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sexta-feira, 5 de abril de 2013

A NÃO GUERRA DE PACHECO PEREIRA (*)

 
O QUE MOVIA QUEM FOI E QUEM RECUSOU A GUERRA COLONIAL?
-A guerra engendrou o mundo, reina sobre o mundo-, disse Heraclito no princípio do século V(a.C.), no sentido de que o mundo (cosmos) é o teatro de uma luta incessante entre elementos opostos, e esta luta gera uma mudança perpétua. Ontem, mais através da guerra violenta, hoje mais através da guerra de idéias, o conflito de perpectivas opostas sobre as melhores soluções é o grande princípio gerador de evolução e desenvolvimento intelectual e material. Também a causa má, a ditadura, que levou à guerra colonial, gerou uma consequência boa, a queda da ditadura e a instauração da liberdade democrática, condição sem a qual não seria possível as benfeitorias de que o país beneficiou. A ditadura levou-nos obrigados à guerra e a guerra gerou no seu interior as condições de acabar com a própria guerra acabando com a causa da guerra, o regime ditaturial existente.

Quer isto dizer que devido às contradições geradas pela guerra no seu seio, foi possível a criação de um espaço de liberdade para originar um movimento de opinião e discussão da guerra. Foram os contínuos mortos e feridos da guerra sem solução de parar que fez os militares repensarem a questão da guerra e tirar conclusões. Sem o sacrifício de milhares de Soldados a tomada de consciência dos comandos intermédios despolitizados nunca teria sido interiorizada nem a guerra questionada. Foi no interior das matas africanas, com sangue, que se inscreveu na consciência dos militares a necessidade de libertar o país da guerra. Jamais os refractários ou desertores por convicção política e anticolonialismo, a trabalhar nas "profissões menores" em fábricas ou restaurantes, a estudar ou a cantar nas ruas de Paris, seriam contributos decisivos para mudar o que quer que fosse cá dentro.

O conceito de liberdade absoluta comporta dois tipos de liberdade relativa: a da exterioridade determinada pela vivência em sociedade e consagrada na lei; a da interioridade determinada pela vontade no foro íntimo do indivíduo. Um exilado, por força do exílio, perde inapelávelmente a primeira liberdade pois fica automáticamente fora dos direitos de cidadania e possibilidade de acção e intervenção directa, quanto ao segunto aspecto da liberdade da vontade interior, dado que está fora do meio social onde pode agir, esta apenas lhe pode servir individualmente na forma de estoicismo para suportar as condições duras do exílio. 
Foi por isso que Sócrates preferiu a morte ao exílio e que mais tarde os gregos ao perderem definitivamente a condição de cidadãos livres em Queroneia, viraram-se para a única liberdade que lhes restava e dedicaram-se a inventar filosofias de vida de refúgio e resistência individual como o estoicismo e o epicurismo.

Pacheco Pereira pertenceu àquele pequeno grupo que podia auto-exilar-se para não fazer a guerra ao contrário de; "aqueles homens, rudes, vindos de um Portugal então muito rural, desajeitados, com capacetes de aço feitos para a II Guerra Mundial". Mas agora, vistos do "lado oposto" à distância de quase 50 anos, tenta pôr em pé de igualdade de "patriotismo" os combatentes e os desertores e até descobre que "também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la". O artigo de PP (Público, 19 de Abril), tresanda a moralismo paternalista de quem tomando uma atitude de escape face ao perigo, quer desculpar-se fingindo sobranceiramente compreender e desculpar os outros que lutaram. Diz que não foi por medo, mas o certo é que nas ruas de Paris e outras cidades da Europa apenas havia o medo da perda de conforto pessoal e não o medo de vida ou morte; diz que foi por ideologia e anticolonialismo mas o certo, como depois se constatou, é que a guerra proporcionava mais liberdade de promover proficuamente o anticolonialismo que nouto local qualquer (registe-se que os pides infiltrados nas Unidades Militares não tinham a coragem de denunciar os companheiros que arriscavam a vida a seu lado); diz que foi por anti-salazarismo mas o certo é que foi na guerra do mato que se gerou o movimento consciente que levou ao derrube do salazarismo e não nas cidades-luz dos auto-exilados.

Certamente ingénuos politicamente, simples e rudes socialmente, ignorantes culturalmente, inocentes quanto a altos juizos sobre guerras justas ou injustas, foram enviados obrigados à força para as matas e picadas de África e cumpriram o seu dever do momento. Comeram dia e noite a ração de combate diária e o pó das matas e picadas africanas, meses seguidos sob o permanente risco de vida. Não precisam nada, mesmo nada, eu recuso-o totalmente, do comíseracionismo paternal atestado de "patriotismo" que PP quer atribuir aos combatentes de 1961 " tão capazes de uma heroicidade simples como a que louvamos nos de 'quinhentos' ". Passados estes 50 anos, visto sob a serenidade de julgar que tal afastamento proporciona, cada vez se torna mais evidente que a História apreciará mais e registará primeiramente quem lutou e não quem se auto-excluiu. 
Não é apenas porque a sua música era superior que o José Afonso foi sempre mais ouvido e importante que os outros cantores exilados, foi também e sobretudo porque lutou, enfrentou e sofreu cá dento junto dos seus.

Por fim, PP propõe que " uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo" porque, "bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma atitude" a que ambos tomaram, quer os auto-exilados quer os combatentes. Só numa concepção da imaginação se pode dizer que foi a mesma atitude, porquanto PP ao ver as imagens dos soldados de 1961 na guerra de Mauser na mão, pode ver-me a mim que estava lá, mas nunca a ele que se recusou participar.
O mesmo fragmento de Heraclito citado na abertura deste texto, traduzido-interpretado por Simone Weil é mais completo e diz: -A guerra é mãe de todas as coisas, rainha de todas as coisas, e revela alguns como deuses, outros como homens, e torna uns livres e outros escravos-.



(ª) - Texto escrito e postado no Blog APCGORJEIOS em 04 de Maio de 2008.

 

sábado, 19 de março de 2011

GUERRA COLONIAL, 50º ANIVERSÁRIO

“Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar”, afirmou o chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva.

O Chefe de Estado, Aníbal Cavaco Silva, não pode desconhecer as condições que levaram os jovens desse tempo, nosso tempo, a embarcar em navios superlotados de homens e tarimbas-cama de palha, para sofrer os perigos de morte e agruras de uma guerra a milhares de quilómetros de sua Pátria e familiares.

Os jovens desse tempo, nosso tempo, não foram para a guerra desprendidos e empenhados em missões e causas essenciais ao futuro do país, mas sim enviados obrigados a bater-se por causas de sobrevivência e honestidade individual, para além de uma vaga ideia de defesa da Pátria incutida pela informação oficial da ditadura. Eram, na maioria, jovens rurais simples e puros aldeões sem ideais de glória, enviados à força sem possibilidades de recusa o que levou a deserções e emigrações "a salto" para fugir à "guerra do ultramar".

Porque, lembro, nessa guerra os jovens caídos em combate eram enterrados à sombra de algum imbondeiro no mato, visto a Força Aérea, estar proibida de transportar mortos. Na realidade, os jovens cumpriram a sua parte mais que o dever impunha e honraram-se, mas ao governo da guerra apenas interessou a prestação dos sofrimentos e sacrifícios, para de imediato abandonar os sacrificados, sem cuidado nem honra.

E que não eram causas essenciais provou-o o facto de, após 9000 mortos e muitos mais feridos física e psicologicamente, tudo ter acabado, e tanto sangue e sacrifício dispendidos com entrega e abnegação, terem servido para nada.

Senhor Presidente, incentivar, os jovens de hoje, com o exemplo dos jovens forçados a suportar uma guerra, só pode alertar negativamente a actual juventude. Não é o tempo nem o caso justificava exortações de comportamentos guerreiros aos jovens de hoje. Foi um equÍvoco do Presidente e um mau recado para os jovens actuais.


quinta-feira, 3 de março de 2011

CAMARA CLARA-ESCURO

CORTINA MIRABOLANTE (Nikias Spakinakis)

Estamos já em plena marcha acelerada para mais uma falaciosa conversa mediática sobre a guerra colonial para "assinalar" o cinquentenário do rebentamento dela em Angola.
O sinal visível de que se pretende transformar a Guerra, a real, a que se passou no terreno, as acções dos homens e das Unidades Militares, factos causas e factos consequências, em interpretações literárias sobre a Guerra, foi a conversa vista no programa cultural "Camara Clara" da RTP2. O jornalista Joaquim Furtado, o ex-ministro salazarista do Ultramar Adriano Moreira e a dona do programa, juntaram-se à volta de uma mesa repleta de livos. E encetaram, continuaram e encerraram a conversa à volta da Guerra esgrimindo as várias interpretações dos autores desses livros.

Provavelmente alguns desses autores nem estiveram lá e outros, muitos, mais provavelmente ainda, passaram pelos Serviços de Intendência ou Administrativos da Guerra e ouviram falar de histórias ou opiniões de guerra por terceiros que depois ficcionaram ou fantasiaram. A Guerra Colonial começa a transmutar-se na "história da guerra colonial" segundo as diversas interpretações dos factos e usos pessoais de estilizações literárias em proveitosas edições comerciais.

Ainda os protagonistas e testemunhos directos estão vivos e já se encetou a revisão e substituição da Guerra que vivemos de tiros e balas, de feridos e mortos, pela versão "distante" dos factos, isto é, pela versão interpretativa segundo o ponto de vista sociológico de cada intérprete ou historiador. Num programa cultural como "Camara Clara" era inevitável tal abordagem literária da Guerra. Espanta é que Joaquim Furtado, autor de uma série séria fundamentada nos intérpretes e nos factos acontecidos, se encontre frente ao salazarista A. Moreira e não o confronte com o seu apoio indiscutível a Salazar e à Guerra e sua efectiva responsabilidade nas nefastas consequências para o país e jovens combatentes obrigatórios. E pelo contrário se ponha a discutir floreados discursivos da dona e as nunca vistas, e só agora recordadas, intervenções de AM no sentido contrário à condução salazarista da defesa do Ultramar.

Embora presentes e bem vivos durante anos e anos, nunca os Comandantes das Grandes Operações militares no terreno do teatro de Guerra, foram ouvidos ou chamados a prestar testemunho sobre tais envolvimentos operacionais. Foi sempre dado voz, preferencialmente, às visões de pequenas histórias pessoais vividas no interior dessa grandes operações. E, quase inevitavelmente, o contador dessa história que viveu, coloca-se no centro da acção ou lugar do herói, fantasiando o episódio nesse sentido.
Uma mais fiel aproximação à verdade exige que o autor desapareça do centro de cena e mesmo do palco de acção, sob pena de cair na tentação pessoal de fantasiar em proveito próprio.

Exemplos típicos de episódios fantasiados ou de pura imaginação ficcionista literária, que circulam por livros de histórias da guerra colonial são, uma os casos mentirosos ficcionados por Lobo Antunes e outra é o relato, fantasiado até ao ridículo, da morte de Maneca Paca pelo Comandante Ten. Cor. Maçanita, na batalha do Luica no decurso da operação Viriato.
Se se continua a contar a história da Guerra Colonial pelas ficcções e fantasias de autores literários, teremos, não História, mas um bom guião cinematográfico