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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

COMBATENTE, "EX-COMBATENTE"

Tornou-se predominante e por conseguinte vulgarizou-se o emprego de "ex-combatente" para designar quem foi militar e esteve envolvido em operações e combates no teatro da dita guerra colonial.
Porque meios racionais de pensamento se transformou o combatente em "ex-combatente"? Ou com que fim objectivo se procedeu, consciente ou inconscientemente, escrita e oralmente, a tal transformação?

Desde miúdo, com o meu pai e seus companheiros de guerra e trincheiras em La Lys, nas suas anuais festas comemorativas do 9 de Abril, me habituei a ouvir falar de combatentes sem "se", nem "mas" ou "ex". Todos memoriais, monumentos ou obras em memória e honra dedicados aos participantes mortos na guerra são erigidos e instituídos como monumentos ao combatente e nunca ao "ex-combatente". Nesse tempo e até ao fim da nossa traumática guerra colonial nunca ouvira falar de "ex-combatentes", nem existiram associações ou ligas de "ex-combatentes".

Penso eu, logicamente, que o que foi, foi, e não é possível de mudança: se fui dois anos consecutivos um combatente depois, acabada a guerra, deixei de o ser e já não fui? O que fui deixei de ser para tornar-me, transformar-me, num "ex", ou seja no que foi e deixou de ser.
Ter sido combatente numa guerra não é ter sido nomeado para o cargo de ministro ou empossado para um cargo ou função superior na administração do Estado. Pode dizer-se de alguém que foi um ministro afastado que é um ex-ministro mas não se diz de um combatente tombado que é um ex-morto. Semelhantemente, ninguém diz de um pensionista que é um ex-trabalhador, de um coronel na reserva que é um ex-coronel, tal como seria ridículo dizer-se de D. Afonso Henriques que foi o 1º ex-Rei de Portugal.
Ter sido combatente é tal qual como o Soldado, conhecido ou desconhecido, que foi herói condecorado num momento e ganhou intemporalidade: jamais poderá ser designado como ex-condecorado ou ex-herói condecorado.

Mas o "ex-combatente", a introdução desta denominação na linguagem dominante actual, talvez tenha tido uma motivação, subjectiva ou talvez mesmo objectiva, de acomodar o termo ao pensamento dominante anti-guerra colonial que prevaleceu até há poucos anos. A maioria dos que se escaparam para fora do país para não ir à guerra, foram na sua grande maioria intelectuais: políticos, artistas, escritores e homens de letras que também eram isso porque, além de sua capacidade intelectual e política para perceber a guerra, tinham capacidade de economia e conhecimentos para se organizarem e manterem lá fora sustentadamente.

Foram esses intelectuais que, regressados depois de Abril, ocuparam lugares dominantes na administração central, nas universidades, nas escolas, na literatura e em quase todos os meios culturais e de comunicação. Eles teorizaram e impuseram ao país o pensamento anti-guerra que os levara a fugir à tropa. Esse pensamento consistia em atribuir culturalmente a heroicidade aos opositores anti-guerra obrigados, pela consciência, a fugir para não matar numa guerra injusta, contra os combatentes obrigados, pela lei e força bruta do Estado, a dar o corpo às balas para matar ou não morrer.

Este pensamento dominante imposto pelos obrigados a fugir contra os obrigados a lutar, fez que durante muitos anos fosse tabu para os combatentes falar sobre a guerra. E se se viam na necessidade de falar dela, dado a inevitabilidade de poder ocultá-la ou esquecê-la, pelo facto concreto de existir exposto ao dia a dia, em ferida viva nunca tratada nem curada, milhares de feridos em combate feitos deficientes de guerra: era preciso suavizar os males do combatente fazendo-o "ex-combatente".

Deste modo os seus males e padecimentos, igualmente se tornavam ex-males e ex-padecimentos e os sofrimentos de fome e sangue passavam a coisa "ex", a ex-acontecimento: coisa que foi, há muito, coisa longínqua no tempo, coisa do passado, coisa que foi e já não é.
Esqueceram-se tais fabricantes desse pensamento dominante que se trata de marcas de sangue, de feridos deficientes físicos e mentais, de pais, mães, esposas e filhos que fazem romagem aos convívios anuais comemorativos do regresso, já normais e regulares entre combatentes, e sobretudo aos cemitérios onde ainda derramam lágrimas pelos seus mortos na guerra.
Esqueceram-se esses tais que, os sacrifícios de sangue nunca podem ser apagados, e pelo contrário, tendem a inscrever-se e perpetuar-se na pedra em tributo à sua honrosa memória. É o processo imparável que já se iniciou pela perda do medo de falar e contar tim tim por tim tim todos os horrores e felicidades passados nesse acontecimento histórico.

De tal modo se está dando a inversão do anterior pensamento dominante que os próprios esses tais são convocados e aceitam, sem corarem de vergonha, a fazer o discurso de elogio, quando não apologético, do comportamento cívico e militar do combatente.
Os combatentes foram o povo anónimo das aldeias remotas cujos descendentes se orgulham dos seus familiares combatentes e são hoje uma maioria dos portugueses: os troca tintas nunca perdem uma oportunidade de se misturar com a maioria do povo para melhor, outra e outra vez de novo, voltar a impôr ideias dominantes que sirvam interesses próprios.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MEMÓRIA DE 10 DE AGOSTO DE 1961(*)


NAMBUANGONGO

Percorreram-se, desde Zala a Nambuangongo, 44 quilómetros de marcha contínua, realizando-se a progressão em lances alternados, com o apoio do pelotaão de artilharia que progrediu por escalões. Atingiu-se Nambuangongo às 9 horas de 10 de Agosto de 1961. Durante o percurso levantaram-se imensos "abatizes", destruiram-se instalações inimigas e beneficiou-se uma antiga passagem a vau no Rio Uembia, a 6 quilómetros do objectivo final, por a ponte existente se encontrar danificada, não permitindo o trânsito das viaturas.

Na povoação de Nambuangongo fez-se a ligação com o Batalhão de Caçadores nº96, que alí se encontrava desde as 17 horas do dia 9 de Agosto de 1961, procedeu-se à instalação do pessoal do E. Cav. 149 e deu-se-lhe merecido descanso.

Eram percorridos 180 quilómetros desde Ambriz, numa estrada eriçada de dificuldades, onde campeavam "abatizes" e valas que foi preciso remover e tapar; beneficiaram-se e construiram-se vários pontões; e transitamos por uma zona de população indígena sublevada e activa, como verificamos pelo número de acções realizadas. Mas, com uma vontade férrea, feita à custa de sacrifícios, de auto-domínio e da orientação imprimida pelo comandante da coluna, atingimos, em 16 dias, a que outora fora a povoação de Nambuangongo, transformada em escombros pela fúria destruidora do inimigo.

Sentiamo-nos cansados, mas felizes e cada um de nós fervilhava de orgulho por ter sabido cumprir a honrosa missão para que fora chamado.

Ao contrário do que aconteceu com as outras unidades que progrediram em direcção a Nambuangongo (Bat.96 e Bat.114), que sofreram ataques em massa, o Esq. Cav. 149 não permitiu esses encontros. Foi das três, a unidade mais rápida a progredir e, além disso, actuou no sistema de não criar hábitos que pudessem servir de referência ao inimigo. Nunca estacionou mais de três dias na mesma posição e iniciou a técnica da progressão nocturna.
Estes aspectos, aliados ao tiro de reconhecimento e ao tiro de apoio realizado pelo Pelotão de Artilharia 8,8, durante a progressão, o efeito de surpresa alcançado pelas acções realizadas contra o quartel da Cavunga, devem ter provocado ao inimigo não só desmoralização, como não permitiram a sua organização eficaz, pelo que este passou a actuar no sistema único de emboscadas, servindo-se de abrigos, ou beneficiando das condições do terreno, furtando-se a todo o contacto.

(*) - Do livro "História do Esq. Cav. 149" do Ten. Mil. Médico, Dr. João Alves Pimenta.
Editado em Luanda, 1963.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

EX-COMBATENTES AGORA

SEGUNDO ANTÓNIO BARRETO

António Barreto, velha cassandra, já previu:
que no Algarve a única coisa prestável era o Supermercado Apolónia,
que Sócrates era um para-fascista ao impor a lei contra o fumo em locais fechados,
que o computador "Magalhães" era uma desgraça para as criancinhas,
que Portugal estava em risco de desaparecer,

e foi, conjuntamente com todos os letrados que saltaram do país por causa da guerra colonial e se exilaram na Europa, responsável pela imposição de um pensamento dominante contra quem fez a dita guerra. Nesse pensamento dominante valor e coragem estava toda do lado de quem se recusara combater: o único perfil bastante para ser herói era a heroicidade de recusar a guerra. Se para muitos ou poucos, safar-se da guerra tratou-se ou não mais de um caso de medo que de heroicidade, foi sempre um tabu nunca discutido. E o medo, contudo e sobretudo o medo de levar um tiro no meio do mato sem saber donde veio, mete muito medo a muito herói.
Claro, para ilustrados bem-nascidos e já politicamente educados, definidos e integrados com apoios, era fácil sobreviver como exilado bem sucedido e até lhes amealhava a aura de lutadores anti-fascistas, vivendo mais ou menos regaladamente. O vilão bruto e colaboracionista era o humilde e rude analfabeto das vilas e aldeias remotas que, sem hipótese de fuga, acabavam com os costados todos no mato cercados de guerra por todos os lados. Tal pensamento dominante, foi responsável até há pouco tempo, pelo sentimento de culpa que os ex-combatentes sentiam ao ponto de evitarem falar da guerra por vergonha.
É um sentimento perverso provocando uma sensação estranha de total indiferença e dó de alma, para quem observou atento a este evoluir oportunista ao sabor do sentimento geral gerado pelo olhar desfasado do tempo real. À medida que os factos vão passando à História as cassandras ilustres do tempo real vão, inexorável e paulatinamente, sendo desmascaradas.
Para mim, ver António Barreto fazer agora o elogio dos ex-combatentes da guerra colonial, é um dó de alma tão amargo e doloroso como ver ex-combatentes, toda a vida esquecidos e humilhados, desfilarem à civil em parada militar, escondendo mazelas, raivas e catarzes entranhadas nas profundezas do corpo, em pose e passo de marcha militar pretenciosamente garboso, sob a velha boina identificadora de combatentes guerreiros convictos.



terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

DESONESTIDADES HISTÓRICAS III (CONT.)

HISTÓRIAS MAL CONTADAS II

Após arrancada próximo de Ambriz

Continuemos com a análise do ridículo depoimento do grande repórter de guerra Artur Agostinho relatado no livro da Temas e Debates "A guerra de África, 1961 - 1974", de José Freire Antunes, incluido no Volume 1 com o título enganoso de "Artur Agostinho, Relato da Frente". Título enganoso porque totalmente às avessas no caso da reportagem da tomada de Nambuangongo que vamos analizar agora aqui.

Ataque na zona do Cavunga

Depois da afirmação certeira de que os repórteres da TV (Neves da Costa e Serras Fernandes), seguiam numa coluna militar (que era o Esq. Cav. 149, comandada pelo Cap. de Cav.ª Rui Abrantes, que desconhece), AA diz esta fanfarronice descomunal:
"Eu estava a organizar-me no sentido de tentar cobrir Nambuangongo, porque era importante, mas não sabia bem como é que havia de fazer a reportagem. Se eu fosse com a coluna nunca mais lá chegava, e não sabia quando é que transmitia a reportagem para Portugal. Então «bolei» esta ideia do avião: ir num Dornier que era um avião pequeno".

Neves da Costa (de chapeu) incorporado na coluna

Repare-se neste subterfúgio descritivo da situação para fugir à óbvia necessidade de ir ter com as tropas da frente no terreno se se quizesse mesmo fazer uma reportagem séria do que se passava próximo e na hora da tomada de Nambuangongo. Diz, com a ligeireza de quem não pensa um segundo nem tem dos factos o respeito que merecem, que ele bem queria ir fazer a reportagem mas com a coluna não, porque desse modo nunca mais lá chegava, então foi dar uma volta de avião sobre as tropas do Cor. Maçanita.

Assinalados: 1- Sarg. Sousa horas depois motro na batalha de Zala
2 - Sarg. Mota dias depois morto em Quipedro

Sublinhe-se que naquele momento estavam lutando nas picadas cerca de 1300 homens, na linha da frente, em três colunas militares para chegar a Nambuangongo e mais outros tantos que faziam a ocupação do terreno conquistado, e o AA, qual Aquiles indomável, pelas declarações prestadas, faz crer que pretendia lá estar antes das tropas ocuparem a povoação. Mas como diabo queria o grande repórter lá chegar quando cerca de 800 homens armados se arrastavam à velovidade de 1-2 Kms/hora pelas picadas do morro acima e quando cerca de 500 deles até já haviam desistido de avançar até ao objectivo final, face às dificuldades e perigos encontradas pelo caminho?

Evacuação de ferido na zona de Cavunga

A mensagem que o grande repórter quer fazer passar é dar a ideia de uma vontade indómita, heróica, de querer estar em Nambuangongo mas não havia condições para poder satisfazer a sua coragem imbatível. E deste modo não teve outra solução senão ir de avião, dar uma volta sobre as tropas do Bat. 96, falar via rádio com o Maçanita uns minutos e voltar imediatamente para o consolo do hotel em Luanda. E, na visita aérea, dado ter-se apercebido do despique entre as colunas militares para chegar primeiro, fazer uma reportagem ao estilo relato de bola Sportig-Benfica que disse, "foi realmente uma pedrada no charco".

Ferido ligeiro de tiro de canhangulo

Até esta fafarronice profissional menor da pedrada no charco é de um pretenciosismo incabível num corpo humano: no charco da guerra tal como se desenrolava, ou no estilo das reportagens até aí feitas? Nessa altura as reportagens feitas por enviados especiais, eram talvez ainda inexistentes, pelo que tudo indica e mais ainda pelo tom geral do depoimento, que AA entende que deu uma pedrada no charco que era a condução da guerra na altura. De grande repórter, AA após uma breve olhadela pela situação militar em Luanda e do alto do seu pequeno avião sobre o mato, e de repente, toma-se como um grande cabo de guerra.

Nambuangongo

AA bem tenta desvalorizar a acção dos militares e as dificuldades da guerra numa tentativa de mascarar o seu horror aos perigo das balas. Não foi à frente de batalha pela picada e fez o que fizeram inúmeros outros, até militares com patente: foi e veio cómoda e rápidamente de avião sem correr perigo algum. E do trabalho que tinha de fazer "porque era importante" como diz e lhe teria sido encomendado especialmente, acabou por fazer um trabalhozinho tal que desapareceu completamente da memória da guerra colonial.

Igreja de Nambuangongo

Andar integrado numa culuna militar implicava fazer a vida de militar em operações: comer ração de combate continuamente, dormir no chão embrulhado numa manta, lavar-se ou tomar banho só na travessia a vau dos rios, correr perigo de morte a toda a hora todos os dias e noites, e para isso é necessário coragem e muito sacrfício pessoal. Não é para todos e muito menos para habituados e já instalados na notoriedade assente no trabalho confortável das redacções e campos de futebol.
A displicência com que AA relata acontecimentos tão graves como esta guerra onde a melhor juventude portuguesa lutava e morria, é claro sintoma de que a sua participação e conduta nela foi de passagem, medrosa e de importãncia nula.

Igreja de Nambuangongo com bandeira içada

(Continua)

domingo, 31 de janeiro de 2010

DESONESTIDADES HISTÓRICAS III



HISTÓRIAS MAL CONTADAS

O livro editado pela Temas e Debates em 1996, "A Guerra de África (1961 - 1974)" de José Freire Antunes, contém um depoimento de Artur Agostinho que conta a história da reconstrução de uma ponte sobre o rio Lifune, da sua reportagem sobre Nambuangongo e depois com os Pára-Quedista em Quipedro. Esta úliima também repetida pelo repórter num dos livros que escreveu e volta a repetir na televisão sempre que é chamado a falar da Guerra Colonial.
Só que a história contada pelo grande repórter Artur Agostinho, além de ser uma trapalhada confusa de tempos, locais e situações que baralha totalmente a compreensão do que realmente se passou, é também ficcionada e dramatizada para colocar o repórter-autor-contador no centro do palco como herói do enredo dessa história.
Vamos por partes:


1) "A primeira coisa em que eu participei como repórter durante a guerra foi na Operação Lifune, em 1961, que foi a reconstrução de uma ponte que tinha sido destruida. Era muito perto de Luanda, mesmo no rio Lifune".
O rio Lifune é um rio que corre a norte do rio Dange e passa a cerca de cem quilómetros acima de Luanda. Atravessa a picada Caxito-Nambuangongo na célebre Ponte de Anapasso, onde o Bat. Caç. 114 teve o grande combate com centenas de inimigos armados de catanas e canhangulos. Esta ponte não foi destruida nem reconstruida naquele tempo.
Outra ponte sobre o Lifune havia na picada de Balacende-Roça Maria Fernanda à entrada dos limites da Roça Margarido. Esta ponte fôra destruida mas só foi reconstruida já em fins de Setembro de 1961, depois do Esq. Cav. 149 desobstruir a picada acima referida e fazer-se a ocupação da Roça Margarido. Esta ponte foi provisóriamente reconstruida sob a supervisão técnica do Alf. Mil. Engº. Jardim Gonçalves com protecção militar do Esq. Cav.ª 149, e não consta que estivesse por lá algum repórter e muito menos de nomeada como Artur Agostinho o que tormaria logo o facto inesquecível. Portanto, deve haver grossa confusão com o nome do rio porquanto o Lifune ficava e fica longe de Luanda mas também em plena zona de perigo e era precisa alguma coragem para lá ir e estar.




2) "Fiz essa reportagem simultaneamente para a Emissora Nacional e para os rapazes da televisão, que nessa altura tinham ido comigo. Era o Neves da Costa, que tinha muitas coisas filmadas".
Os repórteres da televisão eram os rapazes e o operador de imagem Serras Fernandes que acompanhava o repórter Neves da Costa não tinha dimensão para ter entrada na memória de Artur Agostinho.



3) "Eles organizaram duas colunas. Uma era comandada pelo Tenente-Coronel Maçanita e a outra era comandada por um oficial de cavalaria de que não me lembro o nome".
Mais uma vez o depoimento é feito ao estilo de conversa de café. A superficialidade das declarações retratam a leveza desatenta como lidou com os factos de guerra que pretendia relatar e agora pretende que façam a História escrita da Guerra Colonial. Não só, desta vez não se lembra do nome do comandante da coluna de cavalaria que arrancara do Ambriz, Capitão Rui Abrantes, como desconhece que havia uma terceira coluna que arrancara do Caxito a convergir para Nambuongongo: o Bat. Caç. 114 comandada pelo Tenente-Coronel Oliveira Rodrigues, Major Balula Cid e o Capitão de operações Lemos Pires.
Era impossível a alguém, especialmente enviado para noticiar a guerra que envolvia o país, que estivesse atento e minimamente preocupado com os acontecimentos e o seu trabalho no teatro de guerra, desconhecer as movimentaçõas das tropas e os principais actores militares dessa grande operação militar que consubstanciava também uma operação política.
O grande repórter, relativamente ao avanço sobre terreno do inimigo das três colunas militares que combatiam como bravos o inimigo emboscado, que tinham mortes e feridos quase diáriamente, que disputavam palmo a palmo o avanço nas picadas para ter a honra de ser o mais forte e primeiro a vencer o inimigo e ocupar Nambuangongo, considerada a posição estratégica e política mais importante na altura, diz:


"Havia um despique para ver quem chegava primeiro. Eu chamava àquilo o Benfica-Sporting de Nambuangongo".
O hábito de ser popular à custa do futebol dera-lhe esta visão crítica de frivolidade futeboleira sobre tão grave situação que envolvia todo o país num estado de guerra onde eram sacrificados jovens portugueses diáriamente. Pela leitura total do depoimento percebe-se rapidamente que o grande repórter andou na guerra sempre atarantado sem perceber o seu papel ou, provavelmente, com pouca coragem para enfrentar o seu papel. E deste modo, e por força do hábito, tendeu a ver a guerra como mais um jogo ao despique com bola que pode comentar-se galhofeiramente. Contudo o despique na guerra fazia-se noite e dia nas matas e picadas com balas e armas apontadas para matar e isso aterroriza o hábito de comentar futilidades em total conforto.

(continua)



segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

DESONESTIDADES HISTÓRICAS II

BATALHAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL, MAL CONTADAS.
O LIVRO


O livro abaixo assinalado pela respectiva capa, com o título "GUERRA DE ÁFRICA - ANGOLA, 1961 - 1974", editado em 2006 pela QuidNovi, com texto principal de Rui de Azevedo Teixeira, incorporado na colecção "Batalhas da História de Portugal", nº 22, coordenada pela Prof.ª Doutora Manuela Mendonça, Presidente da Academia Portuguesa de História, foi distribuido e vendido nas bancas com o jornal "Correio da Manhã" no mesmo ano de 2006.
Este livro, à data da sua venda ao público com o jornal citado, mereceu do Ex-Furriel Miliciano do Esq. Cav. 149, Adolfo Pinto Contreiras, o comentário transcrito nos dois post seguintes, enviado por carta de 22.03.2006, ao cuidado da Prof.ª Doutora Manuela Mendonça.




NOTA : ler os dois post seguintes para uma leitura da totalidade da crítica ao livro em questão.

DESONESTIDADES HISTÓRICAS II (Cont.)


BATALHAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL, MAL CONTADAS (Cont.)
A CARTA

De : Adolfo Pinto Contreiras

Gorjões, Santa Bárbara de Nexe
8005-448 FARO
BI nº 1164250
Combatente furriel miliciano do Esq.Cav. 149
Ref. : APC/2006.03.22


Para : Academia Portuguesa de História
A/C : Prof.ª Doutora Manuela Mendonça



Exma. Prof.ª Doutora
Presidente da Academia Portuguesa de História,


Terminada a leitura do livro de sua coordenação vendido com o “Correio da Manhâ” intitulado “Guerra de África, Angola 1961-1974”, e após chegar ao fim do capítulo “Anexo, A Operação Viriato” deparei com um enigma gigante o qual é o seguinte:
Como conseguiu a Doutora fazer desaparecer um Batalhão (~600 homens) mais um Esquadrão reforçado ~300 homens) da operação Viriato?
É que na página 93 está dito escrito preto no branco que «a operação Viriato esteve a cargo do Esq. Cav. 149, do Bat. de Caç. 114 e do lendário Bat. Caç. 96» e depois remete para o capítulo ”Anexo” a descrição minuciosa. Não sei por que artes mágicas o Bat.114 e o Esq.149 desapareceram da operação sem deixar rasto, terão fujido? Terão caído prisioneiros? Terão sido engolidos pela águas do Lifune (114 em Anapasso) ou pelas águas do Uembia (149 próximo de Nambuangongo)? Terá a operação que tinha três pés perdido dois e ficou perneta ou terá o historiador ficado cegueta com os raios da FBP de Maçanita e o raios do inferno de Maneca Paca? Enfáticas conjecturas minhas que estive lá ao vivo ou enigmáticas prestidigitaduras de historiador?


O enigma continua em Quipedro «a primeira operação de combate com lançamento em pára-quedas». Compreende-se, se o Esq.149 desaparecera a caminho de Nambuangongo como o podia ter visto alguém em Quipedro? O Artur Agostinho ainda viu «umas tropas» acampadas quando, branco de medo, se dirigia do DO-27 de asa ferida para o acampamento dos páras, mas o historiador nada viu desta vez cegueta pelo brilho do raio da boina verde, a primeira.


Para dramatizar o enigma o historiador faz reaparecer o Bat.114 com a missão de progredir sobre o eixo Caxito-Nambuangongo e várias unidades; Bat.Caç.137, Comp. Art. 119, Comp. Caç. 66 e 67 mantidas em quadrícula.
Sobre
o eixo Ambriz-Zala-Nambuangongo progrediu o olho cego do coordenador e de todas as “Referências Bibliográficas”.

Feito desaparecer por prestidigitação de historiador o Esq.149 da operação Viriato também teria de ficar na sombra dos «soldados portugueses de eleição» o Cap. Rui Abrantes, o homem que à frente do 149:

1. Iniciou Viriato arrancando de Ambriz a 26Julho1961.
2. Fez o percurso Ambriz-Zala-Nambuangongo, 180 Kms, o mais longo e não o menos perigoso.
3. Nunca esteve acampado mais que uma noite até ao dia 1Ag1961.
4. A partir de 1Ag1961 com 110 kms percorridos e a 30 de Zala decidiu avançar noite e dia sem estacionamento, o que foi um sucesso de rapidez e baixas.
5. A 7Ag1961 hasteou com formatura e clarins a bandeira portuguesa no Posto Administrativo de Zala.

6. Na noite de 7Ag1961 queria arrancar para Nambuangongo, a 44Kms, e não o fez
por oposição dos subalternos dada a falta de munições.
7. Arrancou de Zala às 13,00H de 8Ag1961 e chegou a Nambuangongo às 9,00H do
dia 10Ag1961, após 20 Horas sem paragens e 44 quilómetros percorridos.
8. Foi o único comandante de Viriato a perceber após os primeiros dias a fraqueza do inimigo em poder de fogo e preparação militar, por isso argumentou com os subalternos em Zala que chegava a Nambuangongo com três (3) pelotões incluindo o pelotão blindado do Dragões adido ao Esq.
9. Tendo à sua disposição menos de metade do efectivo das outras unidades de Viriato nunca pediu reforços de pessoal ou material.
10. No dia seguinte à chegada a Nambuangongo arrancou para Quipedro por dois itinerários diferentes e no dia 13Ag1961, quando os Páras foram lançados, já estava no Lué a 6 Kms da povoação.
11. Depois de uma estadia de 20 dias em Quipedro rodeado de inimigo por todos os lados(os Páras estiveram activos 3 e 3 dias à espera de vôo para Luanda), 2 mortos e 3 feridos graves evacuados, foi enviado para desobstruir e cortar a linha de fuga do inimigo da Pedra Verde pelo eixo Quijoão-Dange(transposição)-Pedra Verde, operação "Esmeralda" .
12. Conseguiu fazer passar o Esq. sobre o rio Dange construindo, com paus cortados à mata, lianas, arame farpado e bidons velhos, uma jangada que transportou viaturas com 14 toneladas sem o mínimo acidente e nada se perder. Um episódio odissaico e um milagre da determinação e improviso do soldado portugues.
13. Transposto o Dange sobre jangada feita à mão a 18Set1961 estava na Pedra Verde protegendo o acampamento das tropas que lutavam no morro.
14. A 24Set1961 já estava desobstruindo o itinerário Balacende-Roça Maria-Fernanda-Quimanoxe e libertando as roças Lagos & Irmão e Maria Fernanda.
15. Nunca consentiu a “blindagem” das suas viaturas com tábuas e latas, dando uma mensagem de força e não de medo ao inimigo, deixando os movimentos livres aos soldados, jamais dando ao nosso acampamento o ar de um bairro de lata.
16. Soube incutir nas tropas um moral, um estilo, um estar, uma união e ousadia tão elevada que durou todo o tempo de comissão mesmo sob outro comandante.
17. E tudo isto apesar dos 4 mortos e 40 feridos entre os quais 6 irrecuperáveis como consta do louvor dado pelo General Comandante da Região após 2 meses e as operações acima referidas.

Este é o lado de Viriato que o historiador não conta assim como não conta a acção do Bat.Caç. 114 que tinha a seu cargo o percurso mais curto mas o mais defendido pelo inimigo, distorcendo completamente a História como conjugação de factos e acções concorrentes de que resulta o facto histórico.
Neste caso quiz-se, à maneira épica (homérica), pôr um herói armado de FBP a comandar a História de Viriato e mais uns quantos heróis conhecidos espalhados pelos 13 anos de guerra a comandar a História da guerra em Angola.
Repare-se
que Aquiles é primeiro um não-combatente por amuo e depois um combatente feroz por vingança sem nobreza, restando aos outros o verdadeiro trabalho heróico e a Ulisses a manhosice.

Compreende-se como livro divulgativo comercial distribuido pelo “Correio da Manhã” mas o historiador não deveria transigir com o rigor histórico.

DSESONESTIDADES HISTÓRICAS II (CONT.)

BATALHAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL, MAL CONTADAS. (Cont.)
A CARTA (Cont.) E ADENDA

No arquivo da Região Militar de Angola certamente também estão os textos relativos às outras Unidades com a missão de tomar e ocupar Nambuangongo. Sem o seu enormre contributo de esforço a missão teria falhado e o Vosso livro contaria outra história, de outra operação, de outros heróis. Talvez:
- o brilho solar da boina dos Páras que o Maçanita impediu com ameaças tesas caso fossem lançados sobre Nambuangongo para colher os louros por sobre dezenas de mortos e feridos entre bravos que combatiam extenuados nas picadas.
- o brilho da brilhante visão militar e coragem do Cap. Rui Abrantes que em recurso e necessidade avançaria com o pelotão blindado dos Dragões e apoios, e atingiria o objectivo Nambuangongo rápidamente como posteriormente se constatou ser fácil.
- outra imaginária história qualquer pois que a tomada de Nambuangongo era o objectivo militar que correspondia ao objectivo político do regime e como tal haveria sempre uma solução de força.

Os factos acima relatados sei-os não de leitura mas de observá-los, vivê-los e senti-los. São uma realidade inapagável e de certeza encontram-se registados nos arquivos militares tal qual os mortos, feridos, evacuados, louvoures e condecorações do pessoal do Esq. Cav. 149. Mas se dúvidas existem pode-se:
- consultar o livro “História do E. Cav. 149 - Mais Faz Quem Quer do Que Quem Pode"” da autoria do Ten. Mil. Médico do Esq. João Alves Pimenta escrito durante as operações e editado ainda em Luanda em 1963.
- pedir junto da RTP o filme “A grande Arrancada” da autoria da equipa que nos acompanhou formada pelos jornalistas Neves da Costa e pelo operador Serras Fernandes.
- ler o livro “Esquadrão 149 – A guerra e os Dias” de José Neves que lhe envio e relata veridicamente os episódios e as operações relatadas por quem as viveu dia a dia.

Os meus cumprimentos
Adolfo Contreiras
Furriel Miliciano do Esq. Cav. nº 149


ADENDA DE HOJE
1. Rectificação
No "Anexo" para o qual o autor remete o relato minucioso da "Operação Viriato", constata-se que a operação, preparada e coordenada pelo Sector 3, sediado na fazenda Tentativa, Caxito, visava a progressão segundo dois eixos, um Caxito-Nambuangongo e outro Ponte do Dange-Muxaluando-Nambuangongo, respectivamente a cargo dos Bat. Cac. nº 114 e 96.
Só depois desta única referência é que o Bat.114 desaparece do relato "minucioso" da operação "Viriato" enquanto ao Esq. Cav.149 é-lhe dado "minuciosamente" um total desaparecimento dos factos em que fortemente andou empenhado com cerca de trezentos homens.

Nota: é insignificante a presente rectificação que não muda nem altera em nada o fundamento da crítica contida na carta sobre o essencial da leveza da interpretação histórica dos autores e responsáveis do livro.

2. Recomendação
Somos informados no livro em questão, que a tal descrição "minuciosa" dos factos é retirada da leitura, entre as pág. 20 e 33 do texto "Batalhão de Caçadores nº 96: história da unidade", publicado em 1963 pela Região Militar de Angola.
Recomenda-se vivamente que, em futuros trabalhos que se reclamam de fazer a História das Batalhas de Portugal, se consultem os documentos e relatos oficiais e, como ainda é possível neste caso, os testemunhos factuais ainda vivos, de todas as forças militares intervenientes, caso contrário não se faz História como Tucídides nos legou mas sim, o relato apologético de um herói preferido entre outros, com a finalidade de construir uma "Mitologia das Batalhas" e não da História das Batalhas da História de Portugal.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

DESONESTIDADES HISTÓRICAS

Jornal "lanceiro" Nº 27 - janeiro de 2007

MORTOS E FERIDOS NA OPERAÇÃO VIRIATO. REPOSIÇÃO DOS FACTOS.

No livro "Guerra Colonial" de Aniceto Afonso e Matos Gomes, no relato da tomada de Nambuangongo diz-se, escrito em caixa, a propósito dos feridos e baixas havidas por cada Unidade envolvida na referida operação "Viriato", que o Esqudrão 149 teve 7 feridos.
Se os autores quizessem ser historiadores sérios para escrever certa a história da tomada de Nambuangongo, tinham bastos elementos de registo a consultar para saber a verdade sobre o número exacto de baixas do Esquadrão 149.
Desde logo a morte do 2º Sargento Manuel de Sousa em Quimazangue, o qual está registado em filme "A Grande Arrancada" filmado pela equipa da RTP que nos acompanhou nesse percurso, Neves da Costa e Serras Fernandes, e é incluido na generalidade dos documentários que passam na TV sobre a Guerra Colonial. Outro documento escrito, imprescindível, para fazer a História do Esquadrão 149 é o livro do Ten. Mili. Médico Dr. João Alves Pimenta "História do E. Cav. 149 - Mais Faz Quem Quer Do Que Quem Pode", escrito durante os acontecimentos e editado ainda em Luanda em 1963, antes do embarque do Esquadrão.
Se os autores do referido livro "Guerra Colonial" tivessem o cuidado e dever histórico de consultar os documentos existentes indiscutíveis sobre o assunto ou actores testemunhos ainda vivos, não caíam no erro grosseiro de registar números que deturpam a memória futura sobre o Esq. 149 e também sobre a História da Guerra Colonial que travámos.
Teriam constatado facilmente que o Esquadrão até Nambuangongo teve 1 morto e 8 feridos entre eles três evacuados.

E muito importante, tinham oportunidade de conhecer uma boa lição de táctica militar aplicada sobre como enfrentar melhor a guerra de guerrilha, no seu estado de acção na altura, e que só o Comando do Esq. 149 intuiu, face ao estudo e análise da actuação do inimigo, e que logo empreendeu evitando com tal táctica mais feridos e baixas. Diz-se no livro do Dr. Alves Pimenta acima citado:
"Ao contrário do que aconteceu com as outras Unidades que progrediram em direcção a Nambuangongo (Bat. 96 e Bat. 114), que sofreram ataques em massa, o E.Cav. 149 não permitiu esses encontros. Foi das três, a Unidade mais rápida a progredir e, além disso, actuou no sistema de não criar hábitos que pudessem servir de referência ao inimigo. Nunca estacionou mais de três dias na mesma posição e iniciou a táctica da progressão nocturna". E prossegue: " o efeito de surpresa alcançado pelas acções realizadas contra o quartel de Cavunga (do inimigo), devem ter provocado não só desmoralização como não permitiram a sua organização eficaz".
De referir ainda que a progressão nocturna encetada não parava durante o dia: o Esq. passou a progredir continuamente noite e dia sem interrupção até Zala. E o mesmo fez de Zala para Nambuangongo e mais tarde em todas as operações em que participou.

A certificar a justeza destas palavras ditadas ao Dr. Pimenta pela experiência vivida, estão os acontecimentos passados menos de um mês apenas depois da tomada de Nambuangongo. Após um dia de descanso o Esq. 149 foi incumbido de desobstruir e ocupar a povoação de Quipedro, distante 75 Kms, onde permaneceu 24 dias estacionado. Nesse período de permanência acampada, imóvel, alvo estático, tivemos ataques e emboscadas consecutivas que originaram 2 mortos, dois feridos graves evacuados ( um cego e outro um joelho desfeito), e váris feridos ligeiros.
A prova dos nove da realidade descrita pelo Dr. Pimenta. O inimigo, neste caso teve todo o tempo para conhecer os nossos hábitos e rotinas de deslocações e movimentos de modo a preparar ataques com eficácia, dramática para a Nossa Tropa. Sobretudo a nossa necessária obrigatoriedade, sem alternativa, de ter de atravessar o Rio Lué a vau numa cova cercada de mata cerrada, altamente propícia aos ataques do inimigo que aproveitou bem, para nosso mal, tal situação favorável.

Recomenda-se aos autores do livro citado que sejam históricamente criteriosos e investiguem os dados e fontes irrefutéveis, ou testemunhos ainda ainda vivos dos episódios, para poderem relatar os factos tal como se deram e não como outros alheios aos acontecimentos os contam ou ficcionam. É que, constata-se a existência de erros semelhantes, a respeito do Esq. 149 na operação Viriato, em outros livros da responsabilidade dos mesmos autores. Iremos falar deles em seguida.