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domingo, 8 de maio de 2011

Dr. JOÃO ALVES PIMENTA, NOSSO TEN. MIL. MÉDICO

80º ANIVERSÁRIO

E o dia do merecido 80º aniversário em quase perfeito estado de saúde cumpriu-se no dia certo com a certidão de nascimento. Agora, após uma total dedicação a praticar o bem à volta da sua vida, certificado por quatrocentos amigos que o rodearam e cantaram os parabéns em conjunto, ligados por essa dádiva sua que espalhou sobre todos nós: fazer o bem e dar o melhor "até ao fim".

Nele, dar "até ao fim", significa dar tudo de sí sem esmorecimento, desistência ou abandono, sob que circunstância fôr. Foi o que fez connosco do Esq. Cav. 149, quando recusou a promoção ao posto imediato, para não nos "abandonar" e estar connosco "até ao fim" da comissão em Angola.

O Nosso Esquadrão 149 esteve representado por uma dezena de seus companheiros de guerra em Angola entre 1961-1963, e o advogado Ribeiro de Cavalho, que foi o mais jovem Alferes Miliciano do Esquadrão, e também o que abriu as portas da guerra num combate com feridos, em Seu nome pessoal e Nosso proferiu as seguintes palavras abaixo reproduzidas.



Meu Caro Dr. João Alves Pimenta

Encarregaram-me os Seus e meus Camaradas do Esquadrão de Cavalaria 149 de dizer hoje algumas palavras neste jantar de homenagem dos Seus 80 anos.

Através do livro que, em boa hora, a Sua Exma Esposa fez publicar, todos os Seus Amigos e admiradores que hoje aqui se encontram têm conhecimento da vida exemplar de um Homem que mais se preocupou com os outros do que consigo próprio, de um Homem com uma vida pública, cívica e privada a todos os títulos excepcional.

Para nós, que consigo privámos em penosas e difíceis condições durante mais de 2 anos, nunca constituiu surpresa que viria a ter, na vida civil, um percurso profissional e pessoal à altura das grandes qualidades que aprendemos a reconhecer-Lhe.

E, no entanto, quanto de riso, de espanto e incredulidade quando soubemos, no Ambriz, à volta de 20 de Julho de 1961, que o Médico que fora atribuído ao nosso Esquadrão estava a acabar a especialidade de Obstetrícia. “Ó diabo, isto vai ser complicado”, pensámos nós.

Mas não foi, como logo verificámos no dia 25 de Julho quando eu regressei com o meu pelotão da 1ª emboscada que o Esquadrão sofreu, trazendo 5 feridos, logo desveladamente assistidos pelo Dr. João Alves Pimenta.

Não vou falar-Vos das vezes sem conta em que alguns de nós se salvaram graças aos abenegados esforços e a inexcedível competência profissional do nosso Médico.

Que foi Médico, mas que foi igualmente Militar, intrépido debaixo de fogo, nunca recuando perante o perigo, antes arriscando a sua própria vida para socorrer os militares do Esquadrão atingidos em combate. De tal sorte que, com toda a justiça, foi condecorado com a Medalha de Prata de Serviços Distintos com palma.

Gostaria antes de salientar dois ou três outros aspectos da multifacetada personalidade e da humanidade do Dr. João Alves Pimenta.

Convém salientar que o Dr. João Alves Pimenta, para além de ter já concluído o seu Curso de Medicina e Cirurgia na Universidade de Coimbra, tinha mais cerca de 10 anos de idade que a maioria de nós (sem contar, obviamente, com o Capitão Rui Coelho Abrantes e os Sargentsos do Quadro), o que lhe dava uma experiência de vida que nós, miúdos de 20/21 anos, não tinhamos.

Daí que, instintivamente, todos nós, por uma razão ou outra, passassemos a breve trecho a procurar o seu conselho, o seu apoio, o seu ombro amigo e sempre atento para desabafar uma tristeza, uma saudade, um desgosto amoroso potenciados pela inultrapassável distância.

O Dr. João Alves Pimenta foi para nós, nesse atribulado período da nossa vida, o Pai, o conselheiro, o psicólogo e, principalmente, o AMIGO.

Todos nós, os do 149, temos uma história, um episódio, em que a figura principal é o Dr. João Alves Pimenta. A sua sobriedade, a sua disponibilidade para nos atender, a sua atenção aos pormenores de todos e cada um de nós, ficará para sempre no fundo dos nossos corações.

Como poderia eu esquecer que um dia, no Mucondo, o Dr. Pimenta me disse que me ia mandar a Luanda tratar dos dentes, de que eu felizmente não padecia e, perante o meu espanto, disse que já tinha assinado a guia de marcha e que eu visse no Hospital Militar de Luanda se tinha, ou não um dente cariado. Mas que não regressasse antes de oito dias. Só depois desses oito dias de “férias”, em que se apurou,como eu já sabia, que não tinha qualquer cárie, é que me apercebi que, de facto, já estava a ficar um bocado perturbado por longos meses no mato, do que o Dr. Pimenta se apercebeu e atempadamente acudiu.

Hoje fala-se muito de “stress pós-guerra”, de que na altura nunca ouviramos falar. Mas, e com isto termino, o Dr. João Alves Pimenta antecipou essa realidade, ao deixar escrito no seu livro “História do E.Cav. 149”, impresso ainda em Luanda, antes de regressarmos em 1963:

“A maneira como amparámos os militares, durante todo o período de permanência em Angola e a forma como se soube conhecê-los, actuando no momento oportuno com conselhos, ou com facilidades, permitiu que, em todas as circunstâncias, não tivessemos um só caso de psicose que fosse necessário evacuar para o Hospital Militar de Luanda.

A preocupação em recuperá-los fisicamente, logo que as circunstâncias o permitiram, deram e estão dando os seus frutos, como se pode constatar pelo razoável aspecto físico presente ... e cremos que, em Outubro, ao chegarem à Metrópole, com 27 meses de permanência em Angola, sempre na Zona de Intervenção Norte, poderão ingressar nos seus misteres, sem necessitarem de um período de adaptação”.

Resta-me, pois, em meu nome pessoal e em nome dos militares do Esquadrão de Cavalaria 149, agradeçer-Lhe, Dr. João Alves Pimenta, tudo quanto por nós fez, manifestar-Lhe a nossa fiel e incondicional amizade, apresentar-Lhe os nossos afectuosos parabéns e, com um grande abraço, desejar-Lhe uma longa e feliz vida.

Évora, 6 de Maio de 2011

(António Ribeiro de Carvalho

Ex- Alferes Miliciano do E.Cav. 149)

domingo, 1 de maio de 2011

80 ANOS A DAR ATÉ AO FIM


Faz 80 anos no próximo dia 6 de Maio de 2011, aquele que foi designado para o Nosso Esquadrão 149 e embarcou connosco no Vera Cruz em 27 de Junho de 1961 para Angola, como Ten. Mil. Médico da Nossa Unidade.

E também foi médico e muito a sério salvando corpos feridos quase alminhas com total entrega à luta pela vida de Soldados, para além de ter sido o grande regaço amparo familiar de todos, aceite e respeitado conselheiro apaziguador de almas aflitas devido ao medo e isolamentos longos no meio do mato sob permanente perigo de vida e morte. Tão grande foi a sua dedicação ao seu cumprimento de serviço e seu gosto de praticar o bem que ainda lhe sobrou tempo para dar consultas diárias a dezenas de indígenas e até para ir de urgência, noite dentro e sanzala fora, salvar nativos mães e filhos de partos em risco.
Depois disto tudo ainda teve a alma grande de escrever e imprimir, antes do embarque em Luanda, um livro descrevendo minuciosamente as acções, lugares e feitos do Esquadrão nas missões que lhe foram atribuidas durante os vinte e oito meses em Angola.

Homem que em todas as situações e circunstâncias estava no seu posto pronto para socorrer e dar tudo por tudo para salvar e curar, só pode ser considerado um grande Homem, e se foi grande sob todos os aspectos e qualidades que exerceu junto dos Soldados do Esquasrão, então é digno e merece, tal HOMEM, que esta palavra referida a sí seja escrita inteira com letras grandes.

Disse o nosso outro grande Herói do Esq.149, o Comandante Cap. Rui Abrantes, que o Dr. João Alves Pimenta, Nosso Ten. Mil. Dr. Pimenta, foi designado e aceitou ir para Angola depois de várias recusas artificiosas e por influências poderosas, de outros médicos. O Dr. Pimenta aceitou o desafio de servir com abnegação e total entrega os Nossos Soldados em Angola quando já era assistente da Universidade em Coimbra e tinha uma vida familiar própria.

Demos Graças, à boa hora em que tal HOMEM foi designado para estar junto de nós, pois também nós estavamos designados para participar em grandes e perigosas operações, pelo que a sua colaboração foi uma dádiva preciosa. E tanto mais quanto, como nos confessou em Lanceiros II no nosso primeiro encontro, quando foi proposto ao posto imediato de capitão, não aceitou para não nos "abandonar" e estar connosco "até ao fim" da comissão.
Bem haja Dr. João Alves Pimenta, Nosso Dr. Ten. Mil. Médido do Esquadrão 149, e que muitos anos ainda esteja e confraternize connosco: o que fez por nós e o seu exemplo de vida educa-nos, etimula-nos e conforta-nos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DR. JOÃO ALVES PIMENTA V

DEPOIS DAS BALAS, DEPOIS DE... (x)

Depois das balas e carne rasgada
quem de pronto nos acudia?
Depois das feridas e estilhaços
quem de mão firme e armada
de garrotes, lancetas e cirurgia
sarava buracos, cosia pedaços?
Depois de meses de mato e mato
e perda mental quem nos protegia?
Depois da moral em baixo e fadiga
física das batidas, que mãos e trato
humano nos animava e nos valia,
nos devolvia a alma na mão amiga?
Depois d'afugentar mortes a lanceta
quem salvou vidas quase alminhas?
Depois de resgatar soldados à morte
quem foi noite fora dar à Mãe preta
menino preto, pretinhos e pretinhas
salvas por suas mãos saber e porte?
Depois de tanta guerra e tanto bem
distribuir, quem foi herói imparcial?
Depois de tanta vida e tanta luta
nobre a dar a mão e levantar recém
almas caídas, quem foi umbilical
cordão entre vida e morte em disputa?
Depois de tanta guerra e vida veloz
a zelar vidas, resta apenas o coval?
Depois do derradeiro combate
pode o céu levá-Lo, que para nós
será memória viva, que a Um Tal
Homem nenhuma morte há que o mate.


José Neves
Gorjões, 10.10.2007

(x) - Poema lido na confraternização anual do Esq. Cav.ª Nº 149
em homenagem ao Dr. João Alves Pimenta.
Évora em, 13.10.2007

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

DR. JOÃO ALVES PIMENTA IV


Foi ante-ontem, dia 28, no palácio D. Manuel em Évora, a apresentação pública do livro de M. Reis "Dr. João Alves Pimenta - Um Modo de Estar na Vida". Trata-se de um apanhado biográfico dos factos mais relevantes que "visa transmitir um conjunto de testemunhos sobre a vida de um Homem", como se diz no prefácio. E esse Homem é precisamente o Dr. João Alves Pimenta, o que foi o nosso Ten. Médico, amigo e irmão sempre presente, na guerra em Angola.









EM MEMINO COM OS PAIS
















COM A IRMÃ ROSÁRIO















COM OS PRIMOS

















RAPAZOTE ADOLESCENTE
















TEMPOS DE COIMBRA


















TEMPO DE TROPA
















TEMPO DE GUERRA
NO ESQ. CAV.ª 149








Após a recepção aos convidados, Ana Beatriz R. Ferreira leu um poema de M. Reis "Parar é Morrer", onde consta:
"...Procurou soluções p'ra situações desesperadas/Deu luta à morte sem tréguas e confortou corações".

Seguiu-se uma intervenção do Dr. António Santana Maia:
"...como diziam os romanos, o que não está nas actas não existe, o mesmo acontece hoje, só existe o que fica escrito, daí a importância deste livro na medida em que o Dr. Pimenta pela sua verticalidade e honradez, pela sua dedicação aos outros e à causa pública, é uma daquelas vidas que merece ficar registada para servir de exemplo a todos nós para mais num tempo tão carente de bons exemplos" .

E depois, uma intervenção do Dr. Sertório Leal Baraona:
"Falar do amigo Dr. Pimenta traduz para mim alguma inibição por não poder dizer algumas coisas que gostava de evidenciar. Uma delas, ou várias delas, seria enunciar em primeiro lugar, os defeitos do meu amigo Dr. João Pimenta. Só que não posso, não sou capaz, não sei como, sou ofuscado pela amizade e pela dimensão moral, intelectual e como médico deste cidadão livre que se estabeleceu em Évora há mais de quarenta e dois anos. E isto leva justamente a esta homenagem que é mais que merecida, é justa, e para além de justa, reflecte que ainda há cidadãos, como todos que aqui estão e muitos outros, capazes de renconhecer aquilo que é óbvio e evidente numa sociedade moderna. Temos que valorizar quem faz bem, quem é competente, quem arrisca a sua vida em benefício dos outros, que leva uma esteira de acção continuada de como médico, tendo como objectivo: o bem estar, a saúde e o futuro dos doentes. Sem sombras de dúvidas, e mais, e sem interesses pecuniários que alimentem a sua vida. Eu recordo, é um facto, que o Dr. Pimenta não cobrava consultas à maior parte das suas pacientes".

Houveram depois pessoas da assistência que quizeram prestar o seu testemunho e reconhecimento pessoal ao homenageado biogafado em livro pela sua vida exemplar de Homem que, como as árvores, sente o vento, acena mas nunca perde as raizes e sua verticalidade.
Entre essas pessoas falaram o Ex-Furriel Adolfo Contreiras que leu uma resenha do que está abaixo já publicado neste sítio. Outro elemento do Esquadrão 149 que interveio foi o Ex-Soldado Américo Nunes que afirmou(cito de memória):
"...Não fui para a guerra para ser herói nem me considero tal. Fui obrigado, contra vontade e passei mal de fadiga, alimentação, doenças e sobretudo corri perigos de morte constantes. Contudo, hoje reconheço que, apesar de tudo, só para ter conhecido, convivido e ter como amigo pessoas como o Dr. Pimenta valeu a pena ter estado lá, na ingrata guerra colonial".

























Falou ainda o Presidente do Município de
Évora para agradecer a honra que era para Cidade ter uma figura ilustre, pela postura cívica e qualidades profissionais e humanas, como a do Dr. João Alves Pimenta.





E por fim houve ainda lugar a um "Momento Musucal" a cargo da Tuna Académica da Escola Superior de Emfermagem de S. João de Deus de Évora, onde o Dr. Pimenta è professor.
Seguiu-se a indispensável recordação de marcar o livro com a estimada assinatura do autor.






























































































































sábado, 28 de novembro de 2009

DR. JOÃO ALVES PIMENTA III

DISCURSO DO DR. PIMENTA NOS 25 ANOS

Discurso do Dr. João Alves Pimenta perante os antigos militares e familiares do Esq. Cav.ª 149, pronunciado em Lanceiros 2, Lisboa, em 15 de Outubro de 1988, na confraternização comemorativa dos 25 anos do regresso de Angola.

Note-se como o Dr. com emoção sentida se dirige aos seus amigos com quem conviveu no mesmo sofrimento de agruras e dificuldades no perigo e privações do dia a dia de guerra sem quartel. Como nos indica que devemos ter orgulho, e não vergonha, na nossa passagem pela guerra e como esta, no nosso caso, foi uma escola para a vida tornando-nos mais fortes e melhor preparados para enfrentar as novas agruras da vida civil posterior. Como nos informa que não aceitou ir para promoção ao posto seguinte, capitão, para não deixar o Esquadrão e nos abandonar. Como nos atribui a todos a dignidade de termos pertencido a uma Unidade ímpar de heróis e se despede como Irmão.
Resta comentar que se o Esq. 149 foi o que foi, uma escola de Homens, a ele, que foi o seu melhor Professor e Mestre lhe devemos substancialmente.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

DR. JOÃO ALVES PIMENTA II


AO DOUTOR JOÃO ALVES PIMENTA E ESQUADRÃO 149 (x)

Eu fui, dado nunca ter sofrido “baixa” e o Dr. Pimenta me dar sempre como apto, o graduado que provavelmente em mais operações participou. Cumpri integralmente todas as instruções do Alferes Ribeiro, meu comandante directo, com a coragem e racionalidade necessárias para o bom desempenho das missões. Cumpri a tropa e a guerra sempre numa actitude de serviço e lealdade quer para superiores quer para subordinados. Nunca fui ferido mas fui muitas vezes atacado, o meu pelotão teve 3 baixas, 2 mortos e um evacuado, dois deles eram da minha secção. No Mucondo, o tiro que matou o Pires, valente e digno Soldado raso, foi dirigido a mim e só por erro e por milímetros falhou o alvo apontado. Por feitio e por consciência moral, sempre encarei o cumprimento do dever, mesmo sob risco, como mais um acontecimento da vida a enfrentar com normalidade, sem tremideiras a pensar no futuro. Contudo a visibilidade deste comportamento, que ainda hoje pratico e julgo correcto, nunca ultrapassou o espaço de opinião do meu pelotão. Quero dizer com isto que, durante a nossa guerra, fora do pelotão, ninguém deu pela cumpridora normalidade da minha presença, penso até que o Cap. Abrantes apenas soube que existia após as nossas primeiras confraternizações anuais e o Cap. Fernandes nem isso. Contudo, não estando eu em observação sob o olhar nem no espírito dos meus camaradas deu-me todo o tempo e liberdade para ser eu próprio o observador do comportamento humano dos nossos militares face à guerra, ao perigo, ao isolamento, tal como reflecti e descrevi no meu livro sobre o Esquadrão 149.

Mas sem dúvida o maior e melhor observador, com olho clínico, médico-psiquiatra para além do de zeloso pai e mãe da família acampada, foi o nosso inimitável e ímpar Dr. João Alves Pimenta. Aliás, a parte substancial das observações sob o estado físico e moral das tropas que refiro no meu livro, são de sua exclusiva autoria, retiradas do livro que escreveu sobre o percurso militar do Esquadrão. O Dr. Pimenta tinha, tem, todas as qualidades que descrevi acima como minhas, mas ele tem inúmeras mais, tantas que abarcam todos os caracteres humanos, em tal qualidade e perfeição que ultrapassa qualquer fasquia, numa disponibilidade e entrega total e sob uma honestidade e afabilidade inultrapassáveis. Ele foi o grande responsável pela boa saúde física, mental e moral da nossa Unidade, além de homem de elevada competência técnica, moral e intelectual posta ao serviço de todos igual. Pôs todo o seu saber e mestria, sem distinções, ao serviço de todos e imediatamente grangeou o respeito e admiração do Esquadrão, soldados e oficiais sem excepções, e deste modo todos confiassem nele como médico, mas sobretudo todos sentissem e confiassem nele como o pai, a mãe, o mestre ou o confidente.

O nosso Dr. Pimenta curou tudo o que havia para curar e salvou todas as vidas que era possível ainda salvar. No Quixico, durante uma noite inteira, operou com lancetas e garrotes à luz de gambiarra e salvou pernas e uma vida. Estando em Luanda accionou todos os meios necessários para, mal o Palhavã chegasse ao hospital, tudo estivesse a postos e salvou-lhe a vida. Em todos locais de acampamento habitados, foi médico dos indígenas igual como para a tropa e, alertado correu sempre, noite ou dia, para a cubata na sanzala para salvar mães e crianças de parto. A sua postura face aos feridos e doentes foi sempre de total abnegação e guerra feroz à morte. Só não curou os que lhe chegavam à mão já mortos, mas mesmo a alguns desses considerou-os vivos para que fossem transportados e sepultados em Luanda, para mais facilmente poderem ser resgatados depois os corpos.

Quem ler o meu livro com alguma atenção crítica, facilmente detectará ao longo de toda a narrativa, mas muito especialmente em alguns poemas, a existência de dois heróis acima de todos; o Cap. Rui Abrantes e o próprio Dr. Pimenta. O livro termina afirmando, como corolário do percurso e feitos militares do Esquadrão e consequentes constantes perigos e duros sofrimentos que passámos, ao longo de todo o tempo de guerra, que afinal todos foram merecidamente heróis. É verdade, mas a força de vontade, a força anímica, a coragem serena, a conduta cívica e militar exemplar existente no interior da Unidade, que conduziu ao comportamento heróico geral, teve a sua fonte, foi cultivada e tornada organizada e consistente por força da capacidade e exemplo destes dois heróis maiores. Ao Cap. Abrantes coube, e fê-lo magnificamente, ser o estratega militar da tropa, e como tal foi o pai da unidade militar dentro do Esquadrão, ao Dr. Pimenta coube, e fê-lo exemplarmente, ser o estratega da condição física, psíquica e moral da tropa e como tal foi o pai da unidade familiar dentro do Esquadrão. Deve-se ainda ao Cap. Abrantes, como comandante das tropas em guerra, o nosso agradecimento pelo facto de ter a visão e o tacto militar de ter percebido os dotes superiores ímpares do Dr. Pimenta, dando a este toda a liberdade para exercer o seu munus de pacificador de almas entre a tropa. Só pela conjugação e perfeita complementaridade das qualidades e acção destes dois homens, ainda para mais coadjuvados por um grupo de oficiais valorosos, valentes e inteligentes, que reconheciam nestes dois superiores, qualidades humanas extra de comando, chefia e exemplo, que por sua vez também souberam transmitir e incutir, sem baixar a qualidade, à boa massa humana de sargentos e soldados, foi possível atingir um grau de unidade, coragem e prontidão muito além do comum e normalmente visto noutras Unidades militares.
O Dr. Pimenta foi para nós, certamente, tudo isso que nós sentimos que Ele foi e muito mais coisas boas, face ao teatro de guerra e isolamento prolongado no mato rodeado de perigo de morte por todos os lados, mas sobretudo Ele foi sempre o nosso sábio Irmão Mais Velho.


Fomos para a guerra moços cheios de ingenuidade individual, e voltámos da guerra homens feitos cheios de humanidade solidária. Fomos para a guerra armados de inocente mentalidade guerreira, voltámos da guerra armados de uma consciente e firme mentalidade de força de paz e trabalho. Fomos para a guerra sem vontade e à força, voltámos da guerra com uma enorme força de vontade. Fomos para a guerra fracos, submissos e mal preparados, voltámos da guerra mais fortes, mais sábios e lutadores vivos. Fomos para uma guerra suja como são todas as guerrilhas, fomos sempre apenas e só militares e voltámos limpos e de consciência tranquila. Tudo isso devemos á sorte de ter pertencido a uma Unidade Militar, chefiada por tais condutores e educadores de homens, sem imposições e violências de galões.
Só para ter conhecido e recebido formação de homens assim, foi uma honra enorme ter pertencido ao Esquadrão de Cavalaria 149. Eu tenho orgulho de ter sido furriel miliciano, combatente do Esquadrão de Cavalaria 149.



(x) - Lido no almoço de confraternização e homenagem ao Dr. João Alves Pimenta em Évora,13.10.2007 pelo autor,

Adolfo Pinto Contreiras
Furriel miliciano do Esq.149

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

DR. JOÃO ALVES PIMENTA

UM MODO DE ESTAR NA VIDA

Todos nós do Esquadrão de Cav.ª nº 149 que tivemos o privilégio de conviver de perto e intimamente na dura prova dos nove que é a perigosa situação de guerra com o, na altura, Ten. Mil. Médico Dr. Pimenta, jamais pode olvidar o Homem superior que sob a farda militar foi o nosso médico, psicólogo, pai, mãe e irmão mais velho a toda a hora. Aquele que, quer sob as balas do combate na picada quer na paz e sossego aparente do acampamento, nunca faltou no momento de socorrer em cima do acontecimento os feridos ligeiros e graves em combate. Sem medos ou exigências de protecções especiais: o sentido do dever de socorrer e tentar salvar foi sempre o impuso primeiro, institivo, demonstração de elevada entrega e nobreza de carácter.

Sem nunca despir a farda foi sempre Homem e Médico antes de ser militar e acima de tudo. Assistiu sempre com igualdade e a mesma dignidade os militares do Esquadrão como assistiu, tratou e medicou os nativos locais. Sem medo de emboscadas ou armadilhas deslocou-se às povoações e sanzalas para socorrer acidentados, doentes graves ou mães pretas grávidas em parto para tratar e salvar vidas. Substituiu o falecido Delegado Médico no Caxito e todos os dias deu consulta aberta a todos os nativos sem excepção, recebendo e tratando diariamente dezenas de feridos e doentes.
Se o capitão Abrantes foi o grande herói militar o Dr. Pimenta foi o grande herói da paz e unidade familiar no interior do Esquadrão. Foram ambos, os dois Grandes Homens que, embora de formação profissional e humana bem dissemelhantes, formaram uma dupla de entendimento e Comando que elevou a níveis inimitáveis a capacidade e qualidade do Esquadrão 149.

Quem acompanhou minimamente a sua posterior carreira civil sabe que, tal como já provara na guerra perante os Homens do Esquadrão 149, enfrentou a sua vida profissional com a mesma actitude de carácter ímpar e impoluto, sempre mais dedicado ao outros do que a sí próprio. Não foi por acaso que, imediatamente ao 25 de Abril, foi designado por escolha das forças vivas locais para ser o 1º Governador Civil de Évora em Democracia.
Desde sempre, os princípios deontológicos coincidiam, ou ficavam àquem, dos seus princípios éticos ontológicos, pelo que, fiel a sí próprio, haveria sempre de alguma vez chocar-se com alguns de formação rasteira ou politiqueira. A vida acabou sempre por dar-lhe mais razão a ele que aos outros, pelo que hoje vive rodeado de amigos e até as poucas inimizades contraídas já se renderam à grandeza humana do Dr. Pimenta. E isso porque, também ele, o Dr. Pimenta, mesmo a esses que o contradisseram sem razão, nunca lhes quiz mal algum. Como é timbre dos Homens Bons.


UMA JUSTA E MERECIDA HOMENAGEM

Sábado, dia 28 de Novembro de 2009, pelas 15,30H, no Palácio D. Manuel em Évora, uma justa e merecida homenagem vai ser prestada ao Dr. João Alves Pimenta, com o lançamento do livro "DR. JOÃO ALVES PIMENTA - UM MODO DE VIDA", da autora Maria Reis, sua companheira dedicada.

E estamos em total acordo de sentimentos com a autora quando nos diz que o fez "por uma questão afectiva e de justiça porque acho que o Dr. , pela postura que sempre teve para com os que dele precisaram e continuam a precisar, merece que fique um registo da sua passagem por esta vida".




HOMENAGEM DO "MEMÓRIA 149"

Nós, "Memória 149", morada dos combatentes que foram privilegiados pela inesquecível companhia e ajuda médica e humana do Homem limpo e inteiro que foi e é o Dr. João Alves Pimenta, associamo-nos de alma e coração a esta homenagem simples de acordo com a simplicidade da grandeza do homenageado.
E reproduzimos o poema que no livro"Esquadrão 149 - A Guerra e os Dias", conta o episódio ocorrido no ataque à frente da coluna quando nos deslocáva-mos no Quixico, entre Nambuangongo e Quipedro, e o Dr. se viu confrontado entre o risco de morte pelo caminho por demora até Luanda ou operar ali mesmo um ferido grave a esvair-se com uma perna desfeita.




OPERAÇÃO FRONTAL II

A palavra e o conhecimento, por sí só, não faz o homem,
são as suas acções que o definem e confrontam,
as suas qualidades que o abaixam ou o alevantam,
as suas actitudes que o escondem ou o descobrem
quando nos momentos necessários, decisivos, apontam
o dever e agem a bem dos outros, que ajudam e socorrem.
Explico,
Face à impossibilidade de proceder à evacuação
aérea dos feridos, sobretudo o grave que não aguenta
perder mais tempo, a equipa do Dr. Pimenta,
reúne todos os limitados meios que tinha à mão
e resolve operar ali mesmo no Quixico.
Foi uma noite inteira sem descanso cirurgiando
à luz deficiente de uma gambiarra
utilizando meios rudimentares.
Mas a vida e a perna ficaram nos seus lugares
devido à vontade e determinação do Dr. que as agarra
e devolve ao Soldado, donde se estavam escapando.
Bem haja abnegada gente que com garrotes e lancetas
evitaram mais um português morto, ou de muletas.