspar




Todos estes, heróicos tombados de guerra e contributo de vida em nome de valores patrióticos considerados correctos na altura, e com maior merecimento ainda se, puros simples e inocentes, lutaram e deram a vida enganados julgando bater-se por uma causa justa, estão inscritos e imortalizados na pedra do Memorial dos Combatentes.
A todos sem excepção podemos dizer, como Péricles, no elogio fúnebre aos primeiros mortos na guerra do Peleponeso:
"Por esta oferta das suas vidas, feita em comum por todos eles, cada um, individualmente, recebe o quinhão de fama que nunca envelhece e, por sepultura, não tanto aquela onde os seus restos mortais estão depositados, mas no mais nobre memorial, no qual a sua glória repousa, para ser eternamente lembrada em cada ocasião em que acontecimentos ou palavras propiciem a sua comemoração. É que os heróis têm a terra inteira como sepultura, e não apenas no território onde a coluna com o seu epitáfio os recorda".

- Feridos graves, evacuados,
Fur. Mil. de Cav. Waldemar Isaías Cabaço Milho
Fur. Mil. Cav. António maria Palhavã Rodrigues Pinto
Soldado nº 52/60, Victor Manuel Carigos Garcia
Soldado nº 92/60, Manuel da Fonseca Pestana
Soldado nº 255/60, José Manuel Ferreira
Soldado nº 65/61, Manuel de Jesus Moita
Soldado n 260/61, Manuel Carvalho dos Santos
Soldado nº 271/61, António Mendes Gomes
Soldado nº 273/61, Francisco C. Gonçalves
Soldado nº 280/61, António Maria Antunes

No livro "Esquadrão 149 - A guerra e os Dias", José Neves refere-se assim relativamente aos que não regressaram no poema "A Resposta do Céu".

Vencidos mortais paludismos,
febres, diarreias, terrorismos,
sedes, fomes, abatizes, ardis,
balas, canhangulus, estilhaços,
catanas, feridos e inchaços,
água podre dos cantis
enchidos nos charcos,
travessias de rios sem barcos,
matacanhas, mosquitos febris,
ravinas, morros, matas, capim,
terras de ninguém sem fim,
medos longos medos extremos,
medos frios medos quentes,
sobrevivemos,
somos os ex-combatentes.

E os caídos não sobreviventes,
os que foram e não voltaram,
os que deram cara e tombaram
os que apenas foram sementes
estéreis, infecundas,
os eleitos das injustiças,
os nomeados nas missas,
os esquecidos nas fundas
gavetas dos arquivos,
os registados a letras pretas
no mármore e nas cadernetas,
os que são lágrimas dos vivos,
os que são ossos, nomes, resumos,
os tombados indevidos,
os que são parada de abatidos,
os que são heróis póstumos?

Foram e ficaram terra e humus
dos imbondeiros,
foram heróis herdeiros
dos seus próprios consumos;
o Sousa caído com a arma na mão,
o Mota vítima do Diabo feito cão,
o Aguiar trespassado de lés-a-lés,
o Pires sangrando miolos no chão,
o Gaspar no Dange pasto de jacarés.
Na hora do regresso da Unidade
às cinco faltas à chamada
respondeu o Céu: «justificada,
são nossos hóspedes à eternidade
no Céu e na Terra serão saudade».


Se o homem é a medida de todas coisas, a guerra é a medida de prova do homem.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

149, OS DOCUMENTOS DE IDENTIDADE II

ESPÓLIO FOTOGRÁFICO

Não menos importante que os outros Documentos de Identidade do Esq. Cav.ª 149, já nomeados atrás, é o Espólio Fotográfico, produzido, constituido e preservado pelo 2º. Sargento de Cav.ª Avelino José Leitão, Sargento de Transmissões, conhecido internamente como Sargento Leitão.


Amante da fotografia, tal como um Soldado nunca abandonava a sua arma, também o Leitão nunca dispensava a companhia da sua "Rolleiflex" profissional. Igualmente trazia sempre consigo os materiais indispensáveis à instalação do seu precário estúdio de revelação fotográfica. À sua especialidade de TRANSMISSÕES E CRIPTO que comandava com um jeito e capacidade invulgar, juntou a fotografia cujo gosto o levara a tirar um curso militar sobre técnica e arte fotográfica. Durante toda a Comissão de Serviço do Esq., o Leitão tirou milhares de fotografias que retratam a vida da Unidade, das operações, da guerra, dos locais, dos feridos, dos mortos e dos vivos, sobreviventes.
Conta o Cap. Abrantes que, muitas vezes, o Leitão lhe pediu para se juntar às Tropas de abalada para operações afim de poder satisfazer o seu íntimo forte impulso para reporter de guerra fotográfico. Graças a esta disposição arrojada de enfrentar o perigo para captar o instante presente e o transmitir ao futuro, temos hoje um valioso Espólio Fotográfico que iremos mostrando neste local; Memória 149.

Mas nem só pela fotografia, além da actividade na sua especialidade militar que desempenhou exemplarmente, se ficou o nosso Sargento Leitão. E tal como foi "fotógrafo oficial" metódico e organizado, igualmente compilou, organizou e produziu um caderno, tipo livro, com todas as Ordens de Serviço emitidas sobre o Esq. relacionadas com:
.Condecorações
.Louvores
.Punições
.Mortos
.Louvores Comuns e Exortações


Um Homem irrepreensível, quase militar perfeito, e um grande elemento do Esquadrão. Contributo valioso na construção da boa imagem e assumpção pelos Soldados, do sentimento geral de que pertenciam a uma Unidade diferente, militar, moral e comportamentalmente para melhor.
O seu trabalho e qualidades foram imediatamente reconhecidos pelo Comandante Cap. Abrantes que, apenas um mês após o desembarque em Luanda, lhe atribuiu um elogioso e merecido Louvor.



No livro "O Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias", José Neves no poema "Placa" acerca da placa sinalética "NAMBUANGONGO" encontrada caída à entrada dessa povoação e apanhada do chão pelo Alferes Ruben eccreveu:

..................................................................................................
"E, talvez pensando no futuro destes eventos
o Alferes Ruben, levantou a placa do solo
com desvê-lo e pô-la ao colo
quando passava o Sargento de transmissões(que mal havia)
com a máquina e registou, felizmente, em fotografia
aquele instante, e a placa que guadámos no nosso imaginário.
......................................................................................................

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

149, OS DOCUMENTOS DE IDENTIDADE

AS TRÊS "PEGADAS" PARA A HISTÓRIA

Dois livros e um filme registam para os tempos a História ímpar do Esq. de Cav. nº 149 no Norte de Angola entre 1961 e 1963 pouco após o rebentamento da Guerra Colonial.
Um, a " HISTÓRIA DO E. CAV. 149", editado ainda em Luanda em 1963 da autoria do Ten. Mil. Médico Dr. João Alves Pimenta. Livro escrito sobre os acontecimentos, no decorrer dos dias e em cima do desenrolar dos factos, é um relato cronológico descritivo tão preciso quanto permite a visão humana dos olhos que os viveram, presenciaram e observaram em directo. Sendo um retrato diário da actividade do Esquadrão, "possui alguns apontamentos pessoais e todos os assuntos são o fruto da minha observação ou da minha experiência", diz o autor. Dada a sua qualidade de médico cuidadoso e atento aos problemas dos Soldados, que acompanhava a par e passo com desvelo familiar, as suas observações pessoais sobre o moral e estado de saúde da Tropa são de grande riqueza psicológica e humana e mesmo as suas observações sobre a estratégia operacional são rigorosas e vão sempre no sentido de que, com tais medidas e tácticas, se evitem mais feridos e baixas. Os Soldados, o seu bem estar moral, psicológico e físico foi sempre o seu primeiro cuidado.

Num pequeno prefácio do livro escreve o autor: "O presente trabalho , ao evocar os diferentes estádios do E. Cav. 149 e a sua actividade em Angola, pretende ser um elo de ligação entre os seus elementos, após a sua desmobilização, mantendo no futuro, dentro do possível, o espírito de corpo e a camaradagem criada durante o tempo de comissão de serviço".
Se bem o pensou melhor ainda resultou, pois nas nossas confraternizações anuais, ainda hoje passado tantos anos, muitos Soldados levam consigo o dito livro para falar das operações e casos em que participaram directamente. E caso sintomático do êxito do seu testemunho escrito como "elo de ligação", que foi e é, está o caso de que, muitas e variadas páginas dos seus livros, que guardam religiosamente, têm passagens sublinhadas e anotações rabiscadas pelos próprios.



O outro, o "ESQUADRÃO 149, A GUERRA E OS DIAS", editado em 2003, da autoria de José Neves (pseudónimo de um Furriel Mil. do Esquadrão), com base na fiel descrição cronológica dos actos, ao longo do tempo e dos lugares e dos estados de alma da Tropa, feita no livro anterior, o autor deste tomou a liberdade de os relatar a todos, mais os de sua vivencia e observação pessoal, e sob uma forma escrita nova e mais livre de formalidades.
Essa forma de maior liberdade de expressão, sem contudo fugir da fidelidade aos factos, decidida enfrentar pelo autor, foi transformar cada facto num episódio e cada episódio num poema e, do conjunto dos poemas fazer um canto dos feitos do Esquadrão.
Este livro é, tal como o anterior, uma narrativa circunstanciada e cronológica dos actos do Esquadrão onde em cada desses actos se colocam os seus actores com os seus medos, sua coragem, suas emoções e seus sentimentos face à iminência do trágico e do absurdo. E para expressar todo este conjunto de estados de alma feitos de contradições tensas repentinas e imprevisíveis, nada melhor que tomar a liberdade poética para os temperar e os reproduzir elevando-os ao seu verdadeiro merecimento.
Diz o autor no preambulo, aos leitores que: "Neste livro o que menos nos importou foi o relato dos factos em sí mesmos mas interpretá-los sob o ponto de vista da condição humana da carne fraca ou da alma grande.




O terceiro grande documento testemunho forte de identidade do Esquadrão é o filme " NAMBUONGONGO A GRANDE ARRANCADA", com imagem e realização da equipa da RTP que nos acompanhou na arrancada desde o Ambriz para Nambuangongo, formada pelo jornalista Neves da Costa e o operador de câmara Serras Fernandes.
Este é, pela força da imagem, porventura, o rasto mais visível e espectacular deixado pelo Esquadrão em todo o período da sua Comissão de Serviço. Mais forte e espectacular porque se expressa pela força da imagem, o que torna o relato dos acontecimentos num facto sempre ao vivo mas, também e sobretudo, porque relata e vinca o episódio mais marcante e relevante de todo o percurso e actividades do Esquadrão: a arrancada com partida no Ambriz às 13.ooH de 26 de Julho de 1961 e chegada a Nambuangongo às 10.00H de 10 de Agosto seguinte.
Foi marcante para o Esquadrão e igualmente para a equipa da RTP que nos acompanhou, integrada hora a hora, dia e noite, na coluna e frente de combate, sempre prontos e atentos a recolher imagens da guerra tal qual ela acontecia ao vivo, no teatro de operações sem qualquer espécie de figuração. A experiência de convívio íntimo e perigos comuns vividos diariamente pelos homens da equipa de filmagem junto do Esquadrão, como Soldados de câmara sempe apontada foi tal que, face ao bravo comportamento dos Soldados e capacidade e eficiência de comando da Unidade, lhes mereceu um tal sentimento de apreço e reconhecimento de sua parte que ficaram amigos e se sentem indelevelmente ligados ao pessoal do Esquadrão com quem não dispensam de comparecer, confraternizar e comemorar todos os anos, na já tradicional reunião-almoço-festa de confraternização anual.
Numa entrevista dada, à altura existente, revista "Filme" de Abril de 1962, o então redactor do "Telejornal", Neves da Costa já dizia: " O que mais gostei de fazer, talvez por se adaptar melhor à minha maneira de sentir e viver a profissão, foi a reportagem que, como enviado especial da RTP, realizei em terras de Angola".



























































VER O FILME "A GRNDE ARRANCADA" AQUI


terça-feira, 3 de novembro de 2009

NOTA DE ABERTURA

APRESENTAÇÃO

Abrimos hoje, passados quarenta e oito anos e meio da sua mobilização em Maio de 1961, o espaço na blogosfera MEMÓRIA 149, desde este momento dedicado a contar e registar o percurso, as acções, a história e as histórias desta inigualável Unidade militar na Guerra Colonial entre 1961 e 1963 em Angola.

Propôe-se neste espaço, igualmente, comentar tudo o que entretanto foi dito, escrito ou registado sob qualquer forma, acerca das intervenções do Esq. 149, no sentido indeclinável de repôr a verdade dos factos, sempre que os relatos destes não condigam com o que vivemos.

O Esq. de Cavª. nº 149, comandado pelo Cap. de Cav. Rui Coelho Abrantes,


coadjuvado pelo Ten. Milic. Médico, João Alves Pimenta


e pelos,
Alferes de Cav. Rúben de Almeida Mendes Domingues, comandante adjunto e do pelotão de reconhecimento.
Alferes Milic. de Cav. Victor António Agostinho Ribeiro, comandante 1º pelotão.
Alferes Milic. de Cav. José Manuel Júdice Pontes, comandante do 2º pelotão.
Alferes Milic. de Cav. António Augusto Espinha Ribeiro de Carvalho, comandante do 3º pelotão,








foi mobilizado em Maio de 1961, embarcou em Lisboa em 27 de Junho do mesmo ano, chegando a Luanda no dia 7 de Julho.
















Com um efectivo de 172 militares, constituido por elementos heterogéneos, provenientes de diversas Unidades e de diferentes incorporações, o Esquadrão de Cavalaria nº149, foi formado pelo Regimento de Cavalaria nº 7, destinado a servir na Província Ultramarina de Angola, na situação de reforço, em comissão de serviço.

No dia 14 de Julho, forçado pelas circunstâncias, apresenta-se ao Comando do Sector Operacional nº 3, Zona de Intervenção Norte (ZIN), de quem fica dependendo para efeitos operacionais e iniciar a sua actividade militar em situação de guerra.



Nesta data começou de facto, para nós, a guerra. A guerra a sério com espingardas, balas, tiros, feridos e mortos. Mas ainda antes, em Lisboa e depois em Luanda houveram histórias de preparativos dignas de serem contadas. Iremos relembrar algumas.